Encerra hoje o Salon du Livre, uma magnífica mostra da edição francesa, que teve este ano o México como país convidado.Em 2000, Portugal foi o país em foco, num belo stand encimado pela frase de Virgílio Ferreira “Da minha língua vê-se o mar”, a cuja inauguração assisti.
Mas esta é também uma oportunidade para lembrar a figura do então Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Paris, Eduardo Prado Coelho, figura de relevo na preparação da nossa excelente participação naquele evento.
Conheci o Eduardo num momento curioso: no final dos anos 60, um grupo de estudantes, representantes do movimento associativo universitário, entre os quais estava aquele que viria a ser o seu sucessor em Paris, Nuno Júdice, irrompeu por uma sua aula na Faculdade de Letras de Lisboa, num protesto académico ditado por uma razão que já me escapou. Lembro-me de ter tomado a palavra e, para sua irritação, “decretar” que a aula estava suspensa, a fim de informarmos os estudantes (essencialmente, as estudantes, lembro-me) da seguramente magna questão que ali nos levava.
Anos depois, fui seu aluno num curso de Semiologia (estava na moda!) no Centro Nacional de Cultura, tendo, mais tarde, convivido um pouco mais com ele em noites lisboetas, na Grã-fina e no Montecarlo. Era uma figura com uma intensa curiosidade intelectual, que tudo lia, que nos ia revelando, com erudição, as novidades recém-chegadas desta Paris que sempre o fascinou.
Eduardo Prado Coelho teve um percurso político e público por vezes controverso, mas é, incontestavelmente, uma figura a quem Portugal muito deve. Crítico e divulgador, descobriu e promoveu talentos em diversas áreas culturais, em especial na literatura, onde era um reconhecido especialista. Muitas das ideias que marcaram a modernidade nas últimas cinco décadas chegaram a Portugal pela sua mão, tendo essa sua intensa e dispersa actividade prejudicado, talvez, uma carreira académica na qual estaria vocacionado a ter sucesso. Nos últimos anos, dedicou-se à análise do quotidiano nas colunas da imprensa, tornando-se a sua leitura um vício para muitos, entre os quais eu me contava.
Em Paris, onde me recordo de o ter visitado nos anos 80 na sua casa no Marais, foi um entusiasmado militante da promoção cultural portuguesa, com um indiscutível êxito, como ainda hoje por aqui se recorda.
Por ocasião da sua morte prematura, em 2007, fiquei com a sensação de que o nosso país lhe prestou um tributo que ficou muito aquém do que ele verdadeiramente merecia. É pena.