sábado, 20 de abril de 2013

Aeronáutica lusófona

Era uma sexta-feira, tal como ontem. Eu saíra de Brasília de manhã, em direção a Salvador. Tive um almoço de trabalho com um grupo de empresários portugueses com quem, a meio da tarde, fui recebido, a meu pedido, pelo governador da Bahia, Jacques Wagner. Tratava-se de desbloquear uma questão pendente há vários meses, por um misto de má vontade de alguém e de atavismo burocrático de outros. Wagner era um homem prático, quis resolver o problema que eu lhe colocara e convocou toda a gente relevante para uma reunião. Uma hora depois, percebi que o assunto já estava encaminhado favoravelmente, Pedi então escusa ao governador, dado que a minha presença passava a não ser essencial, e, porque se aproximava a hora do avião de regresso a Brasília, deixei o João Sabido Costa, cônsul-geral, a representar-me, junto dos já radiantes empresários.

À saída da sede do governo estadual, o Zé Carlos, simpático motorista do consulado, deu-me uma má nova: não ia dar tempo para apanhar o avião! Eu saíra imprudentemente tarde da reunião e o acesso rodoviário para fora de Salvador estava congestionado, nesse início de fim-de-semana. Nem mesmo com a ajuda do Paulo, o disponibilíssimo funcionário da "sala de autoridades" do aeroporto, que já tinha feito o "check-in" e emitido o meu cartão de embarque, havia possibilidade de embarcar.

(Um ano antes, o PT tinha ganho o governo da Bahia. Poucos dias depois dessa vitória, fui a Salvador para uma visita de cumprimentos ao novo governador, Jacques Wagner. Porque a política não apaga a obrigação da gratidão, recordo-me que havia ousado oferecer, nessa mesma noite, um jantar ao grande derrotado desses dias, uma das mais relevantes figuras da política brasileira, o histórico "coronel" da Bahia, António Carlos de Magalhães. ACM, como era conhecido por todo o Brasil, era uma personalidade marcante da direita brasileira, ligado à ditadura militar mas decisivo na democracia, antigo ministro, presidente do parlamento e governador do estado. António Carlos de Magalhães havia sido sempre um grande amigo de Portugal e, nessa hora difícil da sua estrondosa derrota, eu havia entendido dever fazer-lhe um gesto público de apreço. À chegada à "sala de autoridades" do aeroporto de Salvador, notei que o responsável pela mesma, que eu conhecia apenas pelo nome de Paulo, estava um pouco cabisbaixo. Logo me explicou porquê: com a mudança de governo no estado, ia haver uma razia total em muito pessoal dos serviços oficiais, com uma onda de substituições. Ele, que os novos poderes ligavam ao tempo do "outro lado", sabia que estava nessa lista e, muito provavelmente, era aquela a última vez que me recebia, com a sua habitual simpatia e boa vontade. Na política brasileira as coisas são assim mesmo, mas devo dizer que fiquei um pouco chocado. Uma hora depois, na conversa com o recém-empossado governador Jacques Wagner, não pude deixar de dizer-lhe que sentia muita pena que o jovem que tão atencioso era para todos os embaixadores, no aeroporto da cidade, aquando das nossas visitas à Bahia, viesse a ser afastado. Wagner não fazia a mais pequena ideia de quem se tratava mas, logo ali na minha frente, deu instruções para que o Paulo se mantivesse no lugar. E, um ano depois, ele por lá continuava.)

