sábado, novembro 30, 2019

Wilson


A Netflix passou um novo ciclo da serie “The Crown”, de que acabo de ver, há horas, o último episódio. Nele se mostra o momento em que Harold Wison, em 1976, deixa o cargo de primeiro-ministro, pelo facto de ter tido os primeiros sinais da doença de Alzheimer. 

Num outro episódio, foi revelada a paranóia conservadora, em torno da primeira eleição do trabalhista Wilson, pelo facto de sobre ele ter recaído a suspeição de que fosse um espião soviético, rumor a que Isabel II teria sido, por algum tempo, muito sensível. Mais tarde, viria a ficar mais do que confirmado de que tudo não passava de um sórdido boato. Há vária e muito interessante bibliografia sobre isso, que se liga a esse curioso mundo de sombras que foi a espionagem no Reino Unido no pós-guerra.

Harold Wilson foi uma personalidade muito interessante da vida política britânica, com dois mandatos em Downing Street que não deixaram de ter episódios controversos, por coincidirem com tempos muito turbulentos da vida política do Reino Unido. No entanto, e para surpresa de quase toda a gente, Wilson e a rainha acabariam por vir a ter um excelente e inesperado bom relacionamento pessoal.

Quando, nos anos 90, fui colocado na nossa embaixada em Londres, Wilson tinha já desaparecido há muito da vida pública. A sua última imagem pública que conhecia era uma fotografia de Isabel II com os seus antigos primeiros-ministros ainda vivos (que agora verifico ser de 1985), no tempo de Margareth Thatcher, onde, entre outros, ele e um muito frágil Harold McMillan figuram.

Na receção anual que Isabel II nesse tempo oferecia em Buckingham ao corpo diplomático (não faço ideia se essa prática se mantém), depois de uma breve e muito formal conversa da soberana com representantes de cada missão diplomática (cerimónia que, no entanto, demorava um tempo interminável, dada o elevado número de missões), e a anteceder um baile (é verdade, havia um baile!) que se prolongava pela noite, era servido um buffet. 

Estive presente em quatro dessas receções, que nos permitiam “passarinhar” por alguns salões do palácio, satisfazendo a nossa curiosidade sobre aquele espaço e a imensidão de quadros que enchem as paredes.

Num desses anos, enfarpelado com a minha casaca e as poucas condecorações que à época tinha, por altura do buffet, fui levantar o meu prato e aproximei-me da mesa das vitualhas (que recordo nunca terem sido excessivamente apelativas). A certo ponto, na fila para a mesa, senti um prato firmar-se nas minhas costas, como se alguém quisesse apressar-me. Imagino que com cara de poucos amigos, voltei-me e dei de frente com um velho e trôpego cavalheiro, que alguém conduzia pelo braço e que, claramente, se desequilibrara sobre mim. 

Era Harold Wilson! Tremia um pouco das mãos, olhava em frente com ar ausente e, muito estranhamente, ninguém cuidava em recolher a comida por ele. Afastei-me de imediato, deixei-o naturalmente avançar, ficando com a sensação de que estava extremamente débil. Devo dizer que até aos dias de hoje me marcou vivamente aquele meu “encontro” com alguém que fazia parte da grande história britânica e que, à época, eu nem sequer tinha ideia de que ainda fosse vivo. Wilson viria a morrer em 1995, apenas com 81 anos.

sexta-feira, novembro 29, 2019

Três dicas

Quando por aqui coloquei, há semanas, algumas despretensiosas notas sobre restaurantes da minha estimação, recebi algumas sugestões que entendi dever seguir. Tal como o Augusto Gil diz na “Balada da Neve”, fui ver...


Fui ver, por sugestão de Catarina Portas, o novo “Pap’Açorda”, no andar cimeiro do Mercado da Ribeira, em Lisboa. Como não acho desamasiada graça ao “conceito” do Mercado, porque a minha ideia de restaurantes não é bem aquilo (sou um conservador, eu sei!), ainda não tinha visitado o sucessor do “Pap’Açorda” do Bairro Alto. Erro meu! O novo restaurante é um belo espaço, com um serviço muito profissional, uma lista bem construída e uma carta de vinhos acertada. As mesas do corredor são um pouco “solitárias” e frias, mas é a geografia do espaço que a tal obriga. Tive pouca sorte no prato que escolhi, por razões que a pessoa que me serviu considerou atendíveis. Mas tudo o resto estava excelente e, decididamente, vou voltar. Obrigado pela dica, Catarina Portas.


