terça-feira, 23 de julho de 2013

Profissionalismo real

A operação mediática em torno do nascimento de um novo príncipe britânico, a exemplo do que ocorreu com o casamento de seus pais ou com o "jubileu" da raínha, está a ser feita com um imenso mas já tradicional profissionalismo. Se o interesse dentro do país é natural, acompanhado do "merchandising" de regra, já a exportação intensa, um pouco por todo o mundo, deste "glamour" acaba por ser muito curiosa, pelo facto de conseguir mobilizar, durante semanas, jornais, revistas e televisões de culturas muito diversas e nada similares à britânica.

O que será que torna a coroa britânica mais apelativa, face aos seus congéneres? Seria muito interessante fazer uma análise deste fenómeno, que leva a que a coroa londrina suplante, a grande distância, qualquer dos seus pares europeus. Ainda há dias, verificámos que a transmissão de poder real na Bélgica, tal como há semanas ocorrera no caso holandês, quase que passou despercebida, tal como o nascimento de um príncipe sueco ou luxemburguês apenas suscita algumas modestas linhas. Dir-se-ia que só as coroas monegasca e espanhola conseguem concitar algum interesse similar, mas sempre a uma imensa distância do caso britânico.

É claro que, nas últimas décadas, quase todas as coroas tiveram de viver, lado a lado com estes fatores simbólicos de sedução, com a revelação de crises familiares que as ensombraram, que vieram a provar (o que já ocorria, mas era um pouco disfarçado) que, afinal, a vida das realezas sofre dos mesmas problemas da do comum dos mortais - com os seus dissídios, traições, divórcios, corrupção e coisas análogas. Essa circunstância, se bem que algo debilitante do caráter "mágico" das coroas, pode contudo ter servido como um fator de aproximação da existência da coroa à vida vulgar de cada um de nós. No caso britânico, o fenómeno Diana trouxe mesmo uma figura com um final trágico a esta saga familiar.

Dito isto, só cabe desejar longa vida ao novo príncipe e, provavelmente, futuro chefe do Reino Unido da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, bem como chefe da Comunidade britânica. 

17 comentários:

Anónimo disse...

A orquestra britânica, mesmo quando desafina, parece afinada. O diapasão dos interesses unidos dá o tom para todo o Reino Unido. O suspense em torno do nascimento de uma criança "real" tem tanto de interesseiro como de parolo. Veja-se o mau gosto dos objectos criados para a ocasião. E o "crianço" já tem nome? Na minha casa de apostas de vão de escada, aconselhado por
um banqueiro (António), por um ex-presidente do reino da bola (José), um treinador (José) que bem conhecem os meandros financeiros, justiceiros e futeboleiros do Reino de Sua Majestade Majestade, aposto que se chamará António José - Anthony Joseph e resmas de apelidos a seguir. A uma criança só se pode desejar um ridente futuro, mesmo em maré de crise.

Anónimo disse...

Acho muito bem, Senhor Embaixador, que refira no seu blog este facto político, afastando-se do tom condescendente de galhofa usado às vezes por alguns republicanos bem-pensantes e limitados. Basta seguir na BBC (que não é propriamente a "Hola") as reacções ao nascimento do Príncipe para entender que se trata de um facto político altamente relevante - e todos, mas todos, os agentes políticos britânicos (ou os "players", como se diz agora) o souberam entender. Lamento que o novo Rei dos Belgas não tenha suscitado tanta adesão, mas atribuo isso à maldade dos flamengos e às parvoíces financeiras da pobre Rainha Fabíola (uma espanhola!). E quanto à Monarquia Espanhola, teria muitas reflexões a fazer, mas limito-me a dizer agora que a fome de dinheiro é má conselheira e que ser já muito rico (como a Família Real Britânica o é) ajuda muito.

Viva o Rei!

a) Haroldo de Menezes Vasconcellos (Vinhais)

PS - Quanto ao Mónaco, aquilo não é Monarquia, é "entertainment"...

Anónimo disse...

Da Escócia, talvez não (façamos figas)

patricio branco disse...

parece, ou é mesmo assim, que as receitas de tudo quanto se vende à volta do acontecimento (viagens,turismo, hoteis, lembranças, transmissões) são de tal monta que influenciam a receita do ru nestes dias...

Anónimo disse...

“Pounderada” a questão é fácil chegarmos a conclusões!

Anónimo disse...