Voltemos ao meu atribulado regresso a Brasília. Constatada a impossibilidade de poder chegar a horas ao aeroporto, pela estrada normal de acesso, vi com surpresa que o motorista, depois de umas crípticas chamadas por "celular", começou a seguir trilhos de terra batida, bem fora do asfalto. Pensei que era a tentativa desesperada de encontrar um qualquer atalho. Minutos depois, percebi finalmente o mistério. Chegámos junto de uma imensa cerca metálica, que tinha um portão. Estávamos do outro lado da pista do aeroporto. Ao fundo, bem ao longe, vislumbrava-se a aerogare. Olhei para o relógio e imaginei que o avião, da TAM ou da GOL, devia ter fechado o embarque para Brasília, já há uns bons minutos. Mas, sendo assim, que diabo fazíamos naquele lugar recôndito, até perigoso, na penumbra da noite que caía rápida? Em princípio, tinha de voltar para a cidade, "arrumar" um hotel e preparar a ida para Brasília na manhã seguinte. Foi então que, dentro do perímetro do aeroporto, numa carrinha que se aproximava velozmente do portão, vi o vulto do Paulo, ao lado do motorista. Com uma chave, abriu o gradeamento e disse-me: "Baixadô! O sinhô tem di corrê! Parei o avião p'ró sinhô embarcá!" E, minutos depois, perante a perplexidade incomodada dos restantes passageiros e a nunca explicada cumplicidade sorridente da tripulação, lá entrei eu no avião, com a ajuda ímpar do imprescindível Paulo, através de uma escada de serviço, sem qualquer revista de segurança, conseguindo regressar, nessa mesma noite, a Brasília.

Porque conto isto hoje? Porque há umas horas, no aeroporto de Orly, chegado atrasado a Paris num voo da Air France proveniente de Estrasburgo, passei ao lado do avião da TAP, cuja ligação para Lisboa perdi, por escassíssimos minutos. Lembrei-me muito do meu amigo Paulo, de Salvador. Com ele, eu não perderia esse avião. Sem ele, estou aboletado pela Air France num sinistro Ibis, ao lado do aeroporto, para só amanhã regressar à pátria. Decididamente, gosto cada vez mais de aeroportos lusófonos.

Boa noite!

21 comentários:

Anónimo disse...

Três posts, três histórias de aeroportos. Não para, caro Francisco?

CSC

Anónimo disse...

Por esta história se entende melhor o sucesso que foi a sua passagem como Embaixador no Brasil. Ainda hoje se fala muito de si por lá sabia?

freitas pereira disse...

O famoso "jeitinho"içado ao nível dum Embaixador.
Acima só existe o "jeitão" ! No Brasil é uma "filosofia" da vida ! Não acessível a todos. E em Portugal ?

Jasmim disse...

neste interessante e divertido post, eu reconheço o meu espaço...nasci do lado certo do mundo...

Anónimo disse...

Deveras Hilariante...

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Gosto do "aboletado" termo que pensei só eu usava. Boa Viagem Senhor Embaixador

ARD disse...

António Carlos Magalhães, ACM, também conhecido por Toninho Malvadeza, era um personagem colorido, inteligente e com grande sentido de humor.
Apesar de ser inequivocamente de direita, cultivava amizades na esquerda baiana, brasileira e internacional.
Entre os seus amigos portugueses contava-se, por exemplo, Mário Soares (que inaugurou, a seu convite, as obras de recuperação do centro histórico de Salvador, oPelourinho).
Cultivava a amizade dos intelectuais baianos de esquerda e os escritores Jorge Amado e João Ubaldo, o pintor Caribé e o cantor e compositor Silvio Caldas privavam e conviviam com ele, para espanto e confusão de muita gente.
Podia, perfeitamente, ter sido retratado por qualquer deles nas suas respectivas disciplinas - e, provavelmente, foi-o...

Anónimo disse...

Parece uma história do Tim Tim. E à portuguesa: À qual não faltou a nossa famosíssima “cunha”.
Acho que devíamos institucionalizar a “cunha”!

Anónimo disse...

Qual será a razão...?

JPS

Isabel Seixas disse...

Oh como dá que pensar
a sina de profissionais
que andam sempre no ar...

Tadinhos!...

em busca dos terminais
dependentes dos descaminhos
Ó Pátria a quanto obrigais.

