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quarta-feira, abril 23, 2025

A história proibida


"Tu não te atrevas a escrever sobre esse assunto!" Não foi uma nem duas vezes que ouvi esta advertência, a membros da minha família, quando ameaçava referir-me à morte do meu avô paterno. Desta vez, vou mesmo arriscar tocar nesse tabu familiar. E por que razão o faço? Porque, no dia de hoje ou de amanhã, passam exatamente cem anos sobre a data em que faleceu António Emílio da Costa, esse meu avô. E um século é qualquer coisa que merece ser assinalado.

O meu avô paterno morreu com 52 anos, em Viana do Castelo, no termo do mês de abril de 1925. Tinha casado com a minha avó, Filomena, em 19 de dezembro de 1891, em Ponte de Lima, no lugar de Arcozelo, do outro lado da bela vila, a que os limianos, ensinou-me o meu pai, ele próprio orgulhoso limiano, chamavam "além da ponte".

Em 1912, a família mudou-se para Viana do Castelo, imagino que para melhorar a situação profissional do meu avô. A viagem, de Ponte de Lima até Viana, foi feita de barco. Com ele e com a mulher iam os seis filhos do casal, duas raparigas e quatro rapazes, um dos quais o meu pai, o benjamim da família, então com apenas dois anos. Para trás, em Ponte de Lima, o casal deixava enterrados dois filhos: um rapaz que morrera com quatro anos e uma rapariga, que só viveu 16 anos, e que era, ao que reza a nossa memória familiar, o "ai-jesus" do meu avô.

O meu avô era de uma família modesta, da Correlhã, uma aldeia às portas de Ponte de Lima. Foi ajudado nos estudos por uma pessoa local de posses, que apreciava as suas qualidades. Em Viana, chegou a Escrivão de Direito e montou escritório como Solicitador Encartado. Com a minha avô e os seis filhos, viveu numa bela casa brasonada, que veio a adquirir, em frente à doca de Viana, onde hoje está instalada a Fundação Maestro José Pedro. 

A história quase poderia terminar aqui, com alguma brevidade narrativa. Bastaria dizer que, depois de 13 anos de vida em Viana, com a família, António Emílio morreu, súbita e prematuramente, no mês de abril de 1925. 

Podia mesmo acrescentar que o seu desaparecimento criou um imenso problema económico à família, de quem era o único sustento. A minha avó Filomena ficou numa situação complicada, sem grandes meios de vida, embora tivesse herdado a grande casa onde todos viviam. À morte do chefe da família, só o filho mais velho trabalhava. Os restantes, com uma exceção, ainda estudavam. Perante o súbito infortúnio, a família uniu-se em torno da minha avô, de uma forma exemplar, numa atitude que se prolongaria, pelas suas quatro décadas de vida seguintes. Os filhos mais velhos foram-se empregando e ajudavam a minha avó no custeio da educação dos mais novos. As condições nunca permitiram, contudo, que qualquer deles tivesse chegado à universidade. Mas todos souberam dar a volta à vida e construir um futuro estável. 

Chegado a este ponto, o leitor perguntará: mas, então, esta era a história proibida? Não, caro leitor, não era. Ela já aí vem. 

Antes disso, deixem-me dizer que o meu avô António Emílio era um republicano dos quatro costados, membro da Maçonaria e ligado ao grupo político de Álvaro de Castro, um destacado dirigente anti-sidonista, que chegou à chefia do governo. Em Viana do Castelo, o meu avô António Emílio representava essa linha política e tinha forte atividade no distrito. Aquando da sublevação anti-republicana conhecida como "monarquia do Norte", António Emílio andou de armas na mão a combater, com êxito, os "talassas" que sonhavam com o regresso do antigo regime. Ao que se dizia lá por casa, não sendo politicamente um radical, alimentava uma atitude anti-clerical e distante da religião, a qual, muito provavelmente, terá tido uma influência duradoura nas ideias dos filhos, onde também nunca vi frutificar nenhuma réstea de reacionarismo. Em geral, os netos herdaram esses cromossomas políticos...

António Emílio seria, a acreditar na imagem que dele ficou na memória da família, uma figura de atitude bastante austera. O meu pai, que tinha já 15 anos aquando da sua morte, dizia que, ao contrário da eterna suavidade da minha avó, ele impunha um ambiente de disciplina familiar muito severo: "Não me recordo de nos ter dado alguma vez um beijo. Quando entrava em casa, criava-se à sua volta um ambiente de extremo respeito e até de algum temor. A tua avó recordava que ele tinha graça e era divertido. Mas não foi essa a imagem que deixou nos filhos".

Seria António Emílio assim mesmo, fora de casa? É que aqui começa outra história, uma história de vida diferente. Nesses 12 anos de existência em Viana, antes da sua morte - e já iremos ao modo como ele morreu -, o meu avô tinha criado uma existência paralela: a uma outra senhora, de quem, nesse período, veio a ter cinco filhos (uma das versões fala mesmo de sete), o meu avô montou uma casa em frente à Igreja Matriz de Viana. A distância entre as residências das duas famílias era de umas escassas centenas de metros, passível de ser percorrida em menos de dez minutos.

A memória divertida da nossa família regista um episódio em que a minha avó, a quem um dia teria chegado a informação dessa persistente aventura desviante do marido, o terá confrontado e pedido satisfações, em face da evidência da traição. Para o nosso património de tiradas "históricas" caseiras ficou a resposta dada por António Emílio, que não terá negado a evidência, à sua mulher Filomena: "Meninha, o teu lugar ninguém to tira!". Com esta frase "sossegante", o assunto terá ficado resolvido? Nunca saberemos.

Deixo para o fim o derradeiro episódio, o da morte do meu avô. Desde muito cedo que o meu pai me falava daquele momento traumático, que havia privado a família da pessoa que era seu sustentáculo fundamental: "O teu avô morreu com um súbito ataque cardíaco, no escritório onde estava a trabalhar, no piso térreo da casa. Era, provavelmente, algo congénito e quem sabe se nós não herdámos dele essa deficiência cardíaca". Como sou um incorrigível hipocondríaco, andei por muito tempo preocupado com essa possível doença familiar. Até um dia.

Um dia, falando com o meu primo direito, Carlos Eurico da Costa, uns bons anos mais velho do que eu, sobre a morte do nosso avô, referi-lhe o modo como o meu pai falava do assunto. O Carlos deu uma imensa gargalhada! E explicou-me que o meu pai, sendo o filho mais novo à hora da morte do pai, foi sempre deliberadamente poupado de parte da verdade, quanto às condições da morte do pai. Toda a família, incluindo todos os sobrinhos do meu pai, sabiam, há muito, que as coisas não se tinham passado "bem assim". E eu, por tabela, tinha sido mantido fora dessa parte da verdade. "Não vás agora contar ao teu pai, que, desde 1925, alimenta a versão diferente do facto que os irmãos lhe "venderam", mas o nosso avô morreu no decurso de um ato sexual com uma senhora com quem se encontrava no escritório. Foi do coração? Talvez! Ele tinha um largo coração, como os factos vieram a provar..." O meu pai, até ao final dos seus 97 anos de vida, acabou por nunca saber das condições que envolveram a morte do meu avô.