É como diz Senhor Embaixador. Terá a ver com o culto pela tradição cerimonial que atravessa todas as classes sociais? Será porque a Magna Carta já foi assinada em 1215, e, que isso já configure a casa real com uma simbologia tão forte, como o número 4 para os chineses ou o 13 para os ocidentais? O que é certo é que tudo é pensado ao pormenor nas cerimónias dos nascimentos às mortes dos que vivem em torno da rainha. Há um profissionalismo que vai do Primeiro-Ministro ao vendedor de Oxford st.
Quando o avô da criança casou eu estava em Londres. Fazia muito calor nesse dia 29 de Julho. A rainha ofereceu a cerveja nos pubs entre as 20.00h e as 10.30h. Foi uma noite de festa colectiva. Aproveitei bem a Guiness de que tanto gosto e que custa mais caro que as outras cervejas. Tudo era "for free". No dia seguinte de manhã encontravam-se muitas pessoas ainda nos passeios aonde tinham caído de sono... A ligação afectiva das pessoas (em qualquer idade) com aquele casamento é de não esquecer... E, mais importante ainda; as notas emitidas em muitos países da Commonwealth ( perto de 50) têm a cara da rainha.

Joaquim De Freitas disse...

Marketing real!

Desde o nascimento ontem, duma criança real no Reino Unido, morreram 18 000 crianças no resto do mundo, discretamente ! De fome ! Segundo a FAO.

"The great business" para os Britânicos, este nascimento dum varão na família dos Windsor. Uma firma inglesa comercializa babeiros de alta qualidade a 40 euros a caixa de 4 ! Bastava para alimentar durante uma semana 100 crianças algures. O turismo funciona a pleno regime; não há um quarto de hotel livre em Londres!
Mas daqui a um mês, haverá mais crianças mortas de fome no mundo que de habitantes no centro de Londres! Os jornais não gastarão um cêntimo para noticiar este acontecimento.

Pobre mundo que perdeu o sentido dos valores essenciais. Politicamente incorrecto dizê-lo, talvez, mas que me importa o nascimento duma criança, a quem desejo portanto vida e felicidade, se o sorriso duma criança que ilumina a noite das pessoas, aquece os corações , faz nascer a esperança, se transforma na tristeza dum olhar de criança perdido no horizonte, algures no mundo, a pele esticada pelos ossos, e o ventre inchado pelo kwashikor provocado pela fome.

Não, não aceito todo este espectáculo mediévico para anunciar a vinda duma criança que tem o futuro assegurado. Porque é indecente.
Preferia que a sociedade metesse o mesmo empenho no único combate que vale: Como esmagar o monstro da fome no mundo.

" Wrechet world", como dizia o Rei Lear, tão miserável que mesmo um cego vê que o mundo vai mal! (a man may see how this world goes without eyes). Sim, o mundo nao é "self evident".

« L’homme qui veut demeurer fidèle à la justice
doit se faire incessamment infidèle aux injustices
inépuisablement triomphantes. »
Charles Péguy

Anónimo disse...

Os britânicos nunca brincam em serviço. Só brincam e muito fora do serviço. Trabalho é trabalho cognac é cognac.

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro amigo
Este seu comentador monárquico, Haroldo de Menezes Vasconcellos, lembra-me um nosso comum amigo, só que republicano de gema e a viver actualmente no Golungo Alto.
Será que são parentes, como Gaspar e Louçã?

Anónimo disse...

O que terá feito Joaquim de Freitas pelas crianças esfomeadas do mundo. É importante sabê-lo porque o mundo tem a intenção de acabar com a fome. Não tem é conseguido mas com o iluminado conselho de Freitas talvez lá se chegue. A primeira coisa, claro, é tornar infelizes e esfomeados os britânicos e os que tem algo de seu de que gostam.

Joaquim De Freitas disse...

O velho argumento daqueles a quem não falta nada, consiste a dizer que o problema daqueles que não têm nada não lhes diz respeito. Como diria um republicano puro e duro nos Estados Unidos.
Sabia que o meu comentário podia perturbar a consciência daqueles que consideram que o mundo é perfeito e que , se não é perfeito, não se deve dizer nada que possa pôr em causa a ordem estabelecida.
Mesmo quando o excesso de riqueza é insultuoso para o excesso de miséria.

Ignorar, seria fazer como aquele alemão que , sob Hitler , viu partir os vizinhos para a prisão, , um a um, mas que não o perturbou; e não disse nada porque o primeiro era comunista, o segundo, judeu, o terceiro, socialista e depois, quando lhe bateram à porta, foi ele também; só que ele era democrata. Quis protestar, mas já era tarde demais. Não havia ninguém para o defender.

Quando existe um bilião de esfomeados no mundo, o mínimo que se pode fazer é participar nas campanhas de sensibilização do mundo político para este grave problema. O que faço, com outros. São os meios de que disponho.
Há dez anos, os leaders políticos mundiais comprometeram-se a reduzir de metade a fome no mundo até 2015. Mas a vontade política faltou. E porquê?

As grandes empresas de negócios alimentares, os gigantes internacionais das sementes e fertilizantes, realizam benefícios substanciais.
Os preços dos produtos exportados pelo terço mundo são estabelecidos não pelos produtores mas pelos negociantes ..
A especulação internacional sobre o preço do petróleo agrava o custo do transporte.
A crise global é accentuada pela generalização do princípio de especulação a toda a actividade, a todo recurso e à vida ela mesma. O preço dos cereais nos mercados mundiais dobrou ou triplicou. Preços que deixaram de ser regulados, graças à Organisaçao Mundial do Comércio. O problema é portanto político.

