Parece que o mundo ainda não se apercebeu da tragédia que está a atravessar o Brasil, com esta pandemia. Mais de 1.100 mortos, só hoje! Os números crescem exponencialmente, todos os dias.
terça-feira, maio 19, 2020
Afinal...
É fácil constatar que alguns dos maiores alarmistas na questão dos ventiladores (que não faltaram a ninguém) coincidem com os que agora criticam as regras e o ritmo de desconfinamento. E são também os que mostram um evidente mal-estar perante o saldo político revelado pelas sondagens. É tudo tão simples, afinal...
segunda-feira, maio 18, 2020
O passado ficou lá
Há uns meses, lá por Vila Real, numa arrumação de férias, surgiu, creio que de dentro de uma mala, um maço de cartas, atado com fita. Aberta uma delas, constatei que ali se juntava correspondência entre o meu pai e a minha mãe.
Como o namoro entre ambos teve lugar, durante pouco mais de um ano, em Vila Real, onde ambos então viviam, presumi que a correspondência fosse da época em que o meu pai, durante um tempo que também não terá sido muito longo, esteve destacado a trabalhar em Monção. Nesse período, a minha mãe tinha continuado a viver em casa dos seus pais, em Vila Real. Por isso, as cartas trocadas entre ambos foram já depois de casados. Imagino mesmo que, em algumas delas, se falará da gravidez que deu origem a quem escreve este texto.
Escrevi “imagino” porque não consegui passar das primeiras linhas da carta que abri. Como filho único, senti que continuar nessa leitura era pura bisbilhotice, era um abuso de intimidade, a cujo luxo me não podia dar.
E não imaginam como eu gostaria de poder conhecer o que os meus pais diziam sobre as família de ambos, de ler notas de como viam o seu futuro, podendo agora confrontá-lo com o que, de facto, ele acabou por ser, de perceber como era afinal a sua vida comum nesse final dos anos 40, do que então pensavam e os preocupava, das dificuldades que eventualmente enfrentavam, enfim, do seu mútuo olhar sobre o seu mundo. Como eu nasci estando o meu pai ainda em Monção, e como a minha mãe escrevia bastante bem, imagino que deva haver belas descrições, embora enviezadas pela afetividade, sobre o seu “rebento”. Como é que eu “seria”, na visão da minha mãe?
Tenho uma grande curiosidade, mas, apesar disso, não vou ler as cartas. Os meus pais já morreram há bastante tempo. Não preciso de “aprender” mais nada sobre eles. O passado ficou lá.
O velho normal
A prova real de que o país entrou em desconfinamento é o regresso às manchetes dos jornais daquilo que ocupava os portugueses antes da chegada do vírus: o futebol e as presidenciais.
“Um espetro ameaça...”
A paranóia conspirativa, sobre o fantasma do “marxismo cultural”, que anda aí a excitar algumas meninges pouco dotadas, esconde uma realidade que esses setores não são capazes de reconhecer: é que, pelas bandas deles, não há muito para apresentar como alternativa pensante.
domingo, maio 17, 2020
José Cutileiro
Hesito sempre, quando penso em José Cutileiro, se destacar mais o genial criador dos “Bilhetes de Colares”, essas pequenas crónicas ficcionadas, supostamente da autoria de um inglês residente na Várzea, reformado dos serviços secretos e com um “caso” subliminar com um cabo do Exército, que lhe traduzia os textos e aconchegava os lençóis, escritos num português límpido e enriquecido por uma memória culta, atento como poucos às nossas idiossincrasias, ali refletidas de forma por vezes cruel mas, nem por isso, menos verdadeira, típica de quem, estando cá dentro, manteve o seu olhar por fora, se a figura pública, misto de interventor político e de personalidade académica, que terá ficado na memória da maioria de quantos apenas o conheciam pelo nome, em especial pelas suas informadas análises da situação internacional, para onde decantara anos de uma vivência atenta ao terreno global, com especial relevo para o trabalho mediador desempenhado nos Balcãs, ao lado de lorde Carrington, visão que nele sempre refletia um realismo cético, marcado por um sentido assumidamente pessimista dos rumos do mundo, quiçá fruto da sua passagem pela diplomacia, onde um dia acedeu por escolha política, para uma casa que o aceitou e que indiscutivelmente beneficiou da válida contribuição que ele lhe prestou, e que acabou por lhe induzir uma espécie de sentido do que é possível fazer com as coisas tais como elas estão, a ele que vinha de uma afetividade e de uma nostalgia óbvia pelos tempos em que a relação transatlântica fora o centro incontestado do equilíbrio geopolítico que protegia a nossa segurança, a que o fim da Guerra Fria começou por introduzir muita esperança para acabar por se consagrar, como hoje está, num ambiente de desconfiança, criando alguma orfandade não resolvida à Europa, de cujo instrumento político-militar formal, a UEO, ele foi o derradeiro secretário-geral, tarefa da qual saiu, com prestígio, para uma experiência universitária breve, cumulada ao seu sempre inteligente comentário público sobre os rumos do mundo, para as nótulas sobre o quotidiano e as suas histórias com os outros que deliciam no seu “Inventário” bloguista, bem como para os ricos obituários de figuras, algumas ignotas para quantos não faziam parte do mundo anglo-saxónico que era a sua nunca desmentida “praia”, escritas semanalmente no “Expresso”, num estilo que se distinguia por não usar pontos finais a sincopar o texto, o que, em jeito de homenagem, arremedo neste que aqui lhe dedico, na hora da sua morte, que hoje foi anunciada, com um beijo de pesar à Myriam.
