sábado, 27 de julho de 2013

O mistério dos Negócios Estrangeiros

Foi em 2011. Na lista da nova equipa governamental para o MNE surgia o nome de uma senhora, de seu nome Vânia, com a categoria de subsecretária de Estado. A casa, sempre à cata da novidade e da raridade de género, ficou curiosa. O título do cargo, muito comum no Estado Novo (que teve muito poucos secretários de Estado e bastantes subsecretários), lembrava, por ali, aquele que fora usado por Ruy Patrício, antes de ser nomeado último ministro "dos Estrangeiros" da ditadura. Passada a Revolução, a designação fora utilizada no MNE (se a memória me não trai) apenas por três vezes, sempre para um não confessado controlo político da administração da casa, por ministros desconfiados ou preguiçosos. Desta vez, com Vânia, nem sequer era esse o caso.

Mas, afinal, quem era Vânia? Que funções iria ter? Como não havia delegação de competências para ler, a interrogação prosseguiu por alguns dias. Até que um colega com responsabilidades institucionais, cumpridor dos formalismos, tentou pedir uma audiência a Vânia para lhe apresentar os seus respeitos. Logo percebeu que a senhora, saída do anonimato centrista da edilidade portuense, jamais aportaria às Necessidades, ficando "na Gomes Teixeira", sede da presidência do Conselho de ministros, a coadjuvar o também ministro de Estado. Era uma espécie de deslocalização e, por isso, uma verdadeira "première" no MNE.

Nunca mais se ouviu falar de Vânia. Ou melhor, soube-se pela imprensa colorida que terá comemorado a sua permanência no governo dando à luz uma criança, o que não é um despiciendo contributo à pobre natalidade pátria. Espero bem que o nosso Protocolo se não tenha esquecido de lhe enviar um gentil ramo de flores. Em nosso nome e da casa em cujos anuários Vânia vai ficar para sempre, como diria Margareth Thatcher, como "one of us".

Um dia, daqui a anos, a historiografia ficará confundida, através da leitura dos diplomas da época, pelo facto de ter existido uma Vânia no quadro oficial da política externa portuguesa. Dela não surgirá um simples despacho, atestando a designação de um chanceler para um consulado, ou uma foto sorridente junto aos candelabros de uma embaixada de charme, ou tão só a assinatura, com o ar compenetrado e a saia-e-casaco de rigor, de um qualquer convénio sobre um tema grave. Vânia vai ser, para os futuros coscuvilheiros da história diplomática, o mistério dos Negócios Estrangeiros.

Uma coisa Vânia talvez não saiba, mas eu vou revelar-lhe: não obstante nunca ter aparecido com frequência no largo do Rilvas, ela não vai ser, dentre os membros do governo que estiveram, até hoje e desde a primeira hora, ao lado do ministro que agora abandona "os Estrangeiros", aquele que deixa menos saudades. E mais não digo, porque as charadas políticas não são de borla e eu ando muito dedicado a elas para entreter os ócios da reforma. 

25 comentários:

Um Jeito Manso disse...

Vaninha essa que continua atrelada ao que não sei se deixa ainda menos saudades que ela, passando agora a ser, portanto, Subsecretária de Estado Adjunta do Vice-Primeiro-Ministro.

Mas se o MNE perdeu a Vaninha, ganhou o Bruninho

http://umjeitomanso.blogspot.pt/2013/07/bruno-macaes-secretario-de-estado-dos.html

Os senhores lá do MNE pensavam que iam poder fazer uma festa por se verem livres da Vaninha e do chefe dela...? Ora, tomem lá o Bruninho.

Perante a isto, diga-me o Senhor Embaixador que há-de a gente fazer: rir, chorar ou o quê?

Um Jeito Manso disse...

Com sua licença, uma errata: 'Perante isto' e não 'Perante a isto'

(Escrever neste quadradinho destinados aos comentários e, ainda por cima, escrever sobre coisinhos até parece que me tira do sério)

Obrigada.

Anónimo disse...

Se esta maioria fosse culta, poderia fazer-se um belo trocadilho tchekoviano: "A Tia Vânia". Assim, nem isso. Não perceberiam nada.

Anónimo disse...

