sábado, 27 de abril de 2013

"Swaps"


Como muito bem lembra hoje Pedro Santos Guerreiro no "Jornal de Negócios", o grande problema que a questão da "negociata" dos "swaps" (aquisição de produtos financeiros para reduzir riscos de variações de preços de fatores não controláveis) suscita pode ser menos a eventual questão dolosa por parte de quem representou o Estado na transação (culpabilidade que, a existir, pressupõe a devida imputação criminal e deveria acabar na prisão dessa gente), mas, muito simplesmente, a discussão da competência de quem tinha por obrigação defender o interesse público. É que poderemos ter de chegar à conclusão de que quem nos (a nós, contribuintes) representou no negócio pura e simplesmente não sabia o que fazia e não tinha habilitação técnica para tal. 

Quem, com regularidade, clama por "menos Estado", e passa os dias a indignar-se pelos gastos do setor público, também deveria interrogar-se sobre se, muitas vezes, tais cortes não afetam já a sustentação da massa crítica mínima, em matéria técnica, para a defesa do interesse público (que é também o seu) e para o funcionamento capaz da máquina oficial. É que fazer omoletes sem ovos é, quase sempre, uma obra difícil. Um destes dias, com a máquina do Estado desativada e desmotivada, começarão, de facto, a ter razão os que proclamam que "o Estado não funciona". Mas esses mesmos deixam de ter a menor legitimidade para protestar sempre que o que "sobrar" desse mesmo Estado, no "estado" em que o deixarem, vier a comportar-se da mesma forma que estes "hábeis" negociadores dos "swaps".

6 comentários:

freitas pereira disse...

Mas, Sr. Embaixador : Então quer retirar o jogo da lotaria aos especuladores? Não creio, pessoalmente, que um dia, os governos sociais democratas serão capazes de retirar estes utensílios de especulação aos "artistas" dos mercados ! Sobretudo os "swaps" ! Eles têm argumentos de choque para justificar o jogo de casino. Especular é comprar um activo, um bem qualquer, a um certo preço ,esperando que ele vai subir, com o objectivo de o vender mais tarde com um lucro. Eles vão dizer que não é imoral! "A la rigueur", poderia não ser imoral se "jogassem" com o dinheiro deles! Mas quando se joga com o dinheiro dos contribuintes, então, aí, sim, é imoral!

Também é verdade que segurar-se contra os riscos de flutuação dos preços - matérias primas, divisas, juros -, etc., em contratos a longo prazo, pode justificar-se. Mas também é claro que este jogo especulativo agrava a instabilidade dos mercados, impedindo a economia de se orientar sobre os objectivos muito mais importantes para os povos que são o crescimento e o emprego optima.

Os "swaps", que permitem de trocar um preço fixo contra um preço fluctuante , permitem também ao transportador aéreo de vender as suas viagens organizadas a um preço que toma em conta o preço certo do carburante que ele já negociou a prazo. Isto é, o transportador compra o carburante a um certo preço, vende-o à banca a este preço, e compra-o imediatamente à banca a um preço negociado com esta. Se houver variação a banca ganha ou perde, mas o preço do bilhete de avião não muda e o transportador não perde nada.

O problema é que os" artistas" dos mercados especulam alegremente sobre os produtos derivados porque a tentação é grande. Que diabo, pedir emprestado à banca 1 milhão de $ a 6% e com ele vender a prazo de um mês, 20 milhões de $ de contratos de petróleo bruto, e se este baixar 15% um mês mais tarde , comprar todos os contratos e meter no bolso 15% de 20 milhões, isto é 3 milhões de $ , não é nada mau! Mesmo pagando 0,5 ( 1 mês) de juros do empréstimo de 1 milhão, ainda ficam 2 milhões no bolso! Multiplicar por 400 a "mise" é uma droga terrível!

E é por isso que as sociais democracias não conseguirão metê-los na ordem, estes banqueiros que não querem ouvir falar de separação dos bancos de negócios e de depósitos! E é por isso que a economia real, aquela que cria empregos e riquezas não lhes interessa!

E a taxa Tobin , essa taxa que deve ajudar os pobres, taxando os especuladores, é um pipi de gato! que não lhes põe medo ! Porque 0,25 % sobre antecipações de variações de vários pontos, mesmo dezenas, não é nada!
Se se quiser fazer justiça, não é sobre os movimentos de capitais que se pode fazê-la, mas antes sobre as rendas do capital.

patricio branco disse...

o que preocupa em que em tudo isto, não só nestes casos, mas noutros, é que a especulação é sempre com dinheiros alheios, de particulares ou publicos (= contribuintes) nunca deles próprios, os gestores que jogam e especulam

Anónimo disse...

As empresas públicas foram criadas, precisamente, para os “tais” “negociarem” as “swaps” e, no caminho, meterem lá a cambada!
O mesmo escopo é observável na feitura legislativa: Alguém, com qualquer licenciatura das anteriores, não previa logo para o que iria servir o CCP, numa simples leitura em diagonal?
Agora digam-me se não é “fácil” resolver o défice: Como diz o Sr. Embaixador: a prisão dessa gente e, de seguida, a passagem das empresas públicas para a gestão pela função pública e dispensa da “malta” que foi lá metida.
E, voltamos à vaca fria: para isso “só” é necessário o serviço e dever republicanos, o que, convenhamos, é mais difícil de encontrar do que agulha em palheiro.
…Digo eu “democraticamente” anónimo…

Anónimo disse...

A questão não está nos "sociais democratas" do governo anterior está, como muito bem diz Patrício Branco, na gestão de "dinheiros alheios" "nunca a dos próprios" com o qual ou teriam mais cuidado ou ardia-lhes nas mãos, não na mão do contribuinte!
João Vieira

Helena Sacadura Cabral disse...

Excelente comentário o de Freitas Pereira.

EGR disse...

Senhor Embaixador:o comentario de Freitas Pereira parece-me, de facto, muito esclaracedor.
Mas,é minha convicção,como já disse noutras opurtunidades, que o actual poder politico tem um objectivo claro quanto ao Estado e ao funcionamento de todos os serviços publicos: é de não deixar pedra sobre pedra.
Não tenho duvida que,se tiverem tempo,ou não existir uma forte resistencia, é o que vai acontecer.
Assusta-me pensar no resultado.