sábado, maio 16, 2020
“Angola é nossa!”
Há uma imagem que me marcou. Um final de tarde, ou uma noite, em frente ao edifício do governo civil de Vila Real, com gente a discursar da varanda central. Eu tinha pouco menos de 13 anos e recordo-me de que fui ali com o meu pai. Era uma manifestação de repúdio pela tomada da então chamada Índia portuguesa, pelas tropas invasoras da União Indiana, ocorrida dias antes. Os discursos eram inflamados e, de entre os oradores, recordo-me do Dr. Carlos Sanches, professor liceal e, ao que creio, presidente da Junta Distrital. O meu pai também ali estava no meio da multidão, solidário com a forte rejeição do país perante a ação violenta que “nos tinha roubado” o Estado da Índia.
Poucos meses eram passados, ainda nesse mesmo ano de 1961, e guardo a imagem de ter visto marchar pela cidade, desde o Regimento de Infantaria 13 até à estação de caminho de ferro, o primeiro contingente que dali partia para Angola, em “missão de soberania”, como então se dizia. Tinham uma farda de caqui bege, com um boné de pala da mesma cor. A cidade aplaudia-os. Provavelmente, também o fiz.
O país tinha ficado visivelmente chocado com as imagens, abundantemente mostradas, de corpos de “brancos, pretos e mulatos” chacinados à catana, no norte de Angola, durante os ataques da UPA. Pela rádio, diariamente, chegavam-nos relatos, em tom épico de reportagem patriótica, através de uma voz inconfundível que descrevia essas atrocidades. “De Angola, Ferreira da Costa”, era assim que terminavam essas reportagens na Emissora Nacional.
Em minha casa havia unanimidade: desde o meu avô, que eu sentia como salazarista, de quem fora “condiscípulo” em Coimbra, até ao meu pai e aos seus cunhados, filhos desse avô, que detestavam o ditador. “Angola é nossa” era então a palavra de ordem indiscutível.
Faço estas notas para sublinhar algo que, às vezes, tem sido esquecido: nesse tempo, podia ser-se ferozmente anti-salazarista e, no entanto, ser-se a favor da manutenção das “possessões portuguesas no Ultramar “.
Era o caso do meu pai, apoiante de Humberto Delgado, que ficou deliciado com a tomada do Santa Maria por Henrique Galvão, que teve forte pena de que Botelho Moniz não tivesse conseguido derrubar Salazar, que viria a lastimar que o posterior “golpe de Beja” se tivesse gorado. E que, no entanto, ficou indignado com a invasão do Estado da Índia e apoiou a reação militar portuguesa às “ações terroristas” em Angola.
Passados que foram esses primeiros tempos de choque, que foi muito genuíno, a captação emocional do país em favor da “guerra do Ultramar” começou a declinar. Não me recordo de mais nenhum ato de empenhamento “ultramarinista” significativo, lá por Vila Real, embora os deva ter havido, promovidos pelos apoiantes do regime. O início da mobilização militar dos civis, num ambiente político onde a aceitação da exaltação nacionalista já tinha tido melhores dias, viria a tornar a causa da guerra pouco popular em Portugal.