Fiquei intrigado com uma sugestão, na Amadora (!), dada por Pedro Pestana Bastos: o “Colunas”. Mas lá fui. À primeira vista, o espaço não impressiona, longe disso. É aquele modelo um pouco “standard” de restaurante de bairro, com madeiras e mesas incaraterísticas. Depois, olhando a lista e a carta de vinhos, percebe-se logo que estamos num mundo bastante sério de restauração competente, com uma lista de caça soberba. O serviço é de uma atenção cuidada, com a filha dos proprietários a dar-nos uma qualificada “lição” de enologia, com um profissionalismo raro. Não saí nada arrependido dessa incursão nessa Amadora bem “profissional”, embora, outra vez por azar meu, a minha opção de prato não tivesse sido a melhor. Em tudo quanto as outras pessoas pediram, foi magnífico. Vou regressar em breve ao “Colunas”.


Finalmente, há dias um desvio na A6 para ir a Évora experimentar o “Momentos“, que Miguel Bastos Araújo me tinha sugerido. Bela escolha! Uma “ardoise” imaginativa com boas sugestões, de que experimentámos o suficiente para percebermos que há por ali mão de mestre, que acabámos por conhecer pessoalmente, pessoa com experiência internacional que, não apenas é relevante para a mão culinária que tudo dirige, mas que igualmente introduz um cosmopolitismo no ambiente, que é um verdadeiro valor acrescentado para a terceira cidade gastronómica do país. Tirando o facto da temperatura dos pratos principais um pouco estar abaixo do desejável (a noite estava fria, reconheça-se), tudo o resto pareceu à altura da recomendação recebida.

Três belas dicas! Muito obrigado!

quinta-feira, novembro 28, 2019

A fraude dos “melhores”

Não sei a maioria das pessoas já se deu conta de que, na verdade, o surgimento constante, na internet, do nome de países ou de cidades ou de praias ou de muitas outras e variadas coisas, ditas ”as dez melhores” ou algo parecido, elaboradas sem a menor base de suporte científico ou estatístico, não passa de uma imensa fraude, em que a nossa comunicação social venalmente participa, apenas para obter ”clickbaits“, isto é, para suscitar a abertura de links como forma de aumentar artificialmente o número de visitas a esses “sites”, que possam depois ser mostrados aos anunciantes.

quarta-feira, novembro 27, 2019

Confiança na Europa


“Só mais Europa pode salvar as coisas!”. A exclamação que, há horas, ouvi a um amigo, reportava-se ao modo de ultrapassar o imenso magma de dúvidas que hoje se projeta nas sociedades europeias, cujos cidadãos vivem sob diferentes mas cumulativas agendas de medos e de incertezas. 

Nessa perspetiva, que é agravada por um cenário internacional turbulento, em cuja direção a União Europeia dá a imagem de ter hoje pouco a dizer, unicamente uma solução coletiva, inovadora e agregadora, poderá salvar o continente de se converter num “arquipélago” de projetos de egoísmo identitário. 

Ao ouvir o meu amigo, fiquei preocupado comigo mesmo: é que, há uns anos, eu teria reiterado de imediato, e com plena convicção, aquela mesma ideia. Nos dias de correm, embora concordando em que essa seria a solução ideal, começo a interrogar-me sobre se ainda vamos a tempo, através de mais integração, de “segurar as pontas” de um projeto cuja robustez vive sob fortes tensões que, dia após dia, o descredibilizam aos olhos dos cidadãos. 

É que, para muitos, a Europa parece ter deixado de ser a solução de um melhor futuro para passar a ser o bode expiatório de tudo o que corre mal no presente. Por isso, conseguir um consenso mobilizador, no seio de uma diversidade de vontades que chegam a ser contraditórias, é um milagre que não parece fácil de acontecer.

A conversa com aquele amigo passava-se em Varsóvia, onde estou em trabalho por estes dias.

A Polónia, que historicamente olha de viés a Alemanha e não confia de todo na Rússia, investiu no projeto da Europa comunitária toda a esperança para um destino que, além de ajudar ao seu desenvolvimento, apagasse, de vez, os demónios da guerra que tantas vezes a destroçou. Moscovo, já não sendo a capital da União Soviética, continua a ser a sede de muitos receios, que uma liderança errática do outro lado do Atlântico não ajuda a diluir. É que a NATO, para quem vive por estas bandas da Europa, é apenas um heterónimo dos EUA. E, sem eles, nenhuma segurança europeia tem o menor significado ou pode ser levada a sério.