Foi há cem anos, por estes dias, em Viana, que perdi o avô que nunca cheguei a conhecer e cuja vida, como se vê, foi bem agitada e, quero imaginar, bem divertida.

terça-feira, abril 22, 2025

Hondt

A demagogia que por aí anda, sobre os votos que estarão a ser "perdidos" nas eleições legislativas, fruto do método de Hondt, tem por objetivo fomentar a "balcanização" partidária, tornando mais difícil a obtenção de maiorias. É importante alertar para esta irresponsabilidade.

A república dos pijamas

O prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, recordou há dias uma definição ouvida a José Silva Lopes, que lhe explicou, nos anos 70, a dramática dependência de Portugal da indústria têxtil: "Nós não somos uma república das bananas, somos uma república dos pijamas".

Tolentino

Tenho o maior respeito pelo cardeal Tolentino. Contudo, não tendo qualificações de "vaticanólogo", interrogo-me sobre se a insistência da nossa comunicação social no nome do cardeal português como "papabile" tem algum fundamento sólido, para além de "wishful thinking" patriótico.

segunda-feira, abril 21, 2025

Francisco e o San Lorenzo


Passei há minutos junto ao espaço que foi o antigo Estádio do Lima, no Porto. E - logo verão porquê - lembrei-me do papa Francisco, que hoje deixou o mundo.

Na minha infância, o nome de San Lorenzo de Almagro era sinónimo de perfeição em futebol. Ao que o meu pai me contava, aquela equipa argentina teria feito, em 1946/1947, uma temporada de exibição pela Europa e o seu jogo, marcado por passes curtos e uma apurada técnica individual, surpreendeu e venceu todos os adversários que defrontou. 

Popularizado então como o "Ciclone", o San Lorenzo infligiu mesmo uma derrota pesada a uma seleção de Lisboa (chamada BSB - Benfica, Sporting e Belenenses). Nada menos que 10-4.

Cito o que o histórico Ribeiro dos Reis escreveu, sobre esse jogo, em "A Bola": "Uma orquestra afinadíssima, com avançados primeiros violinos, com dribles num palmo de terreno, passes repetidos para trás, extenuando os adversários, tantas as voltas que obrigavam a dar. Basta! Basta! Basta! Dá vontade de gritar aos malabaristas de circo que são os jogadores argentinos"

Dias antes, no estádio do Lima, no Porto, o San Lorenzo tinha dado também uma "abada" ao Futebol Clube do Porto. Foram 9-4. 

Uma noite, no final dos anos 60, num jantar no Pedro dos Leitões, na Bairrada, tive o privilégio de assistir a uma rememoração dessa partida, feita por Gomes da Costa, que fora "avançado-centro" dos portistas nesse jogo e era médico em Vila Pouca de Aguiar, e o meu pai, testemunha de bancada. Eu "vi" o jogo, nessa noite.

Quando Jorge Bergoglio saiu do banco dos cardeais para alinhar na seleção dos papas, com o inspirado nome de Francisco, foi noticiado que ele era, desde criança, um fanático pelo San Lorenzo de Almagro, clube de que era sócio vitalício. 

Agora, tal como as cerejas, as coisas vieram umas atrás das outras, no meu algoritmo íntimo: a morte, o papa, o futebol, o San Lorenzo, o meu pai, as "abadas", o estádio do Lima, o jantar no Pedro dos Leitões. 

Adeus, Francisco! 

domingo, abril 20, 2025

O que aí pode vir

Desde o início da guerra na Ucrânia, o discurso de alguns por cá passou sempre por um esforçado otimismo, quase mimético do de Moscovo: desde 2022, a Rússia terá estado sempre numa posição relativamente confortável, as suas forças armadas terão conseguido grandes sucessos no terreno, a sua economia manteve-se sólida, contra todas as expetativas, não obstante as sanções e as tentativas de isolamento que o mundo ocidental procurou promover. 

Fui acompanhando com curiosidade este discurso que, deliberadamente, pareceu esquecer que a "performance" militar russa esteve muito longe daquilo que era expectável de uma potência que, ao que se dizia, tinha passado por um processo profundo de investimento em modernização militar, durante mais uma década. Era assim estranho que o poder efetivo das forças de Moscovo tivesse estado bem distante daquilo que seria de aguardar. As centenas de milhares de baixas em combate, as destruições maciças de material militar que veio a registar, a limitação dos ganhos territoriais no espaço ucraniano - tudo isto prova que alguma coisa correu muito mal no planeamento russo. 

Desde logo, e para começar, a possível ilusão de que o regime de Kiev iria colapsar em escasso tempo, somada ao óbvio erro de que a Europa, porque dependente energeticamente da Rússia e seguramente pouco motivada para alimentar uma guerra em terra alheia, acabaria por se dividir a prazo. Finalmente, a ideia de que os EUA, humilhados no Afeganistão, não quereriam comprar tão cedo outras guerras, mesmo feitas por "proxies". As coisas não só não correram bem assim, como não correram mesmo nada bem.

Esses tais otimistas caseiros, sem surpresas, foram acompanhando a narrativa de Moscovo: perante as evidências, reciclaram os seus argumentos, justificaram os desaires da Rússia com o poderio da frente ocidental que passou a apoiar desmesuradamente a Ucrânia em termos militares. Se, ao fim de três anos de guerra intensa, ainda não tinham sequer conseguido dominar todo o Donbass, isso era um detalhe. E se as "nacionalizadas" Kherson e Zaporíjia estavam longe de estar totalmente ocupadas, e Odessa era vista apenas por um canudo, nada disso era decisivo. Tinham tempo e gente para morrer. E rezavam pelo regresso de Trump.

Quando Trump chegou, sem surpresas, deixou claro que a Rússia não estava no topo das suas preocupações estratégicas, que não queria arriscar com o caso ucraniano um conflito que poderia vir a ter um preço nuclear. Na Ucrânia, queria apenas recuperar o "investimento". A China e o Irão (por causa de Israel) estavam no radar prioritário de Washington. O novo dono da Casa Branca tornou muito evidente que não estava disponível para partilhar a obsessão securitária que atravessava a Europa e, em especial - e isto continua cada vez mais evidente -, que não contassem com ele para proteger qualquer aventureirismo europeu face à Rússia, a promover na Ucrânia. Em outras palavras: o Artigo 5° da NATO deixava de se aplicar se os europeus atravessassem as linhas vermelhas de Moscovo. Ficavam por sua conta, risco e armas.

