Quando surgiu, e para a minha geração, Françoise Hardy representava um modelo muito particular na música francesa, ao tempo marcada por ritmos bastante mais vibrantes e sonoros. Aquela imagem "modiglianica", de cabelos longos, a tocar viola e a cantar, em tom sereno, coisas algo inocentes, dizia bem com a nostalgia de alguma juventude portuguesa dos final dos anos 60. Quem, à época, não terá ficado marcado pelo "Je suis d'accord" ou o "Ton meilleur ami"? Quase que pode dizer-se que Carla Bruni segue hoje muito do seu antigo registo musical.Perdi-a de vista, por muito tempo. Às vezes ouvia uma sua nova canção, mas, confesso, o estilo deixou de me despertar curiosidade. Ou melhor, só fiquei mais atento quando um dia constou que teria apoiado ideias racistas de Jean-Marie Le Pen, o líder de extrema-direita francesa. Posteriormente, ouvi-a recuar dessa atitude, num discurso um tanto embrulhado, de quem terá sempre grande vantagem em não andar muito pela política.
Li, há dias, as suas memórias, "Le désespoir des singes et autres bagatelles". Um livro bem escrito e bem articulado, que dá mostras de que percebeu a vida.
E ontem lá esteve, no Salon du Livre, a dar autógrafos. Não a vi, mas dizem-me que está como a foto acima a mostra, com o mesmo ar sereno, com os cabelos brancos. Acontece a muitos...