
Foi um caminho longo, muito longo. Dos traumas da guerra às crises pós-independência, das andanças da UNITA por Lisboa aos acordos de Bicesse, das tensões diplomáticas pontuais à recuperação da confiança.As relações luso-angolanas parece terem encontrado, nos últimos anos, um ponto de estabilidade favorável aos interesses dos dois países. Ainda bem que assim sucede. E todos esperamos que assim continuem, agora que a nova prosperidade angolana lhe permite um cruzamento de interesses financeiros com Portugal.
Vivi em Angola, entre 1982 e 1986, num dos períodos turbulentos que marcaram as relações entre os dois países. Era um tempo de guerra civil, com Luanda quase sitiada, com recolher obrigatório e montras e lojas desertas. Às vezes não havia água, às vezes faltava a luz, dias havia em que, no Hotel Trópico, o menu era peixe frito com arroz ao almoço e arroz com peixe frito ao jantar. Salvavam-se os fins de semana na ilha ou no Mussulo, as lagostas do Mário em Cabo Ledo, os muitos amigos e a imensa simpatia de um povo sofrido e cansado.
No plano político-diplomático, foram momentos muito complexos para as relações bilaterais, anos de trabalho paciente e delicado. Espero que esse esforço possa ter contribuído para alguma coisa do que, posteriormente, se construiu.
A Angola de hoje - dizem-me - é algo diferente, mais cosmopolita e movimentada, com negócios a emergir por todo o lado, com uma presença portuguesa mais actuante e bem aceite. Mas, em especial, agrada-me pensar que os sorrisos largos e francos das quitandeiras dos mercados de Luanda podem agora reluzir, mais felizes. Bem o merecem!