Marco Rubio terá vindo à Europa dizer mais ou menos isto, com Trump irritado por ver o velho continente a estimular a resistência de Zelensky à entrega dos pontos. E prestes a perder a paciência, tanto mais que ia perdendo a face - afinal, iam ser necessários mais do que dois dias para "fechar" a guerra na Ucrânia. Ou não.

A meu ver, entramos agora no tempo mais perigoso: aquele em que os europeus, em desespero estratégico e órfãos da América, acham que podem fazer das suas fraquezas forças. O discurso jingoísta de Bruxelas ecoa o temor dos Bálticos, pela voz de Kaja Kallas. Afinal, e de outra forma, a Europa também não quer perder o "investimento" que fez na Ucrânia. E em Zelensky.

Nestas condições de pressão e temperatura, não me admiraria se a Rússia pudesse achar que, sem os americanos por detrás da Europa, e com esta ainda indecisa nas suas eternas cimeiras, se pode dar ao luxo de voltar a pisar algum risco. Com Biden ou Trump, os EUA eram, de qualquer forma, os adultos na sala da Europa. Agora, com a nossa senhora de Bruxelas a soltar os cordões militares aos orçamentos nacionais, com dois mini-poderes globais entretidos a contar ogivas, com um terceiro a aproveitar a novidade da sua nova cara para se auto-absolver da eterna vergonha histórica (mas não em Gaza) e com três outros a porem-se já em bicos de pés, um deles mesmo aqui ao lado, temo francamente o pior. "And I mean it".

sexta-feira, abril 18, 2025

À procura da lógica de Trump


Ver aqui.

A Alemanha que aí vem



Ver aqui

A Turquia e a sua espécie de democracia


Ver aqui.

Mais rigor, por favor

Custa-me ter de continuar a dizer isto, mas "tarifas", em português de Portugal, não são exatamente direitos aduaneiros  - e é disso que estamos a falar quando falamos das decisões de Trump.

Zangas de um outro tempo


Em 1996, Isabel Mota e eu havíamos sido designados, por Marcelo Rebelo de Sousa e António Guterres, líder do PSD e primeiro-ministro, respetivamente, para mantermos um contacto regular sobre a Conferência Intergovernamental que estava a rever o Tratado de Maastricht, e que viria a resultar no Tratado de Amesterdão. 

Eu representava o governo português nessa negociação e Isabel Mota, que fora secretária de Estado e conhecia bem os assuntos europeus, era o "focal point" do principal partido da oposição. Almoçávamos de quando em vez, procurando coordenar posições, com efeitos na atitude a assumir no seio das famílias políticas europeias a que o PS e o PSD pertenciam. 

Mas os amigos, às vezes, são "forçados" a zangar-se. Um dia, Marcelo Rebelo de Sousa, referindo-se à condução da negociação, disse à imprensa uma coisa de que não gostei, tanto mais que eu era pessoalmente visado nesse seu comentário. Embora me não recorde exatamente do tema específico que motivou a polémica que se seguiria, tenho clara memória de que reagi, com veemência, à declaração do líder do PSD, numa resposta dada de imediato num telejornal, diretamente de Bruxelas.

Foi a vez do PSD também não gostar daquilo que eu disse e, através desta carta de Isabel Mota, decidiu "cortar relações" naquele domínio com o governo, tendo eu sido o pretexto. Tenho ideia de que Marques Mendes, então líder parlamentar, me atacou também na imprensa. Marcelo Rebelo de Sousa escreveu-me mesmo uma carta pessoal, a que respondi com outra, mas já não consegui encontrar nenhuma delas. Tenho pena: ajudar-me-ia a lembrar o "grave" motivo do dissídio...

Em compensação, há tempos, na limpeza de alguns raros papéis do passado que ainda andam cá por casa, encontrei esta missiva de Isabel Mota. 

À distância, tudo isto não deixa de ter alguma graça. É assim que recordo o episódio, publicando esta carta e aproveitando para deixar um abraço amigo a Isabel Mota, Luís Marques Mendes e Marcelo Rebelo de Sousa.

Nomes

Uma "guerra" Pedro Nuno Santos já quase ganhou no país (e há muito se tinha imposto no PS): a do nome. "Pedro Nuno" soa bem e pode pegar. O "Luís" de Montenegro não cola, mesmo no ritmo apimbalhado do hino. Pode-se perder com dois nomes consonantes? Pode, mas Alberto João ganhou.

quinta-feira, abril 17, 2025

Nuno Guerreiro

 


Para recordar, com um abraço ao João Gil, aqui ficam Os Loucos de Lisboa.

Memórias do João


Há uns anos, entrei num restaurante nepalês em Lisboa e deparei com o João Cravinho a jantar com um amigo. Já não nos víamos há uns tempos e fui dar-lhe um abraço, passando depois à minha mesa. Ele saiu do restaurante antes de mim. No final do jantar, pedi o meu sobretudo, que tinha mandado para o vestiário. Quando mo trouxeram, qualquer coisa me fez sentir que aquele sobretudo não era o meu. Os empregados tinham-se enganado e haviam entregado o meu ao João. Isso criava um "pequeno" problema: eu tinha deixado no bolso do sobretudo as chaves do meu carro, que estava parqueado num estacionamento próximo, bem como as chaves de casa (embora, neste caso, houvesse outras). 

Tentei ligar ao João, mas ele, que ia a guiar para casa, não atendia. Liguei ao filho, também João, na altura ministro da Defesa, procurando a sua ajuda. Pedi desculpa pelo "abuso" de estar a incomodar um membro do governo. O João filho, com bonomia, respondeu-me: "São estas situações que colocam à prova a utilidade da Defesa...". No final da noite, tudo se combinou e, no dia seguinte, desfez-se a confusão, connosco a encontrarmo-nos junto à Assembleia. Pergunto-me hoje se não foi essa a última vez que estive com o João Cravinho.

A morte do João Cravinho traz-me muitas memórias com ele. Desde logo, uma chamada telefónica que um dia me fez: "Meu caro Francisco. Já viu o cartaz em que nós contracenamos no Trindade?" Eu não tinha visto e, devo dizer com sinceridade, era para mim um privilégio "subir ao palco" com o João Cravinho, embora separados pela distância temporal de uma semana, para proferir conferências naquele teatro.

Deixo, como última recordação, o texto que, há oito anos, redigi para o livro comemorativo dos seus 80 anos.