Mais do que a grande maioria do seus parceiros do grande alargamento, a Polónia é hoje, curiosamente, um país onde a confiança na União Europeia se mantém bastante forte na opinião pública. E isto não deixa de ser interessante, em especial se se constatar que o percurso europeu da Polónia não tem sido, nos últimos anos, isento de escolhos. Talvez porque tenham percebido que a Europa ainda continua a ser, apesar de tudo, o outro nome da sua liberdade.

terça-feira, novembro 26, 2019

Oportunidade

Na passada semana, na minha coluna no “Jornal de Notícias”, falei da deputada do Livre e daquilo que pensava ser nefasto numa parte da sua agenda política. Recebi uma (já esperada) revoada de críticas, sendo mesmo acusado de racismo e de anti-feminismo, em várias áreas das redes sociais. Aparentemente, e não obstante eu ter defendido a senhora, aquando do surgimento da bandeira da Guiné-Bissau na noite da sua eleição, o facto de se tratar de uma mulher negra e de esquerda deveria ter-me inibido de criticar as suas posições. E houve mesmo quem se interrogasse sobre a oportunidade daquele meu artigo. Neste último caso, mas só neste, reconheço que tinham plena razão: eu devia ter esperado uma semana mais para ter motivos para escrever sobre ela...

segunda-feira, novembro 25, 2019

Onde?


Na alvorada de hoje, acordei estremunhado, com o toque do despertador. Quis abrir a luz e tateei sem sucesso, durante quase um minuto, na mesa de cabeceira. Por fim, lá consegui encontrar o interruptor. E calar o maldito relógio, que eu tinha prudentemente deixado à distância e que é daqueles que vão subindo de tom à medida que nos vamos atrasando em desligá-lo. É que, numa semana, em quatro atividades completamente diversas, dormi em quatro quartos diferentes de hotel, em outras tantas cidades. E se a “geografia” de todas as camas pode ser parecida, o sítio exato onde se acende e apaga a luz é, em cada um deles, um renovado enigma, que o estado de sonolência ao despertar não ajuda a decifrar.

Há uns anos, em tarefas em nome da pátria, a minha vida era uma romaria constante de hotéis. Cheguei a andar semanas fora de Portugal, a mudar de quarto quase todos os dias. Ficava normalmente em hotéis, muito raras vezes no quarto de hóspedes das nossas embaixadas. O cansaço acumulado, nesse tempo, tornou-se de tal forma endémico que, chegado aos quartos, caía “como uma pedra” na cama, apenas com o despertador a ajudar-me (agora uso sempre dois, para evitar que um desligar distraído de um deles me arruine a agenda) ao início do dia seguinte.

Um dia, vai para mais de vinte anos, despertei num desses lugares, lá consegui acender a luz mas não reconheci minimamente o local onde estava. Sentia-me excecionalmente arrasado e tinha a certeza de ter dormido muito pouco tempo. Olhei em volta: não era um quarto de hotel, era de uma casa. Devia ser de uma embaixada. Mas, por mais que puxasse pela cabeça, não conseguia lembrar-me de rigorosamente mais nada. Tinha a vaga ideia de ter havido um jantar na véspera, com bastante gente, mas que diabo de cidade seria aquela? Concentrei-me, fechei os olhos, a tentar situar-me, mas dei conta do risco que corria: se ficasse na cama mais um minuto que fosse, nesse estado semi-acordado de reflexão, era bem capaz de voltar a adormecer. 

Levantei-me e fui a uma janela. Chovia. Era uma rua comum, podia ser nórdica ou báltica, tinha também aquele cinzento indiferenciado das cidades do centro da Europa. Pensei, armado em esperto: vou ver a minha agenda! Mas logo concluí: de que é que me ia valer a agenda, se eu fazia lá ideia sequer do dia em que estava? Abri então a porta do quarto e olhei o corredor: o embaixador, um colega e velho amigo, passava ao fundo. “Olá, bom dia!”. Pronto! Lá me “encontrei”!

Não, hoje de manhã não aconteceu nada disso, sabia bem que estava em Varsóvia. Só não sabia onde era a luz...

