sábado, 19 de dezembro de 2015

Mesa desmarcada


Já recebi vários remoques telefónicos e presenciais: "então este ano não organizaste o jantar da Mesa Dois?!". É verdade, por uma vez, deu-me uma de cansaço e decidi não meter mãos à obra (porque é obra!) e reservar um espaço (com estacionamento possível, onde se coma bem e barato, onde se possa fumar, com lugar para cerca de 80 pessoas), escolher o menu e os vinhos, contactar as cerca de oito dezenas de pessoas que, desde 2004, com falhas pontuais e ausências definitivas pela lei da vida, fui reunindo, uns dias antes do Natal. Depois, até à hora do repasto, era sempre preciso "check, re-check and check again", porque há os (e as) que acham que aquilo é uma espécie de "cash & carry", onde, se nos dá na mona ou na preguiça, se pode deixar de ir à última hora. 

A "Dois", a "Mesa Dois" desse excelente e inigualável bar que é o Procópio, nos últimos anos, já não é o que era. O Nuno Brederode Santos, seu imorredouro patrono, deixou de aparecer por lá. Essa ausência certa conduziu à rarefação dos "habitués", antes certos de aí poder ouvir a ironia divertida dos seus comentários, a animar uma tertúlia que fez história. 

Já nem sequer às 4ªs feiras, dia da convocatória residual regular (a 6ª feira é mais optativa), a mesa surge composta: apenas uns escassos e nem sempre garantidos parceiros por lá surgem, para confirmar a regra das crescentes ausências. Nem eu próprio consigo estar à altura dos mínimos, confesso. Além de que há amigos cujo estado de saúde impede ou dificulta aparecer, bem como outros que entretanto se foram. A última baixa definitiva foi o José Fonseca e Costa.

É verdade que a "Dois", por definição, tem vocação para ser uma trincheira política. O 25 de abril deu-lhe os alvores do seu destino, o cavaquismo forneceu-lhe por uma década um grande mote, ao passo que os "pafiosos" da "troika" não conseguiram nunca alegrar-nos o espírito crítico para além de um nível de adjetivação banal. Agora, uma vez mais com amigos chegados ao poder, a "Dois" perde algum estímulo crítico. Há sempre que esperar pelas crises para poder vir ao de cima o nosso melhor...  

Até lá, repito esta elegia nostálgica do (poeta) António Dias:

Elegia para a Mesa Dois do Procópio

"Não mais, amigos, já não existe
À roda da Dois a alegre companhia..."
Assim clamava, emocionado, o ancião.
Era quarta à noite. Do velho triste
Uma lágrima a alva barba humedecia,
Fazia tremer-lhe a voz a emoção.

"Lá nasceram poemas e amores,
Se reformou a Pátria, surgiram filosofias;
Esgrimiram-se epigramas, brilharam teses,
E litros de whiskey, de gin e de licores
Fluíam entre névoas de fumo. Alegrias
Quase sempre; tristeza às vezes, 

Mas sempre o cintilar da amizade.
Calou-se melancólico e um suspiro
Agitou-lhe o peito venerando. Amargurado,
O senhor Luís rasgou, com gravidade,
O velho letreiro, qual histórico papiro,
Onde se lia a palavra "Reservado".

Ao balcão, a Alice esconde a comoção.
É a crise, claro, o euro, o mercado
Tem muita força o que tem que ser.
Um bando adolescente e trapalhão 
Já desgasta o veludo avermelhado.
A mesa Dois acaba de se render.

Jamais o Procópio escapará à dor,
Terá a sua natureza amputada.
Mas é assim: o tempo tudo arrasa.
Afasta-se, solene, o provecto orador.
O cajado nodoso ajuda-o na jornada
Em direcção ao Restelo, onde é a sua casa.

2 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Triste balada de Outono! Sente-se a nostalgia no vosso discurso, Senhor Embaixador. Uma folha morta cai, docemente levada pelo vento.

Manuel disse...

Das 3 vezes que por lá passei, numa conheci o Raúl Solnado, apresentado por um amigo comum, e tratei-o por Nicolau Breyner para o provocar; da outra concertei o telemóvel da Alice Pinto Coelho cujo n.º ainda conservo. Da 3ª já não houve história de relevo mas será sempre um lugar com um carisma enorme, cheio de swing como diria o José Duarte.