Um rapaz do meu tempo

Esta ideia de que o João Cravinho é 12 anos mais velho do que eu é apenas uma insuportável sujeição ao calendário, sem a menor aderência a realidade objetiva das coisas. Sempre vi o João como « um rapaz do meu tempo », mesmo que a expressão seja já de outro tempo. Por isso, os seus ditos 80 anos impressionam-me muito pouco.

Lembro-me – ele não se lembra, claro – de me ter cruzado com o João nos idos de 74, naqueles corredores, entre fardas e guedelhas, onde se construía uma confusa esperança, com alegria, ingenuidade e, vá lá !, confessemos, alguma irresponsabilidade. Ele já era quase ministro, eu andava por ali a exercitar a política que tinha lido, absolvido nos erros pela boa intenção de ajudar a desenhar uma alternativa feliz à ditadura. Um dia, a vida levou-me para fora e, por muito tempo, perdi o João de vista, de quem ia ouvindo falar – sempre bem, com respeito e admiração. Só mais tarde, a « mesa dois » do bar Procópio, sob o humor ímpar do Nuno Brederode, nos voltaria a juntar, em largas e divertidas charlas. Finalmente, numa tarde quente de outubro de 1995, assobiando o Vangelis, entrámos ambos para essa aventura simpática que foi o governo de António Guterres. Já amigos, passámos a conhecer-nos melhor, com ele a tratar-me por um eterno « meu caro Francisco ».

Foi então que « aprendi » o João Cravinho. Podem crer que foi « um espetáculo » poder observar um ministro criativo, ousado, muitas vezes polémico, sempre teimoso, coerente, sólido como uma rocha, olhando dossiês técnicos com a vivacidade de um adolescente brilhante, mostrando-nos a modernidade de um olhar singular sobre a política. Posso confessar um segredo ? Foi ao ter o privilégio de assistir a algumas « performances » do João em Conselho de ministros que eu verdadeiramente entendi o que podia significar, em certas áreas especializadas, uma política « de esquerda » – sem chavões ideológicos, mas com um pragmatismo de onde nunca estava distante a solidariedade e a discriminação positiva para quem dela necessitava.

O que sempre me impressionou no João Cravinho foi a sua abertura ao contraditório, atitude de onde me pareceu, aliás, que retirava imenso gozo, porque isso lhe permitia exercitar a dialética, onde a firmeza dos seus argumentos melhor brilhava. Vi-o em confrontos complexos, em que aquele seu eterno sorriso, às vezes gargalhante, irritava, não raras vezes, o interlocutor. Mas pude apreciar e beneficiar da sua abertura a ideias diferentes, que sempre explorava com benevolência e simpatia. É talvez por isso que nunca o vi com uma « idade » diferente da minha.

Uma tarde, fui confrontado com um João Cravinho inesperado, de cuja cara desaparecera o sorriso para dar espaço quase às lágrimas. Foi numa evocação do embaixador Ruy Teixeira Guerra, nas Necessidades. O João não tinha esquecido, e lembrava isso com emoção, a mão amiga que lhe tinha sido por ele estendida, creio que num momento difícil de vida. Marcou-me muito esse momento e « esse » João Cravinho.

Acabo com as palavras que ontem deixei na RTP sobre o meu amigo João Cravinho. Junto um abraço de muito pesar ao filho João e um beijo à Isabel.

quarta-feira, abril 16, 2025

Uma imensa saudade

 


Argélia

França e Argélia mantêm entre si uma das mais complexas relações pós-coloniais da História. Nos vários ciclos políticos, o mal-estar foi uma constante, até chegar ao momento de pré- rutura que hoje se vive. E o território da Argélia chegou a fazer parte das Comunidades Europeias!

Há uma boa síntese hoje no "Le Monde": "Fruit d’une imbrication entre mémoire coloniale, héritages migratoires, passerelles économiques, intérêts stratégiques et convulsions identitaires de chaque côté, la connexion entre la France et l’Algérie est un écheveau infiniment compliqué à manier".

Trump

É interessante a quase unanimidade crítica que por cá se constata em relação a Trump. Dizer mal do presidente americano é hoje um terreno seguro para acordo à mesa de café e em jantares, quase sempre assente em adjetivos depreciativos. E a verdade é que 71 milhões votaram nele...

Às vezes, chovia


(Texto aqui publicado em outubro de 2016, quando passaram alguns meses sem que chovesse ou ventasse em Lisboa. Mas já ninguém se lembra disso!)

As novas gerações, que nos dias de hoje vivem aqui em Lisboa, podem não saber, mas, no passado, às vezes, chovia. É verdade! 

Pequenas gotas de água, aos milhões, frequentemente sob pressão de um ar em movimento a que se chamava vento, desabavam do alto sobre a cidade e molhavam-nos a todos. Para nos protegermos, usávamos uma daquelas sombrinhas com que as senhoras se abrigam dos raios do sol, mas impermeabilizada, chamada guarda-chuva, e vestíamos uns balandraus longos, às vezes impermeáveis, que designávamos por gabardines. Os limpa-párabrisas que se vêm nos carros não existiam então apenas para limpar os vidros, eram utilizados também para afastar as gotas de água com que essa tal chuva enchia a cidade e nos dificultava a visibilidade. É que, nesse tempo, havia inundações que caiam do céu, não apenas as que agora se produzem quando se rompem os canos. Datam, aliás, também desse tempo os telhados inclinados que as casas ainda hoje têm, por onde descia a água provinda da chuva. Ah! E nos dias em que chovia, o sol, que agora brilha em permanência até ser noite, não se via, ficando tapado por um céu cinzento, coberto pelas nuvens, que eram umas espessas formações escurecidas de onde caía a chuva. Era giro!

Vale a pena ter memória, e até alguma nostalgia, desses tempos a que chamávamos "dias de chuva", que às vezes entristeciam as pessoas, mas a que felizmente se deve tanta poesia. Por vezes, confesso que já tenho saudades desses tempos bem longínquos, em que acordávamos e vivíamos, por horas e dias, com a tal chuva a cair sobre nós. Deixo-lhes aqui uma imagem antiga, de arquivo, desses tempos e o link de uma canção que, no Brasil, fizeram mesmo para comemorar tais dias.

terça-feira, abril 15, 2025

Clube de Lisboa


A fotografia é de dezembro de 2016. Minutos antes, este grupo de pessoas tinha acabado de sair de um cartório notarial onde tinha ido formalizar a criação do Clube de Lisboa, uma estrutura de debate sobre temáticas internacionais, que hoje de chama Clube de Lisboa / Global Challenges. Apenas reivindico a iniciativa de termos ido, de seguida, beber uma ginjinha. Quase nove anos depois, todos continuamos ligados aos órgãos sociais do Clube, onde hoje houve eleições. Se quiser participar nas nossas atividades, clique aqui:https://www.clubelisboa.pt/

segunda-feira, abril 14, 2025

Vargas Llosa


Era um escritor genial. Politicamente, era um reacionário. Às vezes, acontece. Na minha hierarquia íntima de admiração, alguns desses criadores têm um valor de exceção, porque conseguiram ultrapassar, graças à sua indiscutível qualidade, a minha rejeição ideológica. A nossa cabeça é muito complicada, não é?