É por essas que compreendo
que já em idades maiores
presidentes do governo
com comitivas e sem pudores

previnam a solidão

não vá tecê-las o diabo
vir algum bicho papão
atazanar senhor delicado
nalguma pensão só abandonado ...

Há por isso Paulos
melhores que Paulos
No abrir Portas
com diversos efeitos de Halos
caem do céu como anjos sem costas

Louvado seja "O" 25 de Abril.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 11.58: leia bem o texto. Para mim, não meti qualquer cunha, alguém quis ser simpático. E garantir um emprego a quem o tem é, reconheça, uma forma aceitável de empenho. Quanto a Orly, ontem, nem me passou pela cabeça ligar à TAP em Paris. Sabe? Eu não pertenço à "raça" diplomática dos que metem cunhas.

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Isabel Seixas: eu não me queixo, que fique claro! Quem corre por gosto - e eu gosto de trabalhar, com resultados - se se cansa tem um bom remédio, que é parar. Ah! e a nada sou obrigado pela pátria. Trabalho para o Conselho da Europa, mas pro bono.

Isabel Seixas disse...

Credo...
Sr. Embaixador que hipersensivel,
eu sei, foi mesmo uma estratégia para equacionar/ativar a sua energia animica e potenciar a sua autoestima... Vejo que está bem e recomenda-se...Realmente não haveria necessidade, pronto.

Mesmo assim e
no entanto não considero relevante alterar o comentário quer na forma quer no conteúdo.
Apenas vale o que vale.

Anónimo disse...

A dança das cadeiras, hoje o PT foi desalojado da prefeitura de Salvador e quem é o prefeito?
O Neto do ACM.
Quem sabe o Sr. Paulo já está servindo os "baxadores" novamente.
Em politica tupiniquim tudo é provável!

Anónimo disse...

Brasil tem muitas coisas menos boas, mas tem outras, como esta, no sentido de ajudar os que lhe estão perto, que é difícil encontrar noutro país... é aquela "costela" lusófona..

Anónimo disse...

Eu SEI que o Sr. Embaixador não pertence à "raça" diplomática dos que metem cunhas. No entanto, aquela história toda só aconteceu, porque o Paulo se manteve no lugar. É o facto crítico do enredo! Acredite, só pensei nisso!
No seu lugar eu faria, muito provavelmente, a mesma coisa.
Mas, como eu conheço o lugar do Paulo! Nem faz ideia!...

Anónimo disse...

Tem razão sr. embaixador! não é "cunha" é o "jeitinho" brasileiro. Eis, portanto, um exemplo de uma derivante linguística para o mesmo fim.

PS:este anônimo não é o das 11:58 e gere-se por outro fuso horário.

Isabel Seixas disse...

Já agora e afinal antes que surja aquele sr./ sra. oriundo do anonimato com sindrome obsessivo compulsivo de preciosismo linguístico escreve-se hiperssensível.

Anónimo disse...

Dois "s" para evitar o som "z", só entre dua vogais.

A) Anónimo com síndrome obsessivo-compulsivo de preciosismo ORTOGRÁFICO

Isabel Seixas disse...

Oh !caro anónimo das 12:40 estava a ver que não aparecia...


Juro que admiro a sua paciência e aliás como está com toda a razão obrigada mais uma vez.
Então com o seu rigoroso aval respeitosos cumprimentos com ou sem hipersensibilidades e bom Domingo.

PS Fique descansado, que embora burrita ou com défices cognitivos, percebi a especificidade da dissociação do "ortográfico" conseguindo ouvir perfeitamente nas maiúsculas os seus gritos de desespero, sugiro-lhe pois um tranquilizante...

Anónimo disse...

No Brasil tudo é relativo, nada é para valer, tudo é faz de conta.
Não existe nada no mundo igual ao brasileiro, é o país da folia.
Não sei se é bom ou ruim. Tudo é possível por aqui.
"Não existe pecado do lado de baixo do equador"

http://letras.mus.br/chico-buarque/86006/