Mas voltemos um pouco atrás. Como é sabido, o republicanismo português havia sido, desde a sua origem, fortemente “colonialista”, tendo a palavra, aliás, uma conotação muito positiva no seu discurso.
Da crise do Ultimatum à entrada na Grande Guerra, a questão do “Portugal pluricontinental”, por muito tempo, esteve no centro da doutrina republicana e, depois do 28 de Maio de 1926, nunca dividiu as forças oposicionistas da linha que prevalecia na “situação” consagrada pela ditadura.
Vale a pena lembrar que, no final dos anos 40, a unidade das forças oposicionistas fez-se à volta de Norton de Matos, um general que se orgulhava de ser um criativo “colonialista”, tendo no seu orgulhoso currículo o governo de Angola. E, menos de uma década depois, essa mesma oposição juntou-se para apoiar Humberto Delgado, um general dissidente do salazarismo, que havia defendido desde a primeira hora, e a quem, à época, ninguém tinha ouvido uma palavra de contestação da política colonial do regime.
Só nessa segunda metade dos anos 50, com o surto de independências de antigas colónias europeias e, em especial, depois da Conferência de Bandung, em 1955, que se reuniu em torno dos novos países descolonizados, o PCP, seguindo a linha da URSS, passou a defender o direito à independência dos povos coloniais. Seria, aliás, a primeira força da oposição a fazê-lo. Porém, logo a partir de então, a linha anti-colonial tornou-se rapidamente maioritária no seio da oposição à ditadura, em especial na extrema-esquerda de orientação pró-chinesa, alargando-se depois aos meios católicos radicais, onde começou a germinar um discurso pela “paz” que viria a tornar-se muito popular.
Lembro-me, contudo, que, na Comissão Democrática Eleitoral (CDE) de Vila Real, ainda em 1969, que tinha uma natureza “catch all” de todos quantos se opunham ao Estado Novo, o tema era ainda bastante divisivo. O facto de um dos nossos candidatos ter afirmado que queria “manter o Ultramar português”, num discurso num comício, levou-me, uma noite, a provocar uma “crise” na CDE de Vila Real.
Quase até ao 25 de Abril, subsistiu, na vida política portuguesa, um setor oposicionista mais conservador, em torno do chamado Diretório da Ação Democrato-Social, que sempre se recusou a subscrever a postura anti-colonialista do resto da oposição. Após o 25 de abril, esse setor viria a aderir, quase em bloco, ao então PPD.
Apeteceu-me deixar hoje aqui esta nota memorialística dos tempos em que, também eu, cantei o “Angola é nossa!” Ninguém é perfeito!
sexta-feira, maio 15, 2020
Tristeza
Quem por aqui me segue, já terá percebido que a frequência regular das livrarias (que falta me fez, este ano, a Feira do Livro!) e as idas regulares com amigos a restaurantes - e a ordem pode tambem ser inversa, assumo-o, sem rebuço - fazem parte dos meus hábitos e prazeres mais arraigados e regulares.
Ouço agora que, com a “pancada” da crise, muitas livrarias entraram numa séria crise de existência. Leio que a “Barata”, da Avenida de Roma, que tem uma “história” e que, na sua atual encarnação, representou uma bela onda de modernidade na cidade, pode vir a encerrar.
Também vários restaurantes, em especial os mais pequenos, confrontados com a esperada relutância de alguma clientela em correr riscos e com a dificuldade de compatibilizarem um mínimo de rendimento com as novas regras sanitárias, entraram em crise, em certos casos, já definitiva.
Confesso que tudo isto me entristece.
“Remake”?
“Santana pediu dispensa de funções executivas no Aliança”, diz hoje a imprensa.
Há por aí presidenciais? Há muita gente cansada de Marcelo? Há quem fale em arranjar um candidato de direita que não seja o atual PR nem o homem do Chega?
Eu já nem digo nada!
Alma de ateu
Há dias, a propósito da dignidade inteligente com que a hierarquia religiosa lusitana geriu o 13 de maio em Fátima, em tempo de pandemia, a contrastar com o que parecia ser um exercício de ginástica rítmica na Alameda, deixei claro num escrito que fazia esse homenagem na minha qualidade de ateu.
Logo houve quem reagisse, dizendo que o termo era muito “desagradável”. Alguns disseram que usar “agnóstico”, embora não sendo sinónimo, seria talvez menos agressivo.
