segunda-feira, 29 de abril de 2013

Casas mortas

Ontem decidimos fazer um desvio para tentar visitar, numa aldeia da Beira, um casal amigo, já bem idoso, que não víamos há quatro ou cinco anos. Ele era uma figura muito interessante, com atividade cívica no passado e um pensamento crítico sobre o presente. Com ela eu tinha uma longínqua ligação familiar. Costumava falar-lhes para lhes enviar um abraço pelo Natal. Há três anos, fui por ele informado do estado de doença da senhora. Nos dois Natais passados não havia conseguido contactá-los e, por razões que não vêm para o caso, não tinha outra maneira de saber deles.

Ontem, aproximámo-nos da aldeia, devo dizê-lo, com um mau pressentimento. O facto do portão de acesso à moradia estar aberto deu-nos um minuto de esperança. Mas os estores da casa estavam corridos, a campainha já não soava. O descaso das ervas que cobriam o pátio, bem como outros sinais evidentes, indiciavam que ninguém por ali vivia. Perguntou-se a um vizinho. Informou que o cavalheiro tinha morrido há dois anos, a esposa há já alguns meses. Atenta a respetiva idade, não era algo de surpreendente, mas não deixou de ser um choque forte sentir que, para sempre, deixaríamos de poder contar com o acolhimento, caloroso e amigo, de duas figuras a quem, durante muitos anos, visitávamos com grande prazer, quando passávamos nas imediações. Ontem, acabou a única razão que nos levava àquela aldeia serrana.

Esta experiência lembrou-me outra, com poucos meses.

Várias vezes durante a última década, em passagens por Portugal, teimávamos em tentar contactar um amigo que, por uma razão que nunca apurámos, havia deixado de aparecer, já mesmo nos últimos atarefados anos em que por aqui vivíamos. Era uma pessoa com um mundo muito próprio, alguém que se revelara um bom amigo em diversas ocasiões, e que era simultaneamente uma figura interessante, culta, com "mundo" e personalidade. Mas, de há muito, o seu telefone não atendia, as notas que deixávamos na sua caixa do correio, na casa que ocupava num bairro antigo, nunca tiveram a menor resposta. Por muito estranho que isso possa parecer, não tínhamos outros amigos comuns que nos pudessem dar nota do seu paradeiro, nem lhe conhecíamos uma ocupação que a ele nos pudesse conduzir.

Há uns tempos, ainda antes do nosso regresso definitivo a Portugal, passámos uma última vez pela casa desse amigo, mas o seu nome deixara de figurar na campaínha da porta. Meses mais tarde, surgiu-me a ideia de procurar no Facebook pessoas com o mesmo apelido, que não era muito vulgar. Escrevi a cerca de uma dezena, tentando saber "o que era feito" do nosso amigo. Obtive duas respostas. A de um brasileiro, dizendo não ter qualquer ligação familiar com o nosso amigo e a de um irmão, informando da sua morte, já ocorrida há mais de um ano. Sem mais pormenores. Dos restantes possíveis (e alguns bem prováveis, por várias razões) familiares, recebi apenas um estranho silêncio.

Decidi anotar aqui estes dois momentos tristes. Porventura é prova de alguma ingenuidade pensar que as pessoas ficam à nossa espera eternamente, que o tempo não passa para elas, da mesma forma que passa para nós, que os azares as poupam sempre. Mas nem por isso me choca menos confrontar-me com o silêncio destas casas que, para nós, apareceram de súbito mortas, sem que tivéssemos tido oportunidade de trocar uma última palavra com quantos as ocupavam e também faziam parte do nosso mundo.     

9 comentários:

Anónimo disse...

Estas penas são maiores do que as penas mortas, se as tivéssemos levado a enterrar... Há lugares aonde não devemos voltar. Não volto!

freitas pereira disse...

Gostaríamos todos de só colecionar os momentos de felicidade . O problema é que as pessoas que nos falam dos bons velhos tempos e dos bons velhos amigos ultrapassaram quase sempre a cinquentena.

Anónimo disse...

O post fez-me lembrar a reportagem que passou, ontem, na SIC sobre as milhares de casas devolutas em Lisboa quando um arquitecto disse que "as casas têm vida e também morrem".

Isabel BP



Anónimo disse...

Os momentos do passado, os conhecidos e amigos de várias épocas aparecem-me agora como felizes dias passados mesmo que ainda encontre alguns naqueles almoços em que se procura "reatar" a realidade comum já passada!

Lúcido post !

Fico a pensar como se´ra a geração facebook em confronto com o passado!

Alexandre

Anónimo disse...

Creio que o 2.º é o J.R.L., sobre cujo destino há dois anos nos interrogámos em Paris.Também eu nada consegui apurar. O Castelo, tão perto, é às vezes muito, muito longe. Assim terá sido.

Anónimo disse...

O seu relato fez-me lembrar um caso passado com meu irmão há 3 anos. Ele emigrou há muitos anos para o Brasil e tinha uma referência de pessoas amigas numa vivenda em Vila Nova de Gaia. Apenas sabia o nome da rua, mas com a sua memória visual, uma noite chegamos lá. O que vimos foi uma casa em escombros, com silvas por todo o lado. É assim, os anos tudo modificam e muitas vezes para pior...

patricio branco disse...

as casas vazias, velhas e desocupadas, dão que pensar, imaginar a vida que já lá houve...
casas mortas, bom titulo para o conteudo da entrada e boa ilustração do tema...

Isabel Seixas disse...

É, dá que pensar...

Quase sem querer um passeio pela solidão,
conversas com a nostalgia, em dias só de entardecer...

O último Adeus já tinha sido despedida,beijo e sorriso desvanecido, até...

Laura disse...

Um momento inspirado e inspirador... que eu vou recordar sempre.