quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A carreira e a vida


Luis Pinto Coelho pode não ter sido uma personalidade diplomática fascinante, mas acabou por tornar-se numa figura bastante interessante.

Governador civil, deputado do Estado Novo, comissário-nacional da Mocidade Portuguesa e professor universitário, este fiel servidor do salazarismo foi escolhido em 1961 para embaixador português em Madrid, cargo que desempenharia até Marcelo Caetano ascender ao poder, em 1968. Como diplomata político, a memória que dele guarda o Palácio das Necessidades não o eleva além da mediania.

Mas Luis Pinto Coelho acabaria por ter um percurso de vida bastante curioso. Tendo-se apaixonado em Madrid por uma americana lindíssima, sacrificou o seu lugar para poder viver ao lado da mulher de quem gostava. Nessa opção - contra tudo, contra todos e, em especial, contra as convenções da época - viria a mostrar uma dimensão humana muito interessante. Afastado de Madrid, Caetano dar-lhe-ia tempos mais tarde um lugar de conselheiro cultural no Brasil e, finalmente, colocá-lo-ia como embaixador em Buenos Aires, onde o 25 de abril o foi encontrar. Passou o resto da sua vida em Espanha, onde chegou a ser modelo fotográfico, nunca renegando as suas convicções salazaristas - o que, aliás, só lhe fica bem.

A sua neta, Sofia Pinto Coelho, publicou há meses uma memória carinhosa do seu avô, que eu havia lido com algum interesse. Na passada semana, assisti, por acaso, na SIC a um filme baseado nesse livro. Confesso que achei curiosa essa revisitação de uma existência pouco comum.  

16 comentários:

Alcipe disse...

Conheci-o em Madrid. Era um senhor muito bem educado. Lendo a (bem feita) biografia de Sofia Pinto Coelho, vejo que o senhor era medíocre intelectualmente (como já se sabia) e desejava a morte de todos os que tinham feito o 25 de abril. Gostei do livro, bem escrito e bem exposto, desgostei do personagem, medíocre e rancoroso.

josé ricardo disse...

Vi por acaso o documentário televisivo. Não conhecia o embaixador Luís Pinto Coelho e não me pareceu que a história contada tenha qualquer interesse que extravase os muros familiares. Talvez possa também servir para um sofrível argumento de uma qualquer e eventual novela patrocinada pela mesma estação televisiva.
Um abraço,
José Ricardo

ARD disse...

Só não concordo que "lhe fique bem" nunca ter renegado "as suas convicções salazaristas".
Afinal, cantam-se loas a muitos personagens manhosos que "renegaram as suas convicções comunistas" ( e outras...).

Reaça disse...

Salazar escolhia os melhores.

Uns ficavam fieis outros desistiam.

Nem todos tinham força para enfrentar os ventos da história.

Sós contra o mundo, ou por esse mundo fora não é para todos nem a qualquer hora.

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Podia até nem ser um Diplomata brilhante mas que era um Senhor com S muito grande isso ninguém lhe tira. É que para ser um Diplomata brilhante bastam alguns anos, para ser um Senhor são precisas gerações

Joaquim de Freitas disse...

Como muito bem escreveu Alcipe : " Medíocre intelectualmente , medíocre e rancoroso!" Compreendo porque são precisas muitas gerações para fazer um senhor!

Talleyrand "fez-se numa geração" !

Anónimo disse...

Tallyrand fez-se numa geração? Essa tem graça! Talvea investigar um pouco mais!
João Vieira

Anónimo disse...

Não li o livro, vi o filme. Do filme não se conclui que é uma personagem medíocre ou que fosse mau diplomata mas também não foi esse o objectivo. Concordo com a opinião que se trata de um assunto familiar mas interessante para a história do comportamento dos homens com mais de cinquenta anos, como sabem os que já os fizeram. Ninguém disse uma coisa óbvia: que mulher bonita era a tal Kit!
João Vieira

Joaquim de Freitas disse...

Bom dia Senhor João Vieira :

Possuo três biografias de Talleyrand. Admiro o Homem de Estado, um "Senhor" que , apesar de ter sido educado num seminário, como o seu ídolo de Santa Comba, ousou confiscar as riquezas da Igreja para melhorar a situação financeira da Nação, em 1789. E criou a "Constituição Civil do Clero" na qual a Igreja actual devia inspirar-se.
O outro seminarista confiscou antes o dinheiro do povo e a sua liberdade.