Ao longo dos anos, criei a firme impressão de que os crentes das várias religiões exigem, para si e para aquilo em que acreditam, um maior respeito do que aquele que estão dispostos a conceder aos que o não são.
Ora eu, que sou ateu, requeiro para esta minha forma de estar na vida exatamente a mesma consideração que tenho por quem segue uma religião, seja ela qual for. Não aceito a menor superioridade moral de ninguém, só por que acredita em algo que a mim nada me diz.
Sou ateu, desde que me conheço. A minha mãe era católica, embora apenas escassamente praticante. O meu pai, embora viesse de uma família com forte pendor anti-clerical, era claramente um agnóstico, com um grande respeito pelas referências católicas: em toda a sua vida, que foi muito longa, sempre o vi tirar o chapéu quando passava em frente a uma igreja ou a um cemitério.
Os meus pais casaram pela igreja e sempre existiram, lá por casa, símbolos religiosos. Batizaram-me, ato a que, como verifico pelas fotografias, fui já a pé, com mais de dois anos. Ao que o meu pai dizia, entre a brincadeira e o sério, terá sido a água gélida do batismo, que o bom do padre Domingos (que batizou, casou e fez o funeral de muitos dos meus familiares) usou na igreja de São Martinho, que me provocou uma pneumonia, que me ia levando desta para melhor (não extraiam da frase de estilo nenhuma ilação religiosa, por favor). Foi esse o meu último, embora involuntário, cruzamento pessoal com as liturgias católicas.
Um dos grandes mistérios da minha vida foi sempre perceber a razão pela qual nunca fiz a primeira comunhão. Tenho uma ideia muito vaga de ter andado na “doutrina” de uma tal Dona Maria Vilar, uma senhora pequenina que oficiava num primeiro andar da Rua Direita, lá por Vila Real, onde recordo haver uns pequenos bancos, uns mochos, onde nos sentávamos e vagamente recordo que, em coro, repetíamos orações. Um contemporâneo a quem falei há tempos do assunto, contrariou-me: ali aprendia-se a tabuada, não as orações. Não seria “dois em um”?
Algo se terá passado - talvez uma nova maleita, porque tenho ideia de ser então muito enfermiço - que levou a que eu não fizesse parte do grupo dos miúdos da minha idade que, nesse ano, fizeram a primeira comunhão.
Provavelmente, tendo faltado nesse ano, na vez seguinte já não fui chamado em grupo ao exercício. Mas, sem dúvida, isso também demonstra alguma falta de empenhamento familiar na minha aculturação religiosa, o que, segundo conversas mais tarde ouvidas lá de casa, teria sido para não contrariar o “menino”, filho único e muito voluntarioso, que se terá mostrado refratário a cumprir tal dever. A assim ser, com assinalável êxito, pelos vistos.
De uma coisa tenho quase a certeza: terei sido a única criança dessa geração vilarrealense que não “fez” a primeira comunhão. Mas a religião era, para mim, uma coisa alheia? Em casa, lembro-me vagamente de ter aprendido a “Avé Maria” e o “Pai nosso”, mas nunca cheguei a decorar a “Salvé Rainha”. Ah! E também me diziam que nunca me soube benzer, trocando sempre a sinalética, numa dislexia que, pelos vistos, tinha uma anti-doutrina por detrás.
Contudo, a questão da existência de deus não deixou naturalmente de se me colocar, a mim e a outros da minha geração. Recordo-me de um “teste”, arriscado e que só nos dias de hoje tenho como divertido, que, bem miúdos, fizemos, uma noite: caminhámos, de braços abertos para nos equilibrar, sobre a antiga pérgola que existia no miradouro atrás do cemitério (na imagem).
Lá do alto, olhando o despenhadeiro que ia dar ao Cabril, insultámos deus, com palavras fortes, desafiando-o a matar-nos, se acaso existisse. Como não matou e nós nos safámos, logo ali ficou bem provada a sua inexistência. Pelo menos, o meu velho amigo Olívio fez parte comigo desse ousado desafio ao poder celestial, aliás bem sucedido, sob o olhar próximo e sombrio dos mortos do cemitério de D. Dinis.
(Nós, à época, não tínhamos lido, em “A Capital”, do Eça, a cena coimbrã em que o Damião “deu cinco minutos a Deus para que o fulminasse, e, passados os cinco minutos num grande silêncio do Céu, atirar desdenhosamente o cebolão de prata para a algibeira, dizendo com tédio: “está superabundantemente provado que não há nada lá no Céu”)
Não sei se os outros comparsas dessas minhas aventuras de infância acabaram ateus. Eu, que já o era, mantive-me como tal, até hoje.
