sábado, 5 de dezembro de 2015

Uma agenda para o mundo

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O governo de António Costa parece determinado em dar à política externa um lugar de topo nas suas preocupações. O facto do Ministro dos Negócios Estrangeiros ser o segundo na hierarquia do executivo, e de ter sido escolhido para o posto um qualificado “peso pesado” socialista, é disso prova evidente. Se a isso somarmos a circunstância do MNE ter, pela primeira vez, quatro secretários de Estado, um dos quais dedicado exclusivamente à internacionalização da economia – que é outra maneira de dizer que coordena a AICEP -, fica claro que as Necessidades passam a ter um forte controlo sobre toda a ação externa.

Depois de um tempo em que a obsessão financeira fez estiolar a nossa afirmação internacional, as tarefas de Augusto Santos Silva e da sua equipa são muito exigentes. No plano europeu, vai ser necessário, desde logo … criar uma política! Sem prejuízo da centralidade inevitável das relações com Berlim, é tempo de explorar uma nova geometria variável de alianças, começando por uma participação ativa nas grandes reflexões temáticas europeias. O respeito pelos compromissos assumidos por Portugal em nada é contraditório com a sua eventual associação à revisão de quadros institucionais que o futuro venha a determinar como necessária.
   
A voz e as posições portuguesas têm de ser fazer ouvir, com determinação e coerência, nos grandes debates que aí estão – desde a governança do euro à política de refugiados, do combate ao terrorismo às relações com a Rússia, de uma resposta firme à provocadora agenda de “devolution” britânica até à fixação dos termos da Parceria Transatlântica. E, desde já, será necessário fixar uma posição portuguesa muito clara na revisão do acordo de Schengen e na coordenação das políticas migratórias, bem como definir cuidadosamente o grau de envolvimento nacional no combate coletivo ao Estado islâmico.

Para atenuar o insensato alarmismo lançado pelo chefe de Estado, o governo necessita de diluir rapidamente quaisquer preocupações criadas em torno dos compromissos nacionais no domínio transatlântico. As relações com Washington têm de ser cuidadas desde a primeira hora e a sequência do tratamento da questão das Lages será uma boa oportunidade para tal.

Independentemente do seu futuro político, a Espanha permanecerá o nosso primeiro parceiro comercial. As nossas relações passam por Madrid, e só por Madrid, se me faço entender. Por isso, não nos sendo indiferentes, as questões intra-espanholas continuarão a ser apenas isso mesmo.

Um terreno interessante, que parece pedir um “restart”, é a questão lusófona, com a política da língua associada. Lançar um debate sobre a CPLP, aproveitando para tal a futura presidência do Brasil e o facto do novo secretário-executivo vir a ser um português, pode ser uma oportunidade interessante, até para desmentir a ideia de que os socialistas não se sentem à vontade com os dossiês africanos. Um primeiro teste terá de ser, desde logo, a questão das relações com Angola, um tema delicado mas, como agora se diz, realmente incontornável, para o qual se espera que os partidos apoiantes do governo no parlamento, pelo menos, não atrapalhem.

Importa também, sem ceder a demagogias, retificar alguns erros crassos que se fizeram nos últimos anos em matéria da rede e da estrutura das missões diplomáticas e consulares, aproveitando para tentar refletir sobre o modelo do relacionamento com uma diáspora em crescente mutação.

E, “last but not least”, é da maior importância garantir um acompanhamento, eficaz mas sem o foguetório promocional recente, do extraordinário trabalho das nossas empresas no exterior, procurando, em paralelo, captar investimento produtivo e manter o turismo nas grandes prioridades da economia nacional.

Conhecendo os novos governantes e a dedicação e qualidade da nossa máquina diplomática, devo confessar que me sinto bastante otimista.

(Artigo que hoje publico a convite do "Diário de Notícias")

5 comentários:

Anónimo disse...

É sempre assim: quando entra um novo governo o mundo começa:- agora é que vai (Ana Bacalhau)
João Vieira

Anónimo disse...

No governo Pinheiro de Azevedo, após Vasco Gonçalves, a palavra de ordem era "descomunizar". o MNE desde Amado, um entrista, encontra-se infestado até à medula de pessoal diplomático afecto ao poder laranja. A palavra de ordem agora deveria ser, reciprocamente, deslaranjizar. Veremos se Augusto Santos Silva é capaz de mostrar uma gestão menos sectária incluindo a reabilitação de figuras femininas de topo, de grande qualidade, que deveriam agora estar a chefiar uma Embaixada ou em posição de director-geral. A Itália ainda não é Portugal e em Portugal, mesmo com Augusto Santos Silva, vai continuar a não ser possível ter um embaixador de Portugal em Pequim depois de antes ter chefiado uma Delegação no Serviço Diplomático Europeu. Portugal é Portugal e há que continuar a defender ciosamente certos interesses.

Luís Lavoura disse...

não nos sendo indiferentes, as questões intra-espanholas continuarão a ser apenas isso mesmo

Em geral, não nos compete, nunca, imiscuir-nos nas questões internas de outros países.

Mas atenção, não nos imiscuirmos significa que também não podemos fazer quaisquer ameaças foleiras à Catalunha no caso de esta se separar do resto da Espanha. Estarmos a ameaçar a Catalunha de que sairá da União Europeia caso se torne independente é uma forma muito feia de nos imiscuirmos nos problemas internos de Espanha.

Joaquim de Freitas disse...

Senhor João Vieira : Não acha que quando tudo parece imobilizado, sem perspectiva atraente para centenas de milhares de jovens que só vêm no exílio a porta de saída dos problemas existenciais do quotidiano, na apatia mesmo dos governantes que não vêm também outra solução no horizonte próximo, que a mudança de algo se impõe?
Não se trata de ser forçosamente radical na nova "démarche" para a vida, mas, que diabo, porque seria proibido de trazer algumas mudanças no que parece um beco sem saída , sem esperança e sem motivação?
Por vezes é judicioso de repartir a 0 para reconstruir e abrir novos horizontes. Verdade para os indivíduos como para a sociedade . Aprende-se sempre algo no movimento!

aamgvieira disse...

Principalmente "aprende-se muito" com as sociedades medievais actuais que pretendem afundar a Europa.