Proibir


Sinal de trânsito que a extrema-direita (e a direita que lhe quer capturar os votantes, cavalgando os medos e as perceções de insegurança) gostaria de ver colocado nas fronteiras. Se os portugueses - um dos povos que historicamente mais emigram - tivessem sido tratados assim...

domingo, abril 13, 2025

O 25 de Abril está de luto


Morreu Carlos Matos Gomes.

Por estas horas

Há dias, em Paris, parei, por instantes, em frente a uma montra com relógios de pulso de uma marca sonante. Alguns, poucos, eram bonitos, outros, a maioria, pretensiosos, outros ainda eram horrorosos, de um mau gosto quase refinado. Quem compraria aquilo? Todos tinham muitos zeros à direita, no preço. Nenhum me entusiasmou.

Ao entrar para o liceu, o meu avô materno ofereceu-me um belo relógio. Um Regines. Era dourado e, aparentemente, tão bom que, com medo de que eu o perdesse, nunca me deixaram usá-lo. Quando essa confiança chegou, já eu queria ter um relógio “à homem”! Devem-me ter comprado um Cauny ou coisa parecida, que era o vulgar de Lineu naquele tempo. Tinham preços muito em conta, mas atrasavam-se e, às vezes, paravam de vez. Quando fui bancário, comprei um ou dois desses Cauny, que os contínuos nos impingiam, a preços "de amigo".

Um dia, todos deixámos de dar corda aos relógios: vieram as pilhas. Passou-se então para o período do plástico, em que se trocava de relógio como quem muda de camisa. Foi a invasão dos Swatch. Depois de algumas tentativas (o preço permitia isso), fixei-me nos modelos “skin”. Sempre muito simples, nada de arrebiques. Nunca quis coisas grandes, cheios de manigâncias técnicas, de cronómetros e luas, botõezinhos para tudo e mais alguma coisa. Até acabei por dispensar aqueles que tinham datas e os dias da  semana. É que eu acabava por não me fiar no que esses relógios me diziam, porque não me lembrava se os tinha atualizado, aquando das mudanças da hora. A única extravagância a cujo luxo sempre me dei foi querer ter ponteiro dos segundos - confesso agora: por pura hipocondria, para medir as pulsações. Só isso. 

Gosto de relógios leves, com um mostrador espartano. Desde há anos, alterno entre um Mondaine com ar de relógio de estação suíça (já tive três), e um Tissot um pouco mais pesado, adquirido num avião, naquele tipo de impulsos que se têm à passagem da hospedeira com o carrinho do “free shop”. De quando em vez, olho a gaveta da mesa de cabeceira e faço a troca de um por outro. Até me cansar de novo e trair o que trago no pulso. 

Herdei alguns relógios: três de sala (é verdade!), franceses, daqueles com caixa de madeira, pesos negros e sonoras badaladas. Ofereci um deles a uma prima, guardo os outros, ambos a funcionarem lindamente. Tenho também a estatueta metálica de uma Diana, que segura um relógio que balançou em tempos felizes. Sou também orgulhoso possuidor de um (pouco valioso, mas magnífico) relógio de parede da Reguladora, de madeira, redondo, com um belo som metálico, que sempre vi em casa dos meus pais. E tenho um pesado e vetusto despertador Cyma (“Acima de Cyma, só Cyma”, ouvia-se nos altifalantes do campo de jogos da minha terra), que os meus pais me “cederam” quando fui para a universidade, com a recomendação: “Não o percas! É da fundação”, com isso querendo significar do início seu casamento, nos anos 40 de outros tempos. Devolvi-o mais tarde. Recuperei-o, infelizmente, ao perdê-los. E, do meu pai, guardo ainda, numa vitrine, o seu eterno Zenith de pulso. 

Não tenho uma particular fixação por qualquer marca de relógios. Não tenho, aliás, o menor fetiche por essa coisa de marcas, que excita tanta gente. Isso é válido para relógios como para tudo o resto, carros e roupa incluídos. E nunca ambicionei ter um relógio de uma marca especial. Cedo na vida concluí que há relógios bastante bonitos que não são muito caros, embora tenha já visto relógios bem caros com um design que me agrada bastante. Mas, por exemplo, nunca me passou pela cabeça ter um Rolex. A frase palerma de um célebre publicitário francês - “Se, aos 50 anos, não se tem um Rolex é porque se falhou na vida” - criou-me uma inultrapassável rejeição pela marca. Não gastarei nunca muito dinheiro num relógio, mas algo me diz que posso perceber, sem a menor dificuldade, o fascínio que os relógios provocam em muita boa gente. 

Há tempos, ofereceram-me um belo relógio, que havia pertencido a um familiar a quem a vida não deu o tempo que merecia para gozá-lo. Decidi agora: vou passar a incluí-lo nas rotações de relógios de pulso que vou fazendo. É isso!

Voto

Não, não preciso de ver debates televisivos para saber, sem a menor sombra de dúvida, em quem vou votar nas próximas eleições, com o claro objetivo de mudar para um governo que seja bem diferente do atual. Mas percebo muito bem que quem estiver hesitante pondere o destino do seu voto à luz dos debates.

sábado, abril 12, 2025

Debates

Ainda não vai ser desta que arranjo pachorra para ver debates eleitorais. Talvez apenas o Ventura - Montenegro. Mais não consigo, confesso. Mas nem isso garanto! Os meus amigos não me percebem. E eu até os percebo. Mas que hei-de fazer?!

Roissy


Ontem passei no aeroporto parisiense dito Charles de Gaulle, a que muitos franceses (e eu próprio) teimam em chamar Roissy.

Estas designações póstumas podem ser algo constrangedoras. Muitas vezes a memória popular não acompanha o voluntarismo afetivo dos proponentes. Veja-se o que acontece ali mesmo, em Paris, com a place de l'Étoile, onde está o Arco do Triunfo: ninguém a designa por "Charles de Gaulle", sendo esse, no entanto, o seu nome oficial. Em Portugal, a maior "maldade" do género foi darem ao Areeiro o nome de praça Francisco de Sá Carneiro (e colocarem por lá uma espécie de estátua artisticamente ofensiva). É óbvio que ninguém chama o lugar por esse nome. E, no Porto, ouço ainda muita gente a falar da praça Velasquez ou do aeroporto de Pedras Rubras, em lugar de nomearem esses espaços em honra à malograda personalidade que, por escassos onze meses, chefiou o executivo português, durante o ano de 1980.