Por isso, embora não faça o menor proselitismo do ateísmo, exijo sempre para esta minha forma de estar na vida um respeito idêntico àquele que vou tendo pelos meus amigos crentes e pelas liturgias que lhes são próximas, a algumas das quais os acompanho, quando a vida, ou a morte, a tal exige.
A segunda morte do caixeiro viajante
Quando dirigi cursos universitários de preparação para candidatos à carreira diplomática, um dos conselhos que sempre dava aos aspirantes à profissão era evitarem responder, se acaso lhes perguntassem por que razão queriam ser diplomatas, que “gostavam de viajar”. Essa tinha sido uma recomendação que me tinha sido dada antes do meu próprio exame de acesso, pela má impressão que a resposta causava, porque associada a uma vocação apenas lúdica.
O “glamour” das viagens, tal como a vida social dos cocktails e receções, está no imaginário que o comum dos cidadãos liga à diplomacia. Não nego que isso tem alguma razão de ser, porque, de facto, esses aspetos faziam parte da coreografia da profissão. Escrevi “faziam” porque, com o decurso dos anos, a liturgia social foi-se atenuando, muito do protocolo foi-se aligeirando e a diplomacia cada vez mais se aproximou de uma comum atividade técnica, marcada apenas pela dispersão dos seus atores pelo mundo, comum a outras profissões.
Durante as décadas que permaneci na carreira, as viagens foram uma constante em certos tempos da profissão. A entrada de Portugal para as instituições europeias fez disparar as deslocações entre as capitais e Bruxelas. Mas se, no início da profissão, o cosmopolitismo das viagens tinha um aspeto sedutor, devo confessar que, nos últimos tempos, era bastante mais sofrido do que apreciado. O peso da burocracia e da segurança nos aeroportos, as distâncias entre estes e os hotéis, tudo isso foi convertendo as viagens de trabalho numa tarefa cansativa e incómoda, que, para muita gente, era cada vez menos ansiada. Mas não escondo que, por vezes, dar uma saltada a uma cidade diferente daquela onde vivíamos refrescava os dias e espairecia o quotidiano.
A vídeo-conferência raramente fez parte do meu tempo diplomático. Era um método pouco utilizado, obrigava a uma logística algo pesada e sofria de deficiências técnicas muito limitativas. De facto, não fazia parte da nossa cultura de trabalho. Curiosamente, só a vim a encontrar com maior frequência, e, mesmo assim, sempre como solução alternativa de recurso à prática presencial, nas atividades no setor privado que hoje exerço.
Com os efeitos previsíveis da pandemia que se instalou, há duas realidades que, claramente, vieram para ficar: vai passar a haver menos viagens de trabalho e o recurso aos meios de comunicação à distância tenderá a generalizar-se. Estes últimos, contudo, têm rapidamente que dar um “salto técnico”, porque, nas últimas décadas, a sua evolução foi muito escassa. O Skype de hoje é muito parecido com o que tínhamos há quase 20 anos e todas as outras plataformas similares, algumas que só conhecemos nas últimas semanas, têm ainda fortes defeitos, que se tornam incómodos e cansativos. Verdade seja que, muito rapidamente, temos também de interiorizar regras comportamentais próprias da gestão desse tipo de reuniões.
Mas sejamos honestos: ter uma reunião presencial, com pessoas à volta de uma mesa, ou ter uma sessão por vídeo-conferência, está longe de ser a mesma coisa. Nada, repito, nada substitui o contacto pessoal, da mesma forma que o telefone nunca foi um meio alternativo ideal do cara-a-cara. Há conversas e cumplicidades que, em especial na vida internacional, no lidar com gente de culturas diferentes, só se ganham com o diálogo frente a frente, com o copo no bar ao final do dia, com um almoço calmo e descontraído.
Talvez o fim da banalização do “presentismo” acabe por valorizar mais as ocasiões em que as viagens e o contacto pessoal são, de facto, indispensáveis, fazendo-nos refletir duas vezes sobre se esta ou aquela deslocação não será, afinal, desnecessária.
