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quarta-feira, novembro 15, 2023

Refugiados


Foi numa noite de finais de 1980, na residência da nossa embaixada em Oslo, na simpática casa de que Portugal é proprietário na capital norueguesa, na Drammensveien. Um importante armador norueguês era um dos convidados. O nosso embaixador, António Cabrita Matias, fazia as honras da casa.

A certo ponto da conversa, o "shipowner" norueguês referiu que, em agosto de 1975, quando a guerra civil eclodiu em Dili, tinha sido um dos seus barcos que transportou mais de mil refugiados timorenses para Darwin, na Austrália.

Vi Cabrita Matias entusiasmar-se com o relato do armador. A razão era óbvia: ao tempo, ele era o embaixador português na Austrália. "Eu estava em Darwin, à chegada do barco com os refugiados", referiu o embaixador, que também se recordava bem da contratação do navio norueguês. 

Elaborou então sobre esse tempo difícil e traumático do fim do império lusitano, em que Lisboa vivia em tempo revolucionário, num ambiente que, segundo ele, tinha acabado por criar o caldo de cultura de descaso que dera alento à invasão indonésia. E lembrou que a administração portuguesa em Macau e as representações diplomática e consular portuguesas na Austrália foram, à época, a guarda avançada de Portugal na região.

O jantar terminou e, como era de simpática regra com aquele embaixador, ele e eu ficámos um pouco mais à conversa, depois da saída dos convidados. Cabrita Matias era adepto de um champanhe para fechar a noite, eu optava quase sempre por um whisky, nesse tempo em que o meu fígado me dava boas noites. 

Contou-me, então, um episódio.

O dia já ia longo, depois da chegada dos refugiados. Com a ajuda do governo australiano e, creio, de algumas estruturas do mundo multilateral e não-governamental, os timorenses tinham sido alojados, na medida do que era possível e nas condições que a emergência justificava.

Cabrita Matias estivera por algum tempo no porto de Darwin a observar as operações. Tendo regressado ao seu hotel, a certo passo, teve um pressentimento: "E se ficou alguém para trás, no porto?" E decidiu passar por lá.

Foi então que a viu: uma senhora timorense estava sentada junto a uma mala. Sozinha. O embaixador aproximou-se dela e inquiriu o que se tinha passado. Ela referiu que, por uma confusão qualquer, se tinha afastado do autocarro que levara os últimos dos seus compatriotas e ficara para trás.

Cabrita Matias, que não era muito dado a fazer transparecer emoções, disse-me que ficou comovido quando a senhora notou, com uma imensa calma e um sentido do destino: "Eu sabia que alguém viria buscar-me". 

O embaixador, que era um homem religioso, ligara o pressentimento à situação e extraía dali conclusões de vontades celestiais. Mas logo acrescentou, para mim, num desânimo sorridente: "Mas eu sei que você não acredita nestas coisas, não é?". Era e é.

Há dias, na Gare Marítima da Rocha do Conde d'Óbidos, foi inaugurado um memorial ao fotógrafo francês Roger Kahan, que registou fabulosas imagens dos refugiados estrangeiros, muitos deles judeus, que chegaram a Lisboa no início da Segunda Guerra mundial, procurando depois refúgio na América.

A fotografia que está na capa do livro em que José Ferreira Fernandes relata a saga de Kahan é a que a imagem mostra, representando uma refugiada, sentada com uma mala, junto do marco do correio que ainda hoje existe no local.

Na primeira vez que olhei aquela fotografia, veio-me à memória a história que Cabrita Matias me havia contado, há cerca de 43 anos. E creio que não preciso de explicar porquê. As circunstâncias seriam com certeza muito diferentes, mas, na sua tragédia comum, não há nada mais parecido com um refugiado do que outro refugiado. E este é o tempo certo para falar deles.

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