Proponho uma subscrição para estátuas a Morais Leitão em vários sítios do Mundo. Nass Necessidades, claro, mas também em Central Park West, na Avenue Molière e na Avenue Foch. Isto só para começar.

Anónimo disse...

Há saudade e saudade. Eu também não tenho saudades de Amado. Pior está Machete com secretários de Estado impostos pelo aparelho laranja e que de facto o tornam num ministro descarnado. Pôr um jovem sem qualquer experiência em Assuntos Europeus significa, de facto, que há instruções para que as questões comunitárias continuem a ser lideradas pelo gabinete do PM, onde alguém a quem o PS fez favores tem ambição desmedida, e que tudo o resto é paisagem. A interferência de Portas nas nomeações a ministro plenipotenciário, a obstinação com que se bateu para colocar um dos seus colaboradores objecto de processo disciplinar para Cônsul-Geral nenhures vai ser continuada pelo novo titular que é íntegro mas que já testemunhou pelo episódio da escolha dos secretários de Estado que foi capturado pelo aparelho. Bem pode o PS regressar um dia às Necessidades que pouco poderá fazer, por negligência e culpa sua. Tudo foi cuidadosamente "verrouillé" pelo poder laranja e vai set muito difícil governar contra os tentáculos e redes de favores que o PSD ali estabeleceu...

patricio branco disse...

interessante peça sherloqiana que abre o apetite para mais, não se sabia de facto o papel e funções da sse vania, os jornais noticiaram alguma nomeação de pessoal para o seu gabinete, subsecretário sombra, razões da nomeação? funcões? trabalho efectivo feito? esteve em funções até ontem? sim, são os misterios das necessidades, já agora, porque foi o sr rui machete escolhido para mne? por competencias e experiencia para tal? ou homem do presidente no governo sediado nas necessidades? indicado de cima ao pm?
sim, misterios mais complicados que aquela figura nobre que por lá vagueia à noite, na zona da ala do protocolo, e alguem que saiu um dia tarde por aquelas escadarias, tinha estado a trabalhar nalgo urgente, pois perturbou a alma ou fantasma da antiga familia real, e levou dela uma tremenda bofetada,aponta se o canto onde a levou, misterios que há que ter em conta, como o ministro que entrava e seguia sozinho para o seu gabinete rente às paredes e de olhos pensativos no chão e pasta na mão, mas este não era um misterio embora tivesse causado surpresa a sua escolha, pois, há assim coisas que o vulgo não percebe, etc etc etc

Anónimo disse...

Não só o MNE será uma Vânia mas até, se não existisse o termo francês "Pantin" que afeiçoo, o Próprio Presidente da República e Primeiro-Ministro seriam Vânias.
José Barros

Anónimo disse...

Nos séculos XVIII e XIX também houve casos em que foram nomeados chefes de missão no exterior que nunca tomaram posse nem entregaram credenciais porque a nomeação era só para curriculum e para ganharem umas ajudas.

opjj disse...

O outro é sempre o outro.Como dizia Ortega y Gasset, Yo soy yo y my circunstancia(penso que não errei o espanhol.
Apesar de ter idade próxima e a memória ainda se portar bem, ainda não consegui visualizar a sua pessoa. Talvez me apareça de surpresa como esse seu amigo no aeroporto, em trânsito.
cumprimentos

Anónimo disse...

Se a Vânia pertencia à equipa governamental do MNE e desempenhava funções "na Gomes Teixeira", sede da PCM... Significa que agora vai para o Rilvas porque pertence à equipa do Vice que foi para "a Gomes Teixeira".

É uma subsecretária de Estado "satélite"! A verdade é que o curriculum político desta senhora é difícil de entender...

Isabel BP

Helena Oneto disse...

Pelo que leio, mais parece que o MNE do seu tempo, Senhor Embaixador, é agora um mni, i.e. um ministério dos negocios internos do PSD... Quantas Vânias há por aí?
Bom fim de semana!

Anónimo disse...

Que bela peça sobre a Vânia fantasma, que agora irá assombrar a Gomes Teixeira ou outro local, certamente mais adequado ao estatuto do cargo de VPM (vice-primeiro-ministro...).Sugiro é que não conste como "one of us", num eventual Anuário que volte a sair... Talvez seja de abrir um novo capítulo, com o título "one of them"...
José Honorato Ferreira

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu querido Zé Honorato,
O que me ri já com o teu comentário e o título deste post
Debato-me entre Dostoievski e Tolstoi...

