Ao ler a notícia de que o Presidente da República portuguesa foi há dias recebido, na Alemanha, ao som do "Tia Anica de Loulé", veio-me à memória um episódio passado há quase 20 anos, em finais de 1989, em Lomé.Estávamos no acto formal da assinatura da 4ª Convenção de Lomé, estabelecida entre a Europa e 69 países espalhados pela África, pelas Caraíbas e pelo Pacífico. Foi uma cerimónia interminável, com imensos discursos e com os representantes de cada país a serem chamados, um por um, a assinar o texto, no palco de um grande auditório da capital do Togo. Logo que o nome de um país era mencionado nos altifalantes, e enquanto se processava a deslocação do respectivo dignitário para a mesa da assinatura, desciam, pelas escadarias laterais do anfiteatro, coloridos grupos de dançarinos, ao som de uma música alusiva ao país em causa, levando à frente a bandeira e um cartaz com uma grande fotografia do respectivo chefe de Estado (descobri esta imagem da cerimónia no Google).
Já me não recordo da música que foi escolhida para Portugal, mas lembro-me bem do grande espanto de toda a nossa delegação ao verificar que, sempre que eram chamados os ministros de cada um dos cinco países de língua portuguesa (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e S. Tomé e Príncipe"), a música utilizada era, invariavelmente, ... a "Tia Anica de Loulé"!
Imagino que alguns, com resquícios de radicalismo, pudessem ter pensado que se tratava de uma forma encapotada de neo-colonialismo musical, muito embora a organização do evento fosse africana. Pelo sim pelo não, acho que não suscitámos a questão junto dos nossos amigos dos PALOP...
O que cada vez mais fica provado é que a "Tia Anica de Loulé" tem uma misteriosa mas forte expressão internacional. Vá-se lá saber porquê!