25 de novembro

Compreendo quem saúda, no dia 25 de novembro, a criação de condições de estabilidade político-militar para Portugal vir a ter um regime democrático. 

Não tenho o menor respeito político por quem usa o 25 de novembro para disfarçar a derrota histórica que teve no dia 25 de abril.

25 de Abril, sempre!


domingo, novembro 24, 2019

Flores


Sou do tempo em que a Rua das Flores, no Porto, era um segredo discreto, partilhado por alguns sabedores. Tinha, claro, as ourivesarias, os alfarrábios do “Chaminé da Mota”, uma igreja belíssima mas escondida, a “Heróica”, uma papelaria de um casal idoso onde eu, por décadas, encomendei uns cadernos de bolso de capa preta que a “Moleskine” acabaria por “copiar”, e pouco mais.

Por ali perto, ia-se, ao final de tarde, à “Adega do Olho”, que costumava ter um presunto com que só a “Badalhoca”, que na altura operava apenas em Ramalde, era capaz de rivalizar.

Um dia, no extremo da rua oposto à estação de São Bento, ao Largo de São Domingos deu-lhe para entrar na moda. Três mesas recomendavam-se por lá: o LSD (nome “tirado” de Largo de São Domingos, nada de confusões!) para petiscos, o Traça (que, para meu gosto, já teve dias mais gloriosos) e o DOP, do agora “bi-estrelado” Rui Paula, casa sobre a qual, há dez anos (quando eu assinava “Augusto Maria de Saa” em crónicas gastronómicas na “Sábado”), escrevi um texto que ainda hoje é exatamente o que penso. Ah! E havia a “Araújo e Sobrinho”, imbatível em papéis, pincéis e lápis, hoje convertida em albergue de luxo.

Nos dias de hoje, a rua das Flores está transformada num “must” do Porto, com a turistada a fotografar tudo, com paletes de espanhóis a comerem coisas inenarráveis na parafernália de alegados restaurantes e “portwine” bares que enxameiam a artéria, onde proliferam ainda lojas com “recuerdos” turísticos de discutível qualidade e de indiscutível desinteresse.

Fui hoje “almoçar” (uso as aspas de propósito, porque se aquilo era almoço, vou ali e já venho!) a uma antiga bela ourivesaria, que se serve uma espécie de comida, num espaço lindíssimo. Hoje, fui lá três vezes: a primeira, a única e a última...

Depois, acabei a beber um café e um Jameson num fantástico hotel que o Porto Bay aqui instalou, para honra da qualidade da sua cadeia hoteleira e para benefício desta que é a mais bonita rua do Porto. Deixo aqui a imagem, para lhes abrir o apetite.

Nostalgia operária


Pertenço a uma outra escola de memória: um líder operário, no “bom tempo”, tinha o aspeto que hoje tem Philippe Martinez, secretário-geral da CGT francesa. 

Isto sim, é que é uma cara de agitador sindical como deve ser...

Livre?

Na nova polémica que envolve a deputada do Livre no parlamento apenas tenho uma dúvida (mas que é imensa): então a representante de um partido como o Livre hesita, sequer um instante, sobre qual deverá ser o sentido do seu voto numa questão que é tão óbvia para qualquer partido de esquerda?

Velha e relha

Gosto muito da definição que por aí anda de uma nova (embora velha e relha nas ideias) força política: o Chega dos queques.

O sorriso da política


Há dias, vi por aí surgir a crítica mais patética à nova ministra do Trabalho, Ana Mendes Godinho: é acusada de sorrir! Para um qualquer comentador, o sorriso da governante era natural quando ela se ocupava do radiante turismo, mas é agora inadequado à sóbria gravidade do tema trabalho.

Há um país de sobrolho carregado que teima em confundir um “carão” com seriedade. Ora o sorriso, na cara de uma mulher, torna a política mais bonita.

sábado, novembro 23, 2019

Muito obrigado, Jorge Jesus


O sucesso hoje obtido por Jorge Jesus na Libertadores, a somar ao que inevitavelmente aí virá no Brasileirão, representa uma grande vitória na carreira de um qualificado técnico de futebol português, agora por terras brasileiras. Jorge Jesus garantiu mesmo um lugar na história do futebol daquele país.