Talleyrand ousou mesmo dizer a missa no Campo de Mars no dia da festa da Federação, festa da Revolução, do 14 de Julho. Dia da França.

Este grande "Senhor", com um grande "S", não só defendeu, como diplomata, os seus interesses e a França durante os nove regimes de 1789 a 1838 perante as outras monarquias europeias, como ousou afrontar Napoleão no momento oportuno quando este descarrilava e corria à sua perda.
Afrontar o Imperador, que o insultou, isto é a marca dum Grande e verdadeiro Senhor, que se fez numa geração, a sua. Os pais eram nobres mas sem relevo especial na Corte.

Mas permita, Senhor João Vieira, que lhe fale doutro Grande Senhor, com um grande "S", também diplomata, mas Português, e que para mim porta a marca dos Grandes Senhores, dos Grandes Homens: Aristides Mendes de Sousa, cônsul de Portugal em Bordéus durante a última guerra.

Ele também afrontou o seu Chefe , Salazar, recusou as suas ordens e salvou milhares de Judeus e não só, que desejavam deixar a França, para fugir aos nazis. Vá até Jerusalém e verá no cemitério dos Justos o seu nome.
Pena é que só em 1986 o Governo Português o tivesse reabilitado, porque tinha sido condenado pelo fascismo .

Como vê, para mim, a qualificação de "Senhor" não deve ser usurpada ou não lhe deve ser concedida, por gente nostálgica do regime fascista que governou Portugal, e que em nome duma ideologia malsã, confundem um diplomata que viveu confortavelmente à sombra dum tal regime e se acomodou de todos os horrores que este infligia ao mesmo tempo aos Portugueses, com aqueles que dignificaram o nome de Portugal.

Era o tempo em que a "frigideira" do Tarrafal funcionava a pleno regime e Caxias estava superlotada de Portugueses patriotas.

Anónimo disse...

Ainda não entendi essa do "era um Senhor". Era elegante e educado? Elegante, parece que era, pois se até foi modelo.. se era educado, não faço ideia, porque nunca convivi com ele pessoalmente, nem conheço quem tenha convivido com ele. Admito que fosse tudo isso e que fosse inclusive hábil a manejar faca e garfo e dançar bem a valsa, prendas indispensáveis para um cavalheiro. Mas o que fez ele, como "Senhor", nas funções para o qual foi nomeado enquanto servidor público? Não era para isso que o Estado pagava? Em países em que ter uma função pública de carreira, seja secretário geral de ministério, embaixador ou contínuo, implica uma forte noção de ver público, como nos anglo-saxónico, isto é um dado adquirido. Naturalmente, sendo assim, qualquer memória publicada desses senhores tem em conta algo mais do que as suas aventuras amorosas. Enfim, isto é um livro escrito por uma pessoa sobre a vida do seu avô. É suposto que seja carinhoso e assim é que está bem. Não lhe atribuam mais importância do que isso.

Anónimo disse...

O sr Freitas terá que ter mais contenção nas suas diatribes para não por na boca dos outros o que estes não disseram. Poderá ter lido todas as biografias que queira mas não as entendeu. Estamos de acordo porém numa coisa: sou, desde sempre, m grande admirador do príncipe de Tallyrand, filho ,neto,bisneto etc do conde, marquês de talleyrand, com mais de vinte gerações de franceses ilustres como seus antepassados. Dizer que pertencia ao povo é tão errado como dizer que o sr. Freitas pertence à aristocracia. Mas nada disso importa para nada porque o que importa é a utilização dos dons com que nascemos. A maior parte das pessoas não os utiliza, desperdiç-os, não foi o aso de Talleyrand que foi excepcionalmente dotado em dons e utilizou-os em favor do seu país
João Vieira

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor João Vieira não leu o que escrevi : " Talleyrand fez-se numa geração" . Talleyrand, o diplomata, Senhor Vieira. Todos os títulos honoríficos importantes com os quais morreu foram obtidos à medida que o "diplomata" demonstrava a sua capacidade a defender os interesses da França.
Foi nesta posição de diplomata , o maior da História de França, que foi um "Senhor"!

Mesmo se lhe desagrada , a participação de Talleyrand na história da Revolução, ao lado do povo, sim do povo, Senhor João Vieira, ficou gravada na declaração dos direitos do Homem e do cidadão de 1789 , que diz " A lei é a expressão da vontade geral .... Ela deve ser a mesma para todos, seja que o protege, seja que o punisse" .