Uma sensível melhoria técnica nos meios de trabalho à distância talvez nos torne assim mais conscientes de que esse mundo de “caixeiros viajantes” executivos, trazendo à trela aquelas caixas com rodas, com as medidas da IATA, que cruzávamos aos milhares, entre aviões, por corredores sem fim, gerando um peso ecológico insuportável, tem mesmo de ir acabando.
quinta-feira, maio 14, 2020
As Seveiros
Há tempos, passei por aquela casa, de traça modernista, a caminho do Pioledo, nas traseiras do Colégio de São José, lá por Vila Real, perto do Núcleo do (meu) Sporting, e lembrei-me delas, das Seveiros.
Quem eram as Seveiros? Não sei, nunca as vi, mas a minha memória de infância guardou para sempre esse plural, algo majestático e misterioso, que designava umas senhoras (imagino que fosse mais do que uma) que eram, à época, as "modistas" mais qualificadas da cidade. "Mandou fazer o vestido nas Seveiros", dizia-se em Vila Real, como selo de qualidade garantida.
(Vale a pena dizer que, para os homens, os alfaiates "a sério" eram, então, o Batalha e o Pontes. Este último, caprichava mesmo em anunciar os seus méritos nos altifalantes do Campo do Calvário, no intervalo do jogos, ou nas noites de passeio das famílias na Avenida, com duas quadras que ficaram na memória local: "Se quer um fato perfeito / de acabamento ideal / tê-lo-á, mas se for feito / no Pontes, Vila Real" ou "Se deseja no trajar / ser modelo em Trás-os-Montes / seus fatos mande talhar / pelas hábeis mãos do Pontes". Não sei quem foi o poeta, mas reconheçamos que era "inspirado", como então se dizia.)
Nesse tempo, nas cidades, havia as "costureiras" e havia as "modistas". Lembro-me que as primeiras iam "lá a casa". Todos os anos ficavam um dia ou dois, a subir ou descer baínhas, a fazer pequenos arranjos. Já às modistas eram as senhoras quem se deslocava, levando às vezes na mão um modelo tirado da "Modas & Bordados", outras vezes com uma página rasgada da "Flama" ou de alguma revista brasileira.
De uma cena, que, sei lá porquê, ligo sempre ao final das tardes de sextas-feiras, me recordo bastante bem: as Seveiros enviavam a minha casa o produto do seu trabalho pelas mãos de uma miúda, com um tabuleiro coberto com um pano de linho, tendo no fundo uma nota manuscrita com os seus honorários, sem o IVA que o dr. Cadilhe inventou e que o dr. Centeno não dispensa. Lembro-me da miúda porquê? Porque tinha mais ou menos a minha idade e uns olhos que perdi de vista mas não de memória.
Voltando ao princípio: “as Seveiros” é um grande nome! Posso estar enganado, mas estou convicto de que, se o Eça tivesse "apanhado" o nome das Seveiros, tê-lo-ia usado num qualquer enredo de província.
quarta-feira, maio 13, 2020
Centeno
Mário Centeno está a ser vítima da conjugação negativa de vários fatores, o principal dos quais é a falta de peso político próprio. Este é um tempo muito injusto para alguém que foi um excelente ministro das Finanças e a quem o PS muito deve.
Agora, até pode chover...
Quando Rui Rio foi reeleito no partido, escrevi aqui que ele teria feito bem se tivesse anunciado logo o apoio à recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. Não o fez, perdeu o “timing” e agora, quando (inevitavelmente) vier a fazê-lo, vai ter de ir a reboque.
75 anos
O Centro Nacional de Cultura (CNC), nos dias de hoje presidido pelo Dr. Guilherme de Oliveira Martins, que tem décadas de dedicação àquela casa, é uma instituição cultural de elevado mérito que, com descrição mais notável eficácia, tem levado à prática um trabalho muito importante pela cultura portuguesa. Comemora agora 75 anos de existência.
Foi-me pedido que, para publicação no seu site (cuja consulta recomendo aqui), desse testemunho de como “cheguei” ao CNC, o que aconteceu precisamente há 50 anos.