Porém, para quem conhece “o Portugal” que existe no Brasil, o “nosso” espaço naquela grande nação, este êxito de um treinador português representa muito mais do que isso. Sei que não preciso de dizer mais nada, deixando aqui apenas um imenso e solidário abraço aos muitos amigos portugueses e luso-descendentes, que entendem como ninguém o que quero significar com este meu muito sincero agradecimento a Jorge Jesus!

Madalena Fischer


As primeiras mulheres admitidas na carreira diplomática portuguesa entraram no Ministério dos Negócios Estrangeiros em agosto de 1975, no mesmo concurso público em que eu próprio ingressei. Tinha sido o ministro dos Negócios Estrangeiros Mário Soares quem, meses antes, havia feito alterar a retrógrada lei da ditadura que determinava que apenas os homens pudessem ser diplomatas.

Dinah Azevedo Neves foi a mais bem classificada mulher de quantos ingressaram naquele concurso, pelo que pode ser considerada a primeira mulher na história da carreira diplomática portuguesa.

Maria do Carmo Allegro Magalhães viria a ser a primeira funcionária diplomática a assumir funções como chefe de uma missão diplomática, com credenciais de embaixadora, na embaixada portuguesa na Namíbia. Depois dela, muitas outras mulheres viriam a dirigir embaixadas e missões multilaterais.

Anos mais tarde, a embaixadora Ana Martinho seria a primeira mulher a desempenhar funções de secretária-geral nas Necessidades, o mais elevado lugar da hierarquia formal do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Nos dias de hoje, Ana Paula Zacarias é secretária de Estado dos Assuntos Europeus, depois de, há já bastantes anos, a diplomata Manuela Franco ter tido funções similares num outro governo.

Agora, foi anunciado que Madalena Carvalho Fischer, atual embaixadora no Cairo, irá assumir o cargo mais importante na direção político-diplomática das Necessidades, como diretora-geral de Política Externa. Nunca uma mulher tinha, até hoje, ascendido a essas funções.

A história da presença feminina nos quadros diplomáticos portugueses, nas últimas décadas, reflete um percurso de inegável sucesso, com o surgimento de funcionárias altamente qualificadas a ocuparem lugares destacados, quer em Portugal, quer na rede diplomática e consular exterior, muito contribuindo para o prestígio da imagem de Portugal no mundo.

A nomeação de Madalena Fischer, uma qualificada profissional, com um perfil muito consensual na carreira diplomática portuguesa, é assim uma excelente notícia.

Muitos parabéns, Madalena! Os faraós vão sentir saudades suas...

sexta-feira, novembro 22, 2019

A “Piauí” na “Sarita”

Não sabe o que é a “Piauí”? É pena! É, de longe, a melhor revista brasileira da atualidade.

Não sabe o que é a “Sarita”? É pena! É o “lugar” onde, em Portalegre, ali perto do Rossio, se compra a imprensa que interessa. A prova provada é que, há minutos, encontrei por lá, à venda, a “Piauí”. Não comprei, apenas porque sou assinante e generoso: deixei o exemplar para quem quiser adquiri-lo.

quinta-feira, novembro 21, 2019


Estrelas


Não sou muito dado ao cultivo regular dos restaurantes de cozinha contemporânea, como quem faz o favor de me ler já se deve ter dado conta. A minha “praia” mais corrente são outras “freguesias” culinárias.

Mas reconheço, sem o menor esforço, que o refinamento da arte gastronómica atinge, em alguns desses locais de “fine dining”, formas superlativas de qualidade sensorial, superiores requintes de paladar, pela junção criativa de sabores, que correspondem a anos de trabalho e pesquisa, a uma aprendizagem feita com quem apurou a sensibilidade a níveis elevados de cultura culinária. Fico, muitas vezes, deslumbrado com aquilo que me chega ao prato, admirando imenso o trabalho desses artífices do gosto. Conheço muitos, admiro bastantes.

Rejubilo sempre, por essa razão, com a atribuição de mais estrelas Michelin aos chefes portugueses que se dedicam, dia e noite, a um esforço de constante aperfeiçoamento, apurando a oferta, qualificando o serviço de mesa, ajudando a que Portugal se torne num destino de quantos apreciam essa gastronomia requintada, a qual, naturalmente, tem de ser paga a um preço que se liga à qualidade dos produtos escolhidos, ao excecional tempo de confeção, ao conjunto da “produção” essencial para aquilo que apuradamente nos chega à mesa. O país e o seu turismo devem-lhes muito e, mais do que isso, devem agradecer-lhes o que têm feito pela nossa imagem de mesas acolhedoras.