Devo confessar que este ponto e a sua moção junto da Assembleia Constituinte, que propõe a nacionalização dos bens da Igreja, para ajudar as finanças do Estado, mereceram desde sempre a minha admiração.

O Senhor escreve : "Dizer que pertencia ao povo é tão errado".....

Leia bem o meu texto, por favor, e verá que não escrevi que Talleyrand pertencia ao povo...Sei bem que foi eleito pelo Terceiro Estado.

Existe na gente de direita , (e sei que o Senhor se assume como tal, e está muito bem ), um certo desconforto a assumir certas páginas da História.

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor João Vieira não leu o que escrevi : " Talleyrand fez-se numa geração" . Talleyrand, o diplomata, Senhor Vieira. Todos os títulos honoríficos importantes com os quais morreu foram obtidos à medida que o "diplomata" demonstrava a sua capacidade a defender os interesses da França.
Foi nesta posição de diplomata , o maior da História de França, que foi um "Senhor"!

Mesmo se lhe desagrada , a contribuição pessoal de Talleyrand na história da Revolução, ao lado do povo, sim do povo, Senhor João Vieira, ficou gravada na declaração dos direitos do Homem e do cidadão de 1789 , artigo VI, do qual ele é o autor, que diz " A lei é a expressão da vontade geral .... "Ela deve ser a mesma para todos, quer se destine a proteger quer a punir"

Devo confessar que este ponto e a sua moção junto da Assembleia Constituinte, que propõe a nacionalização dos bens da Igreja, para ajudar as finanças do Estado, mereceram desde sempre a minha admiração.

O Senhor escreve : "Dizer que pertencia ao povo é tão errado".....

Leia bem o meu texto, por favor, e verá que não escrevi que Talleyrand pertencia ao povo...Sei bem que foi eleito pelo Terceiro Estado.

Existe na gente de direita , (e sei que o Senhor se assume como tal, e está muito bem ), um certo desconforto a assumir certas páginas da História. Tudo o que concerne o "povo" parece incomodar.

O segundo ponto é que em nada este diálogo ou comentário deve ser considerado como uma diatribe.

Joaquim de Freitas disse...

Ao Senhor João Vieira:

A hora do jantar apressou o movimento do meu comentário precedente. Gostaria de responder a dois pontitos do seu.
Escreveu: "tão errado como dizer que o sr. Freitas pertence à aristocracia."

Obrigado por reconhecer ao menos isso ! Permita uma história:

Um dos primeiros presentes que recebi, um dia, ainda jovem, foi um livro, no qual aprendi que no fim do XVIII° século, a França tinha uma estrutura monárquica absoluta, que o rei se chamava Louis XVI e que a sociedade estava dividida em três classes: o clero ,a aristocracia/nobreza que não pagavam impostos e o Terceiro Estado cujo nível de vida era bem pior e cujos impostos faziam viver o país.

Quando li esta História da Revolução descobri que alguns ministros tinham procurado elaborar algumas reformas : que os privilegiados, isto é os aristocratas pagassem eles também impostos e houve uma revolta do lado dos aristocratas e que para defender os interesses do povo Francês desta época, abandonaram a aristocracia, prestaram sermão, e redigiram uma constituição e ,em seguida ,uma Assembleia Constituinte.

Passo todos os dias em frente do edifício em Grenoble, onde, secretamente, estes aristocratas se reuniram em 1788. Assim começou a Revolução Francesa , à qual o povo aderiu em seguida.
Era esta a França que conheci através deste livro, a França rebelde e revolucionária que fez a guerra para acabar com a aristocracia e levou Louis XVI à guilhotina.

Anónimo disse...

Essa de "a memória que dele guarda o Palácio das Necessidades não o eleva além da mediania " é certamente calão diplomático para "era medíocre". Mas o homem era aquilo que em espanhol castiço se chama um "senõrito", por supuesto. Achei delicioso o comentário do sr. Melo Breyner, porque me lembrou algumas tiradas repenicadas da soirée dos Gouvarinhos. E vem o comentador das 11:43 com a treta da ética protestante do trabalho e serviço público. Ora batatas, homem.

jorge ryder disse...

Talleyrand era corrupto a um nivel absolutamente excepcional. Cobrava comissões heróicas pelos memorandos, acordos, e tratados em que se envolvia, para poder oferecer-se o train de vie que lhe agradava. Foi um grande diplomata também. Ex-Bispo que vivia em pecado púbico e que entendeu morrer como Bispo outra vez. Foi um grande diplomata também. Mas um grande Senhor?