Voltemos a Roissy. Quem não viveu essa época não pode imaginar a fortíssima impressão que o novo aeroporto de Paris provocou a quem, como eu, ainda na casa dos vinte anos, por lá passou, pela primeira vez, em fevereiro de 1976, menos de dois anos após a sua inauguração. 

A arquitetura hiper-arrojada, quase espacial, daqueles tubos transparentes que levavam aos chamados "satélites", equiparava o local aos cenários de "Barbarella" ou de outras películas de ficção científica, uma escola de arte que sempre envelhece muito mal. E tudo por ali rimava bem com o Concorde, que naquele local tinha começado a sua carreira, escassas semanas antes da minha visita, e por lá a acabaria, efémera e ingloriamente, de forma bem trágica, menos de três décadas depois.

Enviado pelo Ministério da Cooperação (já ninguém se lembra, mas existiu então em Portugal um ministério com esse nome, para onde o MNE me havia destacado, por uns meses, vai para 50 anos), eu tinha sido mandado em missão a S. Tomé e Príncipe. Estava-se em fevereiro de 1976. A minha viagem era através de Paris e Libreville. O único voo alternativo era via Luanda, mas a situação militar na capital angolana tornava então menos aconselhável o uso do respetivo aeroporto. Tive assim o privilégio de embarcar em Roissy e, recordo, fiquei extasiado. 

Com o decurso dos anos, quando às vezes por lá voltava a passar, e passei lá bastantes vezes, ia dando conta de que a imagem do aeroporto estava já longe de ser glamourosa. O edifício tinha envelhecido mal, os tubos e os "satélites" haviam-se tornado algo anacrónicos, todo o espaço estava já muito pouco funcional para as novas exigências de uma circulação cada vez mais intensa de passageiros, com os crescentes requisitos de segurança a imporem-se. Para obviar aos problemas desse crescimento, o aeroporto havia entretanto multiplicado as suas estruturas. 

No dia de ontem, talvez por ter utilizado um dos espaços melhor renovados do aeroporto, ou porque o sol brilhasse bem glorioso, ou porque eu estivesse bem disposto depois de uns belos dias de férias em Paris, acabei por achar mais graça a Roissy. Ou a Charles de Gaulle, pronto, se quiserem!

segunda-feira, abril 07, 2025

Lipp


 

Saudades da solidão

Que saudades do tempo em que entrava num avião e me punha a ler um livro, em que não havia telefone nem internet. Agora, com estas modernices, estou para aqui a perder tempo convosco.

Soletrar banalidades

Já não há pachorra! Entra-se numa livraria e as estantes estão atulhadas de coisas de " lifestyle" e auto-ajuda. Há mesmo assim tanta gente que não consegue pensar pela sua própria cabeça?

Trumpotimistas

Eles estão à cata, ao virar da próxima esquina. Se e quando, alguma das insanas medidas de Trump tiver um efeito colateral que possa ser lido como positivo ou menos detrimental, os trumpotimistas saltarão de imediato a terreiro. Estejam atentos! Há malucos para todos os gostos.

Diplomacia afetiva

"Olha lá! Mas então tu tens amigos que são radicais de esquerda e tens outros situados bem à direita na política?! O que é que essa malta tem de comum, para serem todos teus amigos?" Respondi: "É muito simples! O que têm de comum sou eu".

O economista instantâneo

É extraordinária a quantidade de economistas instantâneos que as medidas aduaneiras de Trump criaram. Um taxista eleborava sobre os efeitos nas taxas de juro e no petróleo, com à vontade idêntico ao de um seu colega que, há anos, detalhava sobre a "saída limpa" depois da "troika".

Notre Dame (renovada)

 


... por aí além!


No sábado, no final de um espetáculo que me não acrescentou muito, dei comigo a usar uma frase de um outro tempo: não foi uma coisa por aí além.

domingo, abril 06, 2025

José Neves


Sentaram-me ontem ao seu lado, na sessão de apresentação do programa eleitoral do Partido Socialista, para cujo capítulo de relações internacionais, Europa e defesa dei uma modesta contribuição. (A qualidade de independente e de não militante não me impede de fazer tudo o que estiver ao meu alcance para tentar pôr fim ao ciclo governativo que, em má hora, nos saiu em rifa.) 

Ele, o meu vizinho de cadeira (do outro lado, tinha uma simpática "rapper"), era, em toda aquela mobilizada sala, a pessoa que mais direito teria de ali estar. E passava completamente desapercebido. Chama-se José Neves e há meio século que nos cumprimentamos com grande cordialidade, embora sem nos conhecermos bem. 

Lembrei-lhe que ele seria ali o único membro que estivera presente na reunião fundadora do Partido Socialista, na Alemanha, a menos que o Alberto Arons de Carvalho andasse algures pela sala (o restante, Rui Mateus, há muito que "saiu" da História). "Tenho 94 anos, sabe?". Caramba! Eu não sabia. 

Falei-lhe da famosa fotografia de 19 de abril de 1973, em Bad Münstereifel, na transformação da Ação Socialista Portuguesa em Partido Socialista, em que Mário Soares queria criar o partido e Maria Barroso se opunha e perdeu. "Eu apareço na parte de cima das fotografias, sou o mais baixo. Mas não estava em pé: estava sentado num banco..." E acrescentou: "Pensando bem, é muito estranho que tivesse havido fotografias: era uma reunião clandestina!" Assinalei que não surge, na imagem mais conhecida da reunião, Seruca Salgado, talvez por ter sido ele o fotógrafo. Mas José Neves notou: "Há outra fotografia em que ele aparece". Fui agora confirmar e assim é. E falou-me de uma outra reunião, em Paris, de que eu nunca tinha ouvido falar: "Foi num espaço arranjado pelos socialistas franceses. Dessa não há fotografias".

José Neves é uma figura histórica do socialismo português. Esteve exilado desde 1965 em Londres e só regressou a Portugal com a Revolução. Publicou, em 2023, "Partido Socialista: da Génese à Refundação (1875-1973). Muita saúde, foi o que lhe desejei com um abraço solidário, no fim da festa.

E vamos a isto! 

Jerónimo Martins


Daqui a dias, como foi já publicamente anunciado, vou deixar o cargo de membro não-executivo do conselho de administração da empresa Jerónimo Martins, lugar que ocupava desde abril de 2013. Sou, atualmente, um dos administradores mais antigos da empresa, tendo cumprido quatro mandatos de três anos, o que, aliás, já de si é pouco usual. 