Caro Francisco
Pensava preparar-lhe um prato de leitão da Bairrada no nosso próximo jantar, mas receio que seja pesado!

Anónimo disse...

A menina (dança?) Vânia foi um produto da péssima actuação do Sr. Portas no MNE que instrumentalizou e desiquilibrou a Casa. A jovem tripeira nunca fez nada a não ser, a mando de Portas, vigiar os “passos” da Gomes Teixeira. Ainda teve tempo para engravidar e dar á luz. E agora que lhe irá pedir Portas para espiolhar?
E paga o Estado uma inútilidade destas e vai continuar a pagar. E ainda nos falam de contenção de despesas.
E agora, depois dessa figura que foi Morais Leitão, cujos funcionários festejaram a sua saída com espumante, temos o Maçães Bloguista e PSDista.
a)claustros

Anónimo disse...

""O título do cargo, muito comum no Estado Novo (que teve muito poucos secretários de Estado e bastantes subsecretários), lembrava, por ali, aquele que fora usado por Ruy Patrício, antes de ser nomeado último ministro "dos Estrangeiros" da ditadura. Passada a Revolução,""

Na 3ºRepública (a 2ª foi "politíkamente correcta" no PREC crismar-se de "Estado Novo,
também existiram muitos factos curiosos e dignos de nota, estou a recordar-me do produtor português de melancias que nos idos anos oitenta exportava o produto para a Europa com grande sucesso, nomeadadmente em Portugal para lojas de conveniência que tinham estado na escuridão.

Alexandre

Bmonteiro disse...

Entre o Tio Vânia e O Circulo de Giz Lusitano...a luta continua.
E entre a PR com um Governo Sombra nas Casa Civil & Casa Militar...e o Gabinete do PM com segundo Governo Sombra...
A vitória é certa.

Anónimo disse...

Invejas!
Vânia até é nome bonita.
E se ela se chamasse CÁTIA VANESSA?
Safa...

outeiro

Anónimo disse...

As Vanias e as Vanessas, e outros nomes de moda, estão a chegar por perto dos lugares de decisão. Assim como os utilizadores de adereços como brincos e "piercing", ou os tatoo (eu digo riscados). Para não falar de outros costumes.
De qualquer modo "percebe-se" uma certa carapaça dos "instalados", face a quem chega, apontando de preferência estas exóticas modas aos noviços. Aliás, não é novo.
O que importa são as consequências da sua ação e, muitas oriundas de personalidades de fato e gravata, mais parecem de quem usa um espanador colorido na cabeça, qual crista de ave tropical.

Anónimo disse...

Caro anónimo das 13.24,
As consequências da sua (da garota) acção estão á vista, no caso da tal "Vânia Catia Vanessa". Não houve acção mas houve consequências: os gastos da "piquena" e do seu gabinete. que não se compadecem com a austeridade tão falada. Uma parvalheira, é tudo o que isto que é.
Quanto a compustura, entendo que piercings e tatoos não têm lugar naquela casa. Haverá outros lugares, mas não ali. Agora temos uns meninos e meninas rebeldes a querer "armar ao pingarelho"!
a)claustros

Anónimo disse...

O Bruno Maçães tem um doutoramento pela Universidade de Harvard (são capazes de já de ter ouvido falar). Tem um número absolutamente impressionante de artigos publicados em revistas com peer review (também não sei se já terão ouvido falar do conceito). Foi professor auxiliar numa universidade Koreana e finalmente em Berlin. Eu penso que antes se fazerem julgamentos sumários sobre os méritos e deméritos dos outros interessa tentar compreender o seu percurso. Pelo que vejo, neste blog abundam os comentadores com cvs impressionantes (de outro modo não se percebem as críticas). Eu pela minha parte congratulo-me que um português com uma posição no estrangeiro e sem necessidade nenhuma de voltar a Portugal para construir a sua carreira tenha decidido voltar para ajudar o país.

José

Anónimo disse...

