Como muito bem
lembra hoje Pedro Santos Guerreiro no "Jornal de Negócios", o grande
problema que a questão da "negociata" dos "swaps"
(aquisição de produtos financeiros para reduzir riscos de variações de preços
de fatores não controláveis) suscita pode ser menos a eventual questão dolosa
por parte de quem representou o Estado na transação (culpabilidade que, a
existir, pressupõe a devida imputação criminal e deveria acabar na prisão dessa
gente), mas, muito simplesmente, a discussão da competência de quem tinha por
obrigação defender o interesse público. É que poderemos ter de chegar à
conclusão de que quem nos (a nós, contribuintes) representou no negócio pura e
simplesmente não sabia o que fazia e não tinha habilitação técnica para tal.
Quem, com regularidade, clama por "menos Estado", e passa os dias
a indignar-se pelos gastos do setor público, também deveria interrogar-se sobre
se, muitas vezes, tais cortes não afetam já a sustentação da massa crítica
mínima, em matéria técnica, para a defesa do interesse público (que é também o
seu) e para o funcionamento capaz da máquina oficial. É
que fazer omoletes sem ovos é, quase sempre, uma obra difícil. Um destes dias,
com a máquina do Estado desativada e desmotivada, começarão, de facto, a ter
razão os que proclamam que "o Estado não funciona". Mas esses mesmos
deixam de ter a menor legitimidade para protestar sempre que o que
"sobrar" desse mesmo Estado, no "estado" em que o deixarem,
vier a comportar-se da mesma forma que estes "hábeis" negociadores
dos "swaps".