sábado, 23 de fevereiro de 2019

O diabo veste farda


Alguns governos da ditadura militar brasileira (1964/1985) tiveram menos militares do que agora tem o governo Bolsonaro. Num país em que a classe política dá a imagem de quase não dispor de quadros qualificados sobre os quais não impendam suspeitas ou acusações de improbidade, os militares emergiram, nos últimos anos, como um espécie de setor imaculado, tocado por um odor de santidade ética, que pretende colocá-los acima de qualquer suspeita. 

Noutras geografias, tivemos já a “república dos juízes”. No Brasil, também com juízes à mistura, há agora esta espécie de moralidade fardada, desfilando para o exercício impoluto do poder. Estaria “descoberta a pólvora”, por todo o mundo, se o recurso aos militares pudesse ser assumido como a solução para os problemas éticos da política. Ora é preciso não esquecer que os oito, repito, oito ministros militares que agora enxameiam o palácio do Planalto não dispõem da menor “accountability” democrática, respondem apenas perante um presidente que, como se está a ver dia após dia, sendo uma criação sua, é um homem com imensas limitações, enredado numa teia familiar que já se constatou pedir meças ao pior da política brasileira. O facto das duas mais importantes forças na Câmara de Deputados serem o PT, nos dias de hoje sujeito a uma quarentena política de que será muito difícil sair, e o PSL, o partido que foi “barriga de aluguer” de Bolsonaro e cujo presidente foi já obrigado a demitir-se do governo, faz com que o escrutínio parlamentar esteja, por ora, muito atomizado, o que favorece pontualmente esta preeminência militar.

Os militares brasileiros têm uma história recente de relação com o poder. No auge da Guerra Fria, a exemplo de outros sinistros exemplos na região, montaram um regime de arbítrio, com perseguições, torturas, prisões e muitos mortos – um retrato que só fica menos mal perante o incomparável terror de outras ditaduras latino-americanas. O processo de transição pactuado, onde intervieram muitos políticos que haviam sido homens de mão dos militares, permitiu que a tropa brasileira escapasse a um escrutínio transparente já em tempos de liberdade, com as “comissões de verdade”, criadas na última década, a serem objeto de forte reação do mundo das fardas. Os militares brasileiros costumam tentar absolver-se a si próprios com o argumento das mortes provocadas pelos “terroristas” da extrema-esquerda, deliberadamente escondendo os números bem mais gravosos das suas próprias atrocidades e o facto da reação clandestina armada desses grupos corresponder à contestação da ascensão violenta, ilegítima e anti-democrática dos militares ao poder.

Num país com flutuações políticas muito contrastantes, os militares brasileiros foram capazes de gerar, ao longo dos anos e por cima desses ciclos, uma curiosa doutrina estratégica, com peculiares dimensões de política económica. Trata-se de uma espécie de nacionalismo desenvolvimentista que, no passado, teve laivos estatizantes e de apelo a um forte protecionismo, assente num sentimento de independência nacional que passava pela apologia da preservação de um importante setor público, numa espécie de recuo assumido para o modelo da autarcia, tido como viável em função da existência de um forte mercado interno.

Ouvindo e lendo agora com atenção alguns dos “criadores” militares de Bolsonaro, fica a sensação de que essa doutrina pode, entretanto, ter evoluído. Desde logo, no tocante à aceitação das virtualidades das receitas liberais, quer no comércio externo, quer, em especial, no que toca ao peso das empresas públicas, que os tempos democráticos vieram a confirmar como antros privilegiados de corrupção. Logo veremos como será possível acomodar alguns fortes interesses económicos instalados com o custo imediato das medidas liberais, bem como com o tropismo nacionalista que marca muito a identidade brasileira.

As soluções políticas com intervenção militar são, pela sua natureza, de exceção. Este verdadeiro governo militar “soft“, pode, a prazo, vir a funcionar contra a democracia. Por isso, no Brasil, é preciso dizê-lo: o diabo veste farda, mesmo quando anda à paisana.

(Artigo publicado no “Jornal de Negócios” em 22.02.19)

7 comentários:

A Nossa Travessa disse...

Meu caro Franciscamigo

Vida de jornalista mormente dedicado a temas internacionais tem momentos inolvidáveis alguns muito bons outros.. menos bons mas todos muito interessantes - pelo menos para mim.

A que vem este introito talvez um tanto descabido? Nada disso, não senhor. "O diabo veste farda como trata do Brasil é como dizem eles um título bem bolado!

Nas andanças pelo Mundo tive a oportunidade de me encontrar e falar com os dois últimos generais e presidentes brasileiros que fecharam o negro período da Ditadura Militar" Ernesto Geisel e João Figueiredo. Ambos se esforçaram por me demonstrar que estavam a a dar passos seguros no sentido da transição para democracia. "Helas!"