Caro José,
O facto de se possuir determinado curriculum, por muito “impressionante” que seja, com doutoramentos em Harvard, etc não quer dizer que se seja qualificado para determinado cargo político. Por outro lado, uma coisa que, lamentavelmente, tem vido a ser esquecida nos últimos tempos, um lugar político deveria – sempre – implicar alguma sensibilidade política, que se adquire com experiência política (redundâncias que não posso evitar). Embora, a par, naturalmente, de igual experiência profissional. No caso vertente, que invoca, a impressão que nos fica é de que o indivíduo não possuirá a tal experiência política. Mas, havendo algum bom senso e muita ponderação, a ver vamos, como diz o cego. O problema que, julgo esteve no cerne deste Post, é que, hoje em dia, existe muito “Jota” arrivista e tolo que pelo o facto de ser Jota vai subindo (rapidamente) na vida política, quando deveria era ser testado na vida profissional, sem a protecção política. E assim, mais tarde (ou mais cedo, como já começa a suceder) lá saltam de um cargo político para uma empresa e por aí fora, empresa que noutras circunstâncias provavelmente não o empregaria. Mas, o tráfico de influências, hoje fala, cada vez mais alto. Como bem sabemos. Ainda de novo sobre o tal S.E do MNE, li, através do Expresso on-line, umas coisitas escritas por ele. Não fiquei convencido. Tal não me impede de lhe reconhecer um bom curriculum académico. É outra coisa. Numa observação que o dito jovem político diz sobre a escola no Japão, eu discordo rotundamente. Não julgo que a Escola deva preparar para a competição da vida, não é essa a sua função. Preferiria que a mesma Escola tivesse então o “focus” mais na “cooperação, colaboração e trabalho em equipa”. O espírito de competição cedo de mais, sobretudo na escola, é desaconslhável e pode ser traumatizante e castrador. Cada país pensa por si, não devemos é copiar e elogiar métodos que não devem ser seguidos, por não terem as virtudes adequadas. A vida ensinar-nos-á, a tal competição. O que a Escola poderia ensinar, entre outra outras coisas, a par do tal espírito de colaboração que atrás menciono, era, por exemplo, que na competição deverá haver regras e respeito - e não o vale tudo sem olhar a meios. Ora, o tal jovem S.E do Mne ao defender, ao que me pareceu, esses métodos das escolas japonesas deixou-me algo céptico quanto a ele. Não gosto de gente que defende este tipo de coisas.
a)Rilvas

Anónimo disse...

Caro Rilvas,

Estou inteiramente de acordo consigo. Mais lhe digo, nada me qualifica para opinar sobre as competências de quem quer que seja para o exercício do mais singelo cargo governativo. Não foi de todo o que quis dizer relativamente ao BM.

Acontece que há hoje, muito por causa dos jovens que o Rilvas tão bem descreve, um preconceito contra todos os jovens filiados nos partidos "do poder" (eu não sou filiado em nenhum partido portanto estou perfeitamente à vontade para falar sobre o assunto). Ora é este preconceito que recuso. A reacção imediata quando um jovem de um partido é chamado ao exercício de um cargo de nomeação política é colar-lhe a etiqueta de jota sem tentar perceber/verificar se ela é aplicável ou não. No caso em questão, como é mais do que evidente, não é. Admito que ele não se adeque ao cargo para o qual foi nomeado (é uma outra história). Agora dizer que uma pessoa que construiu toda a sua carreira académica e profissional no estrangeiro depende do partido para se conseguir sustentar parece-me sobretudo injusto. Mais, este tipo de atitude afasta os jovens qualificados da política, porque realmente ninguém está para se sujeitar a isto.

José

Anónimo disse...

Mais explicações sobre a Vânia aqui:
http://ntpinto.wordpress.com/2013/07/31/a-agente-misteriosa-de-paulo-portas/

Anónimo disse...

O anterior MNE era MENE, ou seja tb era ministro de estado. Dai a Vania na PCM.

Anónimo disse...

Então a tal da Vânia é criticável por se chamar Vânia (pese embora eu tenha visto que apelidos não lhe faltam)e porque pessoas que têm obrigação de saber quais são as suas funções, não sabem o que é que ela faz?
É mais ou menos isso?
Que sorte teve o Salazar em chamar-se António! Imaginem que os pais lhe tinham chamado Hélder e, para algumas mentes brilhantes, já não estava em condições de ocupar a Presidência do Conselho!
É por estas e por outras que Portugal há-de ser sempre Portugal...