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sábado, novembro 25, 2023

25 de novembro

Há precisamente 48 anos, um grupo de militares, defensor de uma leitura extremada da Revolução de Abril, tentou organizar uma operação para controlo do poder político-militar no país. Contavam, para tal, com a cumplicidade de algumas forças políticas marginais e altamente minoritárias, embora muito vocais na rua política de então. Mas só com elas.

O caminho para esta ação, no formato em que veio a ter lugar, bem como em outros desenhos operacionais que também eram presumidos como possíveis, estava, desde há algum tempo, a ser monitorizado pelos setores que, dentro do Movimento das Forças Armadas, alimentavam uma orientação política moderada e que era consonante com o modelo político-social que a Constituição de 1976 acabou por consagrar. 

Este último setor já era, à época, claramente dominante no seio da máquina militar. Foi assim que, com relativa facilidade e rapidez, no dia 25 de novembro de 1975, foi posto cobro à desastrada tentativa sediciosa que envolveu escassíssimas unidades militares. 

Ao contrário do mito então posto a correr, e sempre alimentado, desde então, por alguma direita, Portugal estava já então muito longe de correr o risco de "cair no comunismo".

Nesses meses finais de 1975, o país político-militar vivia distante do equilíbrio de forças que era patente ao tempo da manifestação da Fonte Luminosa. Foi a coragem política de Mário Soares que, a partir de então, contribuiu para animar os setores moderados do MFA a se exprimirem e a reforçarem a linha que, em agosto desse ano, veio a ser consagrada no "Documento dos Nove", posição que, de forma decisiva, separou as águas dentro do MFA. Basta olhar para o que se já tinha passado dentro da Assembleia do MFA, a partir da reunião de Tancos, para se perceber para que lado tinha passado a pender, desde há meses, a balança do poder militar. 

Contudo, a tal narrativa de que o país, ao tempo do 25 de novembro, estava à beira de ser tomado pelo extremismo veio, a partir daí, a dar imenso jeito a certos setores de direita, que progressivamente, acabariam mesmo por meter no mesmo saco os responsáveis pela revolta e os setores moderados do MFA que puseram termo à sedição. Basta ver como alguns ainda hoje olham os subscritores do "Documento dos Nove", começando por Vasco Lourenço e acabando em Pezarat Correia, passando pela memória de Melo Antunes, para se perceber o caminho que a mentira percorreu e como progrediu na nossa história recente. 

Os militares efetivamente envolvidos no movimento de 25 de novembro, e outros apenas presumivelmente implicados nessa tentativa de golpe, acabaram detidos e as suas carreiras militares afetadas. Nenhuma força político-partidária foi formalmente implicada na tentativa de golpe. Em especial, resultaram frustrados todos os esforços feitos para ligar o Partido Comunista Português às movimentações militares que então tiveram lugar. Esta é uma realidade que continua dolosamente a ser iludida.

Os setores da direita radical que se acobertaram atrás do MFA moderado - e que tiveram em Jaime Neves a sua cara operacional mais evidente - ainda tentaram "explorar o sucesso" para ilegalizar os comunistas, mas a clarividência dos militares moderados, em especial a coragem de Melo Antunes, colocaram a verdade no seu lugar. A maior prova da sua razão é que o PCP continuou a fazer parte do VI Governo Provisório, depois do 25 de novembro e até à entrada em vigor da Constituição de 1976.

No 25 de novembro de 1975 foi derrotada uma linha extremista de esquerda que quis desviar a Revolução de Abril do seu curso em direção a uma sociedade democrática. Da mesma forma que as tentativas de golpe em 28 de setembro de 1974 e em 11 de março de 1975 tinham antes tentado uma subversão de sentido direitista. 

Há quem, na sociedade política portuguesa de hoje, pareça já incomodado com as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, que, daqui a uns meses, aí vêm. E é óbvio que, à falta de outros instrumentos, essa gente continuará a tentar usar o 25 de novembro como arma de arremesso contra o 25 de Abril.

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