António José Seguro não deve nada a ninguém. O lugar a que chegou, de candidato favorito a poder vir a ser Presidente da República, deve-o quase exclusivamente a si próprio. Em 2014, Seguro deixou de ser secretário-geral do PS, depois de ter sido derrotado por António Costa nas "eleições diretas" para a liderança do partido, que ele próprio tinha convocado. Fez depois uma vida profissional independente da política, manteve-se recatado na expressão de opiniões durante mais de uma década. Não interveio na vida do partido, onde imagino que conservasse os seus amigos, mas não criou uma "tendência" ou grupos de influência. Um dia, com toda a liberdade e no pleno uso de um indiscutível direito cívico individual, anunciou estar disponível para ser candidato à presidência da República. Essa sua decisão não suscitou uma onda de fundo, em matéria de apoios, dentro e nas margens do partido de que tinha sido líder. Outros nomes eram ventilados como candidatos que poderiam vir a merecer o favor do Partido Socialista e de gente que lhe está próxima (como foi o meu caso, que antes defendi outros nomes; com toda a lealdade que era devida a uma pessoa que sempre respeitei muito, desde muito cedo que tive o ensejo de deixar isso claro). Seguro manteve-se "droit dans ses bottes", como um dia disse Alain Juppé. Persistiu, como era o seu pleno direito. E mesmo quando as sondagens o não favoreciam, continuou a sustentar, sem a menor hesitação, a sua intenção. O PS acabou por se lhe render. E a sua postura, a sua seriedade, a sua imagem de homem de bem, impoluto e dialogante, de democrata acima de toda a suspeita, acabaram por impô-lo junto da grande maioria dos eleitores, mesmo fora da área socialista. E com alguns dos restantes candidatos a envolverem-se em chicanas verbais, mutuamente flagelantes, Seguro passou incólume pelo meio da refrega, com elegância e respeito pelos outros. Com a passagem do tempo, o país percebeu que estava ali alguém que, se acaso chegasse a Belém, cumpriria o cargo com imensa dignidade e sentido de Estado. E rendeu-se-lhe. Imagino que, neste momento, Seguro deva estar muito satisfeito consigo próprio. Tem todas razões para isso. O lugar onde chegou deve-o a si mesmo. Vai entrar em Belém de mãos completamente livres. Parabéns, António! Esta vitória é só sua. E muito merecida.