Nenhum me convenceu e disse-o a ambos pois como sabes não sou de arcas encoiradas. Não gostaram? Claro que não, mas não mo disseram e acabaram-se as conversas com eles. Não sei puseram algo na beirinha do prato...

Mais tarde veio a saber-se que Geisel mandara fuzilar uns quantos cidadãos. O diabo veste farda! A entrevista do vice-presidente de Bolsonaro general Humberto Mourão ao jornalista Luís Baila da RTP dá bem o exemplo do que o gangue dos militares pensam da democracia, no mínimo "musculada" ou melhor "fardada"!

Um abração muito bem temperado e apimentado do teu amigo e admirador
Henrique, o Leãozão

NR - Nem com pimenta verde (como aqui em Goa se chama à malagueta) nos chegamos à frente. Como diria o velho Cunha Leal no Parlamento da I República (tão vilipendiada!) somos mesmo Uma no cravo outra na ferradura... E nem é preciso os outros mexerem os pés!

Joaquim de Freitas disse...

Excelente texto. Houve dois aspectos que me impressionaram neste drama brasileiro :

Além da decomposição da classe politica, foi a emergência das “Milícias” e o envolvimento visceral da família Bolsonaro com estes bandos paramilitares que actuam no Rio de Janeiro debaixo dos olhos das autoridades.

Um jornalista fez revelações sobre a articulação do clã com os milicianos no Rio Hoje já está patente que o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, há 10 meses foi obra de milicianos. Não é por outro motivo que funcionários federais que postaram nas redes sociais mensagens a favor da análise do crime estão na lista de demissões do bolsonarismo. Os militares sabiam e sabem da articulação política do clã com os milicianos e, depois da intervenção fardada no Rio, nada fizeram para desarticular o esquema.

Quando se conhece hoje a participação dos militares na eleição de Bolsonaro, pode-se pensar que de qualquer maneira, se não tivesse os tais 55% dos votos, o Exército não aceitaria outro resultado.

A responsabilidade dos militares não se limita ao conhecimento que tinham e têm sobre a quadrilha. Os seus maiores líderes foram protagonistas directos da chegada de Bolsonaro ao poder. Foi uma intervenção directa e pública do comandante do Exército, general Villas-Bôas na noite de 3 de Abril de 2018, que selou a sorte de Lula, levando o STF a negar-lhe um habeas corpus que mudaria o destino político do país.

Não é por outro motivo que, de maneira escandalosa, no dia seguinte à sua posse, Bolsonaro, responsabilizou Villas-Boas directamente pela sua eleição à Presidência: "General Villas Boas, o que já conversamos ficará entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui", disse Bolsonaro .em discurso na posse do novo ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva

Outro general Sergio Etchegoyen, , da chamada "linha dura" militar, que se insubordinou contra a Comissão Nacional da Verdade que apontou o seu pai, Leo, e seu tio Cyro, como envolvidos directamente com torturas durante o regime militar .

Impressionante. No novo regime, os militares detêm postos estratégicos. São fiadores e árbitros. Já são 45 militares nomeados para postos-chave no governo Bolsonaro .

E quando o general Hamilton Mourão decidiu que o seu filho ficaria no cargo de assessor especial da presidência do Banco do Brasil, com um salário de R$ 36,3 mil, o triplo do actual, compreende-se melhor que os planos de conquista do poder foram feitos pelos militares, que puseram no Planalto quem quiseram: o Cavalão …

Mourão diz que a promoção é resultado de "meritocracia": "Não é por ser meu filho, mas ele é um profissional extremamente qualificado. Se eu pudesse, o teria aqui na minha equipe."

Incrível a qualidade dos filhos de Bolsonaro e dos generais! Mas o Pai também não era nada mau, pois que saltou três degraus hierárquicos, e recebeu nada menos do que oito promoções durante os governos Lula e Dilma.

O que prova bem que a classe politica brasileira, desde 1964 que tem medo dos generais…

Não sei como nem quando os brasileiros se verão livres desta máfia que assaltou o poder.

Sobretudo quando vemos o peso também dos outros comparsas, os Evangelistas…

Pobre Brasil , cinco séculos de colonialismo para nada…

Anónimo disse...

Não há como deixar de admirar a sabedoria do Freitas no que toca ao Brasil (e, claro, à lamentação relativa aos cinco séculos de colonialismo). Agora, é só esperar que o guru de Grenoble nos conte qualquer coisa sobre o que se passa na Venezuela...

Joaquim de Freitas disse...

Anonimo das 19;48 de 24 Fevereiro 2019;

Desculpe mas estou à espera de elementos para a Venezuela. Sobretudo algumas respostas a questoes urgentes:

1. Trump foi eleito com menos votos que a sua adversária. Sondagens indicam que uma maioria crescente dos cidadãos dos EUA desaprova o seu governo. Quando apresenta a sua demissão?