Comigo saem outros cinco colegas, um português e quatro estrangeiros, num processo de rotação que se processa com toda a normalidade, similar a outros que testemunhei no passado. No meu caso, aliás, a saída estava definida e datada há três anos. 

Passarão agora a integrar o conselho, além de figuras estrangeiras, três personalidades portuguesas extremamente qualificadas, que aliás conheço bem e que, tenho a certeza, carrearão novas perspetivas, fruto da sua muito diversa e rica experiência profissional, para os debates no seio da administração. 

É esse, precisamente, o sentido da contribuição que se pretende seja dada pelos administradores não-executivos ao trabalho das empresas, facto que a opinião pública em regra desconhece. A grande maioria dos administradores não-executivos raramente é oriunda do ramo económico das companhias que integram.

Foi em dezembro de 2012, a semanas de sair de embaixador em Paris, por imposição legal, e de ir abandonar o serviço público que tinha exercido por mais de quatro décadas, que recebi um convite de Alexandre Soares dos Santos para me juntar à Jerónimo Martins. Tinhamo-nos encontrado brevemente ao tempo em que ambos presidíamos aos Conselhos Gerais de duas universidades públicas.

Foi para mim uma total surpresa: viviam-se os tempos da "troika" e do governo Passos Coelho, executivo que ninguém desconhecia estar muito longe da minha simpatia. Entendi dever dizer isso mesmo, com clareza, a quem me formulava o convite, não fosse dar-se o caso de poder haver algum equívoco. A resposta desarmou-me: "A política não é para aqui chamada. Precisamos de si para nos ajudar a pensar o futuro, à luz da sua considerável experiência internacional. Só isso!" 

E foi exatamente assim, durante 12 anos. Os meus colegas de conselho, entre os quais fiz alguns amigos para a vida, testemunharam frequentemente a minha teimosa heterodoxia, e até algum isolamento, em face de outras perspetivas conjunturalmente dominantes nos debates. Mas sempre ali disse tudo o que quis dizer, às vezes coisas que sabia irem ser menos cómodas de ouvir. Honra muito a empresa o cultivo desse saudável ambiente de pluralismo e de tolerância.

Aliás, a prova provada da total liberdade que sempre vivi na Jerónimo Martins - também comum a outras empresas com que colaborei e a outras em que atualmente continuo a trabalhar - é que, como colunista de três jornais, que entretanto tinha passado a ser, eu zurzia regularmente, sem contemplações, as minhas "bêtes noires" políticas. Contudo, nem por isso alguma vez recebi a menor observação de desagrado, ou sequer uma recomendação de contenção, da parte de qualquer dos meus empregadores. Nem por uma só vez! E eu sabia, de certeza segura, que, muitas vezes, eles não concordavam minimamente com muito do que eu por ali escrevia.

Quando entrei para a Jerónimo Martins, fui à Colômbia, à inauguração da primeira loja que lá foi criada. No ano passado, abrimos ali a loja 1000! Nos quatro mercados onde hoje opera, a Jerónimo Martins tem cerca de 6000 lojas, dando emprego a mais de 140 mil pessoas. Há 12 países membros da ONU que têm menos habitantes... 

Quero, assim, nesta ocasião, deixar claro que tive um imenso gosto e orgulho em ter colaborado, durante estes 12 anos, com a Jerónimo Martins, onde fui muito bem acolhido e que, afetivamente, me sentirei para sempre "lá de casa". 

Aproveito para deixar um sincero abraço a Pedro Soares dos Santos, o líder da empresa, o principal responsável pelo imenso êxito que ela tem vindo a ter, nas quatro geografias onde hoje atua. É público e notório que Pedro Soares dos Santos é uma pessoa que, em certos setores, suscita alguma polémica, que tem motivado o surgimento de alguns detratores e até, posso imaginar, de alguns inimigos. Mas é bom que se saiba que também tem muitos amigos. Eu, por exemplo.

sábado, abril 05, 2025

Desculpa, Manuel!



Fiz o meu melhor, mas o melhor não chegou! Tentei compatibilizar uma inadiável ação cívica, no Parque das Nações, com o lançamento de um livro do meu amigo Manuel Duran Clemente, que iria ter lugar na Voz do Operário, horas depois. Não deu para ir! A ubiquidade é "uma cena que não me assiste", como dizia o outro. Lisboa, num sábado de sol, cheio de turistas que descobriram o miradouro da Senhora do Monte, deixou a Graça pouco acessível, para mais a quem já ia atrasado e com necessidade de estacionar. E assim, errando nervoso por ruelas e já quase a chegar por lá, concluí que ia ter de faltar, ao contrário do que tinha prometido, ao lançamento do livro do Manuel, um camarada de armas, como eu tributário desse insigne Serviço de Administração Militar, que alguma coisa deu a Abril. "Mas isso já foi há meio século!", dirão uns cínicos preciosistas de datas. Eles não sabem nem sonham que meio século é uma ninharia para uma amiga cumplicidade. Vou comprar o livro, claro. E, depois, direi de minha justiça. Só posso esperar que tenha sido "bonita a festa, pá".

O meu primeiro telegrama


Ontem, passei pelo arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros e pedi para ver a "telegrafia" saída da  nossa embaixada em Oslo nos anos de 1979 a 1982. O meu objetivo era recolher dados de que necessitava para uma determinada finalidade.

Esses telegramas, nome que no MNE se dá às comunicações entre as embaixadas e Lisboa, são assinados pelos dois embaixadores com quem ali trabalhei sucessivamente e, em escassos casos, subscritos por mim próprio, como "encarregado de negócios", nas ausências dos titulares e no período em que assumi a chefia entre esses dois embsixadores.

Estava eu entretido a ler essas escassas centenas de textos quando, de repente, deparei com este telegrama. Tem a curiosidade de ser o primeiro texto dessa natureza que eu assinei, no dia 17 de julho de 1979. Há dias, curiosamente, deixei aqui cópia do último que subscrevi, em janeiro de 2013. Verdade seja que, se este último tem algum "sumo", o que hoje publico é um texto completamente vulgar, que constato que apenas cuidei que estivesse bem ao estilo MNE.

Se bem atentarem, nele sigo a regra sacrossanta da Casa de evitar artigos e preposições, uma prática já então sem o menor sentido, que ainda refletia os tempos em que os telegramas eram enviados pelo telégrafo e era preciso poupar nas letras e no custo do envio. Nesse ano de 1979 e muito depois, a regra só era mantida por mero seguidismo com a liturgia da casa. Recordo-me bem quando um dia, 25 anos mais tarde, como embaixador no Brasil, dei instruções escritas aos meus colaboradores para passarem a escrever textos corridos: houve quase um motim! A tradição deixa raízes.

