segunda-feira, 16 de março de 2009

O "16 de Março"

Foi um tempo confuso, revelador de que o “movimento dos capitães”, formado no final de 1973 com finalidades de reivindicação corporativa mas que evoluíra já para um projecto político que tinha como principal objectivo o derrube do regime, ainda tinha dentro de si algumas significativas contradições, fragilidades e hesitações.

A demissão do general António de Spínola do cargo de vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, na sequência da publicação do seu livro “Portugal e o Futuro”, lançou uma forte perturbação no seio dos seus apoiantes. Na sua sequência, em 16 de Março de 1974, um grupo “spinolista” tomou conta do regimento de Infantaria das Caldas da Rainha, numa acção que, supostamente, era destinada a provocar o levantamento de outras unidades militares, finalizando com uma marcha sobre Lisboa. Por razões que ficaram deficientemente explicadas, essa movimentação militar havia sido mal planeada e não teve qualquer eco. O regime reagiu, embora com cuidada moderação repressiva, e deteve os revoltosos na prisão militar da Trafaria.

O que terá levado os “spinolistas” a esta aventura? O próprio Spínola tê-los-á estimulado? O desejo de tomarem a liderança de uma revolução que talvez pressentissem que, sem essa atitude vanguardista, escaparia ao seu controlo, como viria, de facto, a acontecer?

Para quem planeava a queda militar do regime, o “16 de Março” terá tido a grande virtualidade de mostrar as cartas de que o Governo dispunha, a sua capacidade de reacção e as forças militares com que podia contar.

Na unidade militar em que eu prestava serviço, como oficial miliciano, serviu claramente para “contar espingardas” e para perceber quem, chegado o momento da verdade, estava ou não disposto a arriscar-se a lutar. E, do mesmo modo, a identificar quem teria de ser neutralizado.

Há precisamente 35 anos, o “16 de Março” foi já o prenúncio do 25 de Abril.

9 comentários:

Francisco disse...

Ainda há que levar em conta a hipótese de interessar ao PCP, que já dispunha presença no quadro de oficiais, fazer estoirar antes de tempo a "bolha spinolista" para ficar com o caminha mais livre.

Anónimo disse...

Recordo-me bem desse período. Em casa, púnhamo-nos a escutar a BBC a fim de saber notícias. E também se tinha comprado o livro de Spínola. Eram tempos fascinantes, enfim, não é qualquer geração que tem o privilégio de assistir à queda de um regime político (sobretudo de uma ditadura). Os jovens de então (nas universidades, na “tropa”, nos locais de trabalho, etc.) viviam a política de uma forma diferente da de hoje. Batíamo-nos por uma causa diferente dos tempos actuais: pelo regresso, depois de uma ausência de mais de 4 décadas, da Democracia.
Também fui miliciano, mas já fui apanhado depois do 25 de Abril ter eclodido, em Setembro de 74. Um grupo que viria a dar que falar, primeiro ali em Mafra e depois em Abrantes, para onde alguns de nós tínhamos sido entretanto transferidos pelo que “fizéramos” no quartel de Mafra. Mas isso é outra história.
Aquele 16 de Março deixou muita gente com esperanças de que algo ia mudar, o que de facto veio a suceder, pouco depois.
Soube-me bem recordar esse período, através do que aqui escreveu Francisco Seixas da Costa.
E nisto já passaram 35 anos, c’os diabos!

P.Rufino

PS: oxalá consigamos agora ultrapassar a “crise” que se instalou com o estrondo de Bancos a falir, empresas a fechar, desemprego a alastrar e investimento e exportações em retracção.
Se calhar, quem sabe, poderemos também estar a ser testemunhas de algo a mudar no panorama económico político (neste caso, global).

Anónimo disse...

Caramba! O PCP é sempre culpado de tudo! Até desta golpada de Spínola. Tenham juízo...

Costa Gomes

Helena Sacadura Cabral disse...

O seu texto Senhor Embaixador fez-me lembrar que muita gente do meu tempo ficou conhecida como "a geração de passado prometedor".
O problema da maioria deles foi o futuro... que não chegaram a cumprir.

Francisco Seixas da Costa disse...

No passado, o futuro era melhor...

Paulo M. A. Martins disse...

Parabenizo-o, Senhor Embaixador, por nos recordar esta tão importante efeméride, marco histórico e génese dos tempos a que chegámos HOJE...

Neste tempo, ainda era a PROMISSORA ESPERANÇA, POÉTICA, NUM FUTURO MELHOR! MAIS HUMANO! A que generosamente o POVO se começou a mobilizar e a que viria a responder, com a sua irrestrita adesão, dias depois, ao 25 de Abril!

Só que, para quem tem a memória curta, cinco meses depois, a 28 Setembro de 1974, houve "a Marcha Silenciosa", considerada um "golpe da dita direita reaccionária", mas que o MDP/CDE e o PCP controlaram magistral e eficazmente, onde não faltaram as célebres e folclóricas "barricadas", onde correu o tinto do garrafão e as sanduiches de presunto...

Era o "Poder Popular" que, pela primeira vez, tinha saído à rua...

A Revolução dos Cravos a andar para trás, com o PCP e o MDP/CDE a fazerem as suas "habilidosas fugas para a frente" e a instrumentalizarem partidariamente a Revolução... que viriam a culminar com o 11 de Março e a "abortarem" com o 25 de Novembro...

"Bons tempos" que já não voltam mais...

Mas, hoje, com muito realismo, face à experiência vivida e adquirida, urge questionar:

- Serão os tempos actuais melhores?

- Quantos, hoje, voltariam a manifestar a sua tão desinteressada generosidade quanto expontânea e voluntária adesão?

Hoje, decorridos 35 anos, se algo tiver que ser posto em causa, nunca o 16 de Março ou o glorioso 25 de Abril, mas, isso sim, a ambição desmedida, paranóica e oportunista de "certos homens" que se serviram da generosidade e do sacrifício de muitos outros...

Valeu a pena?

Como diria Fernando Pessoa, "Tudo vale a pena se a alma não é pequena"!

Mas, quedemo-nos pelo recordar ainda é viver!...

E, neste vale de lágrimas sofridas, vamos vivendo...


Paulo M. A. Martins
Fortaleza(CE) - Brasil

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador permita que ao seu humor contraponha o meu. Se "no passado o futuro era melhor...", no presente o futuro parece-me pior!

Francisco Seixas da Costa disse...

Uma coisa decorre da outra, a meu ver. Mas não será tudo dentro de nós?

Helena Sacadura Cabral disse...

O futuro do passado é, de facto, o nosso presente. Mas ao contrário do Senhor Embaixador, eu acho, felizmente, que é por não ser nada dentro de nós, que a esperança não esmorece.
As nossas diferenças, creio, são geracionais e talvez, quem sabe, ainda, de género. Apesar de este nunca me ter incomodado muito, nem mesmo nos tempos do antigamente.