Os povos vulneráveis são conhecidos : os países sub desenvolvidos e mesmo os pobres dos países desenvolvidos.
As vitimas encontram-se nos bairros miseráveis do mundo inteiro. E não só os das favelas ou dos barrios da América Latina. Que o papa Francisco denunciou hoje mesmo no Rio.
Eis a situação do mundo que denuncio. Com os meios de que disponho.

Por conseguinte, mesmo se isso desagrada aos "munidos", entre uma criança que nasce na abundância e uma criança que vai morrer de fome, prefiro falar desta.
O resto deixo-o aos "people" do mundo inteiro e aos media de todos os níveis que têm lá um evento que lhes vai fazer ganhar muito dinheiro. O único valor universal para essa gente.

Anónimo disse...

é o expoente máximo de uma das vertentes do soft power de Joseph Nye

não é marketing. é inteligência!

Anónimo disse...

Eu acho que a criança se deveria chamar John Valley Windsor Cambridge, em homenagem a um advogado benfiquista que viveu em tempos por aquelas terras e que por lá gastou muito dinheiro...

Isabel Seixas disse...

Pobre menino rico, perdeu desde logo os direitos fundamentais...



Mais do que a um país
Que a uma família ou geração
Mais do que a um passado
Que a uma história ou tradição
Tu pertences a ti
Não és de ninguém

Mais do que a um patrão
Que a uma rotina ou profissão
Mais do que a um partido
Que a uma equipa ou religião
Tu pertences a ti
Não és de ninguém

Vive selvagem
E para ti serás alguém
Nesta viagem

Quando alguém nasce,
Nasce selvagem
Não é de ninguém

http://www.youtube.com/watch?v=EqiyhH2wMXM

Antonio Cristovao disse...

Qualidade superior na comunicação social(todos os media) é um exemplo que devia ser estudado por cá e pelo Brasil. Os dividendos directos foram agora até realçados mas os indirectos merecem ser analisados. A influencia nas decisoes, até politicas, doutros estados beneficia e muito o povo ingles. Pena que se aprecie a flor e não se cuide das raizes!!

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Fica evidente que os regimes Monárquicos, as Famílias Reais, são de longe os maiores potenciadores de unificação não apenas nacional, mas até global.

Veja-se este caso do mais recente membro da Família Real Britânica, que por si só, conseguiu gerar enorme entusiasmo não apenas na Inglaterra e em toda a Commonwealth mas sim um pouco por todo o mundo.

Esta é de facto uma das grandes características dos regimes Monárquicos e não se conhece nenhuma republica que tenha conseguido sequer algo semelhante.

Para além de motivo de regozijo e orgulho por todo o planeta, o surgimento deste bebé já trouxe à economia Britânica um importante e significativo encaixe financeiro.

Fica ainda demonstrado a carácter moderno das Monarquias actuais que ao contrário daquilo que muitas pessoas erradamente pensam, Monarquia não é coisa do passado, não é o Rei em cima do cavalo de espada na mão atrás dos Mouros. È sim futuro e de longe o melhor que qualquer país pode almejar, quer por aquilo que representam, quer pela defesa dos valores a que estão associados.

Viva a Monarquia!
Viva o Rei!

Joaquim De Freitas disse...

"Fica ainda demonstrado o carácter moderno das Monarquias actuais que ao contrário daquilo que muitas pessoas erradamente pensam, Monarquia não é coisa do passado, não é o Rei em cima do cavalo de espada na mão atrás dos Mouros. È sim futuro e de longe o melhor que qualquer país pode almejar, quer por aquilo que representam, quer pela defesa dos valores a que estão associados."

Assim escreveu o Sr.Mello Breyner !

Vamos lá devagarinho, por favor, porque se uma tal demonstração de fidelidade ao regime monárquico não estabelece certos limites, o " carácter moderno das Monarquias actuais" engloba automaticamente as monarquias do Golfo. Aquelas monarquias onde o executivo é dominado pelas grandes famílias, a democracia politica é desconhecida, as mulheres são lapidadas por adultério, ou decapitadas, os ladroes têm a mão direita decepada, e o monarca tem o direito de via e de morte dos seus sujeitos sem passar pelos tribunais. Uma monarquia absoluta temperada pelo assassinato, em suma.
Sei que não são estes "os valores associados" à Monarquia, que "qualquer pais pode almejar". Por isso é sempre delicado de generalizar .

Sei que existem Republicas onde se faz o mesmo.

De qualquer maneira, a palavra "mono" arrepia-me, sobretudo quando é hereditária e ligada a "archein" ! E de direito divino, ainda pior. Por isso :

Viva a República