A máquina em que grafávamos os textos não permitia colocar acentos nem cedilhas, o que, como notarão, obrigava à repetição da letra em sua substituição. Por exemplo, "não" é "naao", para utilizar algo (por ora ainda felizmente) em voga. No texto, repararão também que as nossas autoridades máximas eram (e continuam a ser) antecedidas por "Sexa". O ". /." no final era uma convenção nossa para dar sinal disso mesmo, de que o telegrama chegava ao fim.

Finalmente, uma nota sobre o conteúdo do texto. Era prática regular as embaixadas informarem Lisboa das notícias que saíam sobre Portugal e, ao fazê-lo, era interessante explicar qual era a orientação dos jornais que traziam essas notícias. É o que faço no texto.

Enfim, ao reler agora aquele meu primeiro telegrama, fiquei com alguma pena pelo facto de ele não ter sido mais "literário" e de substância. Mas, pensando bem, fui prudente: se há coisa que o Ministério detesta é ver os encarregados de negócios, conjunturais chefes de missão, porem-se "em bicos de pés".

França. Um clima político pesado e complexo.


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sexta-feira, abril 04, 2025

Uns para os outros


"Onde?! No Cacém?! Tenho de ir à Loja de Cidadão do Cacém, para recuperar o código do meu Cartão de Cidadão?" Era assim mesmo, se quisesse resolver o problema, criado pelo meu descuido, sem ter de esperar quase um mês, fui informado pelo telefone. Mas também podia escolher ir à Azambuja. 

E lá fui ao Cacém. Na sala de espera, sentei-me ao lado de uma senhora, passada dos oitenta de idade, que olhava com curiosidade o iPad em que eu lia notícias, para matar o tempo. A certa altura, não resistiu: "Isso tem as "coisinhas" iguais às do meu telemóvel. Deve ser bom poder ler com essas letras grandes. No meu telemóvel - veja! - são letras tão pequeninas!" Também não resisti: "Quer ter letras maiores no seu telemóvel? Dá-me licença que mude as letras que usa?" E lá fiz a alteração, aumentando-lhe num segundo as letras, com a senhora encantada com o resultado: "Nunca ninguém me tinha dito que isto era possível! Vejo muito melhor assim! O que a gente aprende!". 

Entretanto, já ia passando bastante tempo sobre a hora para a qual tinha sido convocado, e a minha nervoseira ia aumentando. À minha parceira de espera não escapou o facto de eu olhar repetidamente para o quadro eletrónico. A certa altura, perguntou: "O que vem aqui fazer?" Disse-lhe e foi então a vez de ela me ser útil: "Ah! Mas isso não é aqui! É lá ao fundo, na outra sala. Ainda há dias fui lá com uma prima!"

Eu estava, como diz o Sérgio Godinho, "à espera do comboio na paragem do autocarro". O que a gente aprende! Temos de ser uns para os outros, não é?

Le Pen na extrema-direita francesa


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Macron entre o presente e o destino


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Outros tempos


Eu ainda sou do tempo em que o agora vice-presidente americano J D Vance escrevia tweets assim.

Tarifaço

Os brasileiros são incomparáveis na sua capacidade imaginativa para descobrir palavras "gráficas", que crismem certas realidades. As medidas aduaneiras de Trump são, claro, um "tarifaço"!

China

A resposta chinesa às medidas aduaneiras de Trump não "desiludiu" as expetativas: olho por olho. Como estamos em mares nunca dantes navegados em termos de comércio internacional, só nos resta perceber o modo como os mercados vão reagir e, claro, sofrer as eventuais consequências.

Sem olhos em Gaza


Entre os direitos aduaneiros de Trump e as angústias de Zelensky, o mundo não olha para a barbárie que Israel continua a praticar, todos os dias, em Gaza. É uma forma de racismo na atenção. 

Trump e a NATO

A NATO, tal como a conhecíamos, não está a funcionar. A sua principal virtualidade era a certeza dos adversários de que, em caso de ataque a um aliado, os outros (isto é, os EUA...) reagiriam em seu apoio. Até ver, com Trump, isso acabou. Contudo, Trump não durará sempre e não há a certeza de que o futuro da América seja seu herdeiro orgulhoso. Podemos assim perguntar-nos se haverá mais vida para a NATO, tal como a conhecíamos, depois de Trump.

Burden

Os aliados europeus dos EUA deram por adquirido, durante décadas, que era do interesse estratégico americano garantir a defesa da Europa. Por essa razão, não iam levando muito a sério os sucessivos avisos para aceitarem o "burden sharing". Agora, Trump acordou-os.

quinta-feira, abril 03, 2025

China

A Rússia é um "fait divers". Para os EUA, o que realmente conta é a China. Com o "tiro no porta-aviões" do comércio, os EUA concretizam agora um ataque sem precedentes aos interesses de Pequim. Nunca sabemos bem o que está na cabeça dos chineses, salvo a questão de Taiwan. Terá graça ver como irão reagir.

Na hora do bitaite

É num dia como o de hoje que me congratulo com o facto de ter decidido suspender o meu comentário regular sobre temas internacionais. É que, estou certo, seria tentado a "dar bitaites" sobre as medidas protecionistas de Trump, tema em que os economistas se dividem.

Isto

Basicamente, é isto: "“The era of increasingly free and extensive international trade, built upon a rules-based system that the U.S. was instrumental in shaping, has drawn to an abrupt end,” Eswar Prasad, a professor of trade policy at Cornell University, said." (NYT)

terça-feira, abril 01, 2025

Militares

Tive ontem o gosto de ser convidado a falar sobre um tema internacional durante o almoço numa associação que reúne pessoas orgulhosas do seu passado militar profissional. Foram algumas largas dezenas que se deram ao cuidado de me ouvir, entre eles oficiais generais dos três ramos das Forças Armadas. As perguntas foram muitas e excelentes, em quase três horas muito bem passadas. No final, foi bonito ver respeitado um minuto de silêncio "em memória dos nossos camaradas que morreram em combate", seguido do canto do hino nacional.

Xenofobia

O diretor da PJ, Luís Neves, cometeu um lapso ao deixar-se ficar na imagem ao lado de Fernando Gomes. A extrema-direita, que nunca lhe perdoou as palavras corajosas com que denunciou o alarmismo xenófobo, caiu-lhe agora em cima. Estou certo que a senhora ministra da Justiça não é das pessoas que se deixam impressionar por estas manobras.

Jaime Nogueira Pinto

Jaime Nogueira Pinto completa hoje mais uma década de vida. Há mais de cinquenta anos que somos amigos. Na política, como sabem aqueles a qu...