Aqui fica a breve mensagem que enviei:
Aqui fica a breve mensagem que enviei:
“ “Tens a certeza que é ali?”, foi a pergunta que fiz quando um amigo me convidou para ir ouvir Salgado Zenha ao “Centro Nacional de Cultura”. “Na rua da Pide?”. Assim era. Na Lisboa do boca-a-boca que então prosperava, assente nos cafés e nas livrarias, nesse início dos anos 70, começou a certa altura a constar que uma estrutura de raiz monárquica, “tomada” por uma onda democrática, estava a organizar debates políticos, procurando testar as margens da legalidade, já após a frustrada aventura eleitoral de 1969. Ao mesmo tempo, havia por lá uns cursos ao final da tarde, da Semiologia ao Marxismo (é verdade!) e outros temas interessantes. As salas, a certa altura, eram pequenas para o interesse que tudo aquilo já despertava, a muitos de nós e a uns cavalheiros que, à légua, se notava que estavam ali vindos da vizinhança... Não gosto de falar em “bons tempos”, porque o não foram, de todo! Mas que havia algo de divertido, de um saudável entusiasmo cívico, em toda aquela agitação no CNC, lá isso havia! Foi assim que eu lá cheguei, há meio século.”
Elogio
Aqui fica a homenagem sincera de um ateu à igreja católica, pela contenção e bom senso usada na cerimónia de Fátima.
Tenho um amigo preocupado
Em tempos de pandemia, tenho um amigo que, sem falha, diariamente me telefona, às vezes mais do que uma vez. Acha estranho, aliás, que eu não esteja sempre do “outro lado” da linha, como se o confinamento fosse uma espécie de “Big Brother” televisivo.
Nas conversas, transmite-me preocupações sobre questões geopolíticas magnas, das divergências financeiras europeias ao conflito entre os EUA e a China ou à crise das viagens aéreas. No que cabe à pátria, cuja política sempre nos dividiu sem acrimónia, tem teorias sobre a partilha de poder, que vogam em torno do Centeno, do Costa e do Marcelo, ouvindo-me sempre replicar-lhe com ironias. Deve achar que eu “bebo do fino”, mas que não me abro, por mera tática.
Não obstante viver com o mundo “às costas”, sob o peso insuportável dessas angústias acumuladas, ele parece dormir bem. E, ainda assim, tem tempo para ler tudo, para o “zapping” dos noticiários, decantando um saldo sempre tremendista.
Não imaginam as coisas que ele sabe sobre o vírus, e a sua propagação, e o seu combate, e as suas curvas, e o respetivo achatamento, que deve ir desencantar a fontes raríssimas, para além de Paulo Portas, que tem como seu oráculo regular.
Atura, com bonomia, o meu alheamento sobre tudo isso, embora o sinta incrédulo quando, perante o seu explanar das perfídias chinesas na pandemia, lhe digo, com a maior sinceridade, que não tenho a menor opinião.
Acredita pouco na diretora-geral de Saúde e, ainda menos, na ministra da dita, tendo dificuldade em perceber quando asseguro que, pelo contrário, sigo cegamente o que delas ouço. Aliás, pensasse eu o oposto do que dizem as senhoras, o que é que, de importante, mudaria na minha vida? Passaria a preocupar-me, como acontece com ele. Ora eu tenho como lema firme de vida fugir a sete pés das preocupações.
Esse meu amigo também se faz eco de teorias conspirativas, de Bilderberg às máscaras e aos ventiladores, que, como é da natureza das ditas teorias, ajudam a explicar tudo, mesmo que não saibamos exatamente o quê. É que ele compra o único jornal diário que me teriam de pagar para ler, o que me habilita com o contacto indireto com o mundo dos títulos e dos escândalos, sem correr o risco de ser diretamente infetado.
Uma coisa esse meu amigo não deve perceber: como é possível eu continuar a ter temas para escrever uma meia dúzia de artigos por mês, bem como alimentar diariamente o meu blogue, sem a intensidade de informação que ele colhe. Talvez não devesse revelar o segredo: hoje, por exemplo, falando sobre ele...
terça-feira, maio 12, 2020
Definição
Li, há pouco, uma bela definição. Há pessoas para quem uma notícia é verdadeira, nunca passando à categoria de “fake news”, se diz precisamente o que essas pessoas pensam...
Populismo
Para a demagogia do Chega, o assassinato da criança é sopa no mel do populismo. Se o assassino tivesse sido um cigano, então é que era ouro sobre azul...
segunda-feira, maio 11, 2020
O grande lóbi
A verdadeira força que o futebol tem neste país mede-se pelo modo como consegue “forçar”, em tempos sanitários bem duvidosos, o recomeço do campeonato.
Não houve um único partido a reclamar, porque todos estão infiltrados de lobistas dos vários clubes
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