Ao contrário de Rui Rio, António Costa irá ter oportunidade de constituir um grupo parlamentar com densidade técnico-política, muito graças aos ex-governantes que vão sair de cena e regressam ou passam a integrar a AR. Conhecer os dossiês é uma imensa mais valia para o trabalho parlamentar, em especial em comissão.
Também ao contrário de Rio, Costa pode dar-se ao luxo de preservar no “backbench” alguns ”tokens” de diversidade opinativa, por muito que eles o irritem. É que se torna importante amansar os extremos heterodoxos do partido, sejam aqueles por quem a direita morre de amores, sejam os que são o ai-jesus dos antigos parceiros da Geringonça. A ambos, as televisões chamam-lhes um figo. Na guerra, chama-se a isto ”friendly fire”.
Para um próximo governo, Costa terá, contudo, um desafio difícil: que caras novas e independentes, com qualidade publicamente reconhecida e capacidade política para afrontarem a selva da política, estarão dispostas a entrar noutra aventura minoritária? E como compatibilizar esses egos emergentes, com notoriedade mas sem disciplina partidária, com a coesão de um executivo de combate em que a autoridade do primeiro-ministro possa exercer-se da forma plena, como já se percebeu que Costa não dispensa?
Porém, enquanto o pau vai e vem folgam as costas e o exercício do poder, embora se vá desgastando, revela-se sempre um excelente cimento, dando, por algum tempo, pano para mangas e saias. E há muito que, em Portugal, não se via alguém a exercer esse mesmo poder com tanta maestria como o faz António Costa. Sob o olhar, algo lúdico, divertido, mas eu diria que também bastante admirativo, de Belém.