Dito isto, vou-lhes contar um segredo. Às vezes, em alguns desses restaurantes em Portugal, fecho os olhos e pergunto a mim mesmo: se eu não soubesse onde estou, conseguiria perceber, pelo que estou a comer, onde de facto estou?

Irrita-me imenso a “oferta” (oferta é uma ironia, porque se paga uma “conta calada”) de alguns chefes (eu nunca escrevo “chefs”) de cozinha que por aí andam, portugueses ou não, que parece que, mais do que tudo, cuidam em “disfarçar” a geografia onde operam, “fingindo” que abancamos no Noma ou no Ambroisie. 

Ora eu, quando quiser (e se tiver dinheiro e pachorra), vou ao Noma ou ao Ambroisie. Mas o que eu quero, aqui e agora, é sentir que estou a comer, em Portugal, coisas com superior qualidade, com produtos que sei serem nossos, tributários da “memória” culinária portuguesa, tratada esta, embora de forma sofisticada - com espumas, reduções ou outras artes - por quem profundamente respeita a nossa história gastronómica.

É por todo este conjunto cumulativo de razões que ontem, ao ver anunciado que Rui Paula, um chefe cozinheiro com uma imensa genuinidade portuguesa - que conheço desde o Cepa Torta ao DOC, do DOP a Vidago, do Tivoli à Casa de Chá da Boa Nova - obteve, pelo seu dedicado, determinado e competente trabalho neste seu último espaço, a sua segunda estrela Michelin. O meu amigo José Quitério, às vezes, tem de concordar que os pneus nem sempre se enganam.

Um forte abraço, meu caro Rui Paula!

quarta-feira, novembro 20, 2019

O mal de Joacine


Ninguém suspeitaria, há uns meses, que a eleição de Joacine Katar Moreira para o parlamento português pudesse dar origem a uma controvérsia como aquela que entretanto se gerou em seu torno. Acho, aliás, que a questão da gaguez da deputada foi, neste contexto, um mero fator de diversão para algo mais essencial.

Joacine Katar Moreira é negra, feminista e, com frequência, tem deixado claro que pretende vir a utilizar aquela tribuna para abordar, numa perspetiva radical, algumas temáticas menos consensuais, tal como para fazer uma leitura, muito marcada pela sua experiência pessoal, sobre o fenómeno da exclusão rácica em Portugal, com as decorrências que daí advêm para a revisitação do colonialismo português e das suas sequelas contemporâneas. Recordo, a propósito, como o surgimento de uma bandeira da Guiné-Bissau, na noite da sua eleição, logo provocou uma patética histeria nacionalista e xenófoba, atitude contra a qual, aliás, me insurgi publicamente.

Mas, afinal, perguntar-se-á o leitor, a que propósito vem o título deste artigo? Qual é o “mal” de Joacine? Vou ser muito claro: temo que o radicalismo recorrente do discurso da deputada, a sistemática colagem do sensível tema racial a uma postura confrontacional e divisiva, que por muita gente, mesmo aquela que se considera moderada, pode vir a ser lida como estimuladora de um anti-portuguesismo no seio das comunidades imigradas de outras etnias, acabe por ser um adubo fácil para a doença que é o nacionalismo primário, cuja face política ela encontrará do outro lado do hemiciclo onde se senta. 

Ao olhar as redes sociais e alguma imprensa, noto que a postura de Joacine Katar Moreira deu azo à emergência de algum racismo alarve que vivia escondido em certas catacumbas da nossa sociedade, até aqui travado na sua expressão pública por um mínimo de vergonha, o que já era um considerável ganho civilizacional. Vejo, contudo, que alguns iluminados entendem que o “outing” desse primarismo miserável acaba, no fundo, por ser clarificador e separador das águas. A mim, que não me apetece viver num Portugal transformado num “ringue” de tensões sociais e de ódios, de “vendettas” históricas e de ajustes de contas intelectuais com o passado, isso parece-me péssimo. 

Joacine Katar Moreira, hoje deputada com toda a legitimidade, tem, é claro, o direito de pensar de forma diferente. Espero, com sinceridade, que, a prazo, não venha a arrepender-se por poder vir a ser a responsável por ter soltado por aí alguns perigosos demónios.

Seguro segura-se?

É interessante constatar como a crise que envolve dois ministros funciona como um teste ao presidente da República, para avaliar o grau de c...