sábado, 2 de janeiro de 2016

Mundo islâmico

Quando os americanos, sob o falso pretexto da existência de "armas de destruição maciça"*, atacaram o Iraque, muitos comentadores responsáveis alertaram para o risco de uma desagregação desse país poder ter consequências catastróficas para toda a região e, muito em particular, poder afetar o equilíbrio entre Bagdad e Teerão. Viu-se que tinham carradas de razão. A noção de que as grandes "obediências" muçulmanas - shiitas e sunitas - pudessem vir a agravar a sua tradicional conflitualidade estava também presente nesses avisos, que a "intelligence" americana desprezou, por irrelevante.

Se se olhar para a tensão nas últimas horas entre o Irão e a Arábia Saudita pode perceber-se que essa realidade está cada vez mais presente e sabe-se lá até onde poderá chegar.   

(*a propósito: à época, um opinador luso disse que, se acaso não houvesse "armas de destruição maciça" no Iraque, se passearia nu pelo Rossio. Creio que ninguém é "demandeur" do espetáculo, mas será que nunca mais voltou a opinar sobre o assunto?)

3 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Que de verdades neste "post" Senhor Embaixador! Gosto muito do último paragrafo ! O"corajoso" não aparecerá porque está frio! E é por isso que é pena que se possa comentar "anonimamente" !

Quanto à tensão entre a Arábia Saudita e o Irão, claro que o sisma entre sunitas e shiitas vai arrastar-se como as guerras entre os protestantes e os católicos na Irlanda se arrastaram durante séculos, até há pouco!

Os Americanos não são sensíveis a estes problemas de religião, na medida em que os negócios prosperam! São incapazes de analisar a evolução das civilizações, porque estes problemas são ocultados pela geoestratégia. E nesta são os interesses económicos que predominam. Ao ponto de fechar os olhos aos crimes perpetuados na Arábia Saudita , onde esta semana decapitaram ainda 47 pessoas, entre as quais um opositor ao regime, contra todas as regras democráticas, enquanto que os EUA são supostos estar à cabeça dos defensores no mundo dos valores da democracia.

Vamos lá explicar aos Americanos que podemos distinguir , se nos limitamos ao pensamento ocidental, aquele que se construiu à volta do encontro do monoteísmo bíblico e do racionalismo grego, duas formas religiosas do universalismo, o Cristianismo e o Islão, e uma forma secular do universalismo, as Luzes. Mas as Luzes para os Americanos são aquelas que brilham a Wall Street.

Anónimo disse...

Sr. Embaixador,

Não é verdade que a intelligence Americana tenha desprezado o assunto. Sucede que quem procedia a análises contrárias era afastado pela Administração Bush ou via o seu nome filtrado à imprensa.

Anónimo disse...

Caro Joaquim de Freitas, o "corajoso" não é anónimo - chama-se Vasco Rato, presume de intelectual, é amigo do anterior 1º ministro e foi nomeado por este para presidir à FLAD.É também a prova viva de que há casos -excepcionais!- em que devemos estar gratos pela falta de palavra.
MPDAguiar