2. Não tendo apoio da população, espero que Nancy Pelosi, se autoproclame presidente dos EUA, que convoque uma insurreição popular, e peça aos militares que não o reconheçam e peça ajuda à Rússia, à China, à Coreia do Norte, ao Irão e outros países para a ajudar a derrubar Trump.

3. A ONG Poor People's Campaign, indica que 43% dos norte-americanos estão na pobreza. Uma ajuda humanitária de outros países impõe-se.

4. Esperamos que Trump abrirá a fronteira do México e do Canadá para receber esta ajuda urgente. Senão será invadido. Porque não seria justo criticar Maduro por fechar a fronteira da Venezuela e não abrir a sua.

5. E recusar de receber latino americanos nos EUA e pagar os seus vizinhos para receber os Venezuelanos.

7. Gostaria de saber porque está preocupado com a vida dos venezuelanos, com a fome e a saúde deles, e bloquearam US$ 30 bilhões nas contas da Venezuela, dos quais uma parte poderia ser destinados à compra de alimentos e medicamentos.

10. Por que a ajuda humanitária dos EUA representa somente 6% do que o governo venezuelano distribui a 6 milhões de famílias em um único dia através dos CLAP?

11. O Haiti sempre foi o país mais miserável da América Latina, e continua sendo até hoje. Por que os EUA nunca se preocuparam em enviar ajuda humanitária aos haitianos?

Deve haver uma razão. Desde que saiba virei aqui para o informar, Caro Anónimo das 19:48. Se o Senhor Embaixador o permitir.

Joaquim de Freitas disse...

Mais uma reflexão para os problemas do Brasil e Venezuela:

Amigos meus em Lisboa e algures em Portugal indicaram-me que se nota a presença em Portugal de muitos Brasileiros. E que muitos continuam a “fugir” do Brasil.

Primeira questão: Porque é que fogem dum regime de direita, para vir viver num regime de esquerda, uma “geringonça” de socialistas e comunistas, gente perigosa como se sabe!

Segunda questão: Muitos Venezuelanos fugiram e continuam a fugir da Venezuela. Segundo várias fontes, os Americanos pagariam ao Brasil e à Colômbia somas importantes para que aceitem estes imigrantes Venezuelanos nos seus países. Embora eles não aceitem nenhum nos EUA…

Claro que pagam com o dinheiro roubado ao povo venezuelano, isto é, com as dezenas de bilhões de dólares das contas do governo venezuelano nos Estados Unidos e não só.

O que é curioso, é que fogem dum regime socialista, de Maduro, para vir viver num regime militar de direita no Brasil como na Colômbia. Sabendo que no Brasil, actualmente, ocorrem dezenas de “execuções “ do norte ao sul, e que na Colômbia, paraíso da droga a violência não é inferior, não compreendo estes êxodos.

A Nossa Travessa disse...

Meu caro Franciscamigo

Volto cá por duas razões, a saber:~

1)Parabéns Joaquim Vieira pelo seu comentário e pela sua resposta ao "anónimo" das 19:48 (continuo a detestar anónimos!)

2)

Há já quase um mê que nos encontramos no Paraíso que dá pelo nome de Goa e pouco mais temos feito do que… acordar, lavar, pequenalmoçar, dar umas voltas, almoçar, ”sestar acordar, receber o Zito Menezes com quem ficamos na conversa, a Raquel e o esculápio seu colega no liceu bebendo uns gins’ tonics e eu umas modestas cervejas free alchool, petiscar – em vez de jantar - ver umas desgraças na RTPI, aqui passa à meia-noite TMLocal e (veja-se a minha paranoia, mirar … o “Preço Certo”!!!!!), xixi e cama, e já nem se liga aos sacanas dos galos e às desgraçadas das gralhas. E Por hoje é tudo.

E agora, como estou muito cansado de descansar – vou descansar!!!
Qjs & abçs
Henrique, o Leãozão

Joaquim de Freitas disse...

Senhor “Leaozao” , da Nossa Travessa:

Que sorte de estar em Goa ! Gostava de lhe fazer uma pergunta: Passei por Goa há já uns anos, de facto várias vezes, nos fins de semana, quando acabava de visitar s meus clientes em Poona e Bombaim, e ficava sempre no Hotel Aguada, por causa da cozinha portuguesa e, claro, o ambiente português, com a pintura a óleo do Vice-Rei Dom José de Castro, que me desejava as Boas-vindas, na recepção.

Fiz muitas fotos de Goa , entre as quais a da estátua de Camões em frente da Igreja do Bom Jesus, não longe do seu vizinho doutra civilização, Gandhi.

Notei ultimamente, numa reportagem, que a estátua do nosso poeta lírico nacional, já não lá se encontrava. Foi removida definitivamente?

Obrigado pela atenção.