O leitor deste espaço há-de convir que não se encontra um Pantaleão por dá-cá-aquela-palha, em cada esquina da vida. Eu nunca tinha encontrado nenhum. Mas há pouco, cruzei-me com um Pantaleão, precisamente numa esquina: era angolano, da Huíla, e condutor do Uber que eu tinha chamado. Está por cá há sete meses. Inquiri de onde lhe vinha o nome: era de um avô. Não, o Pantaleão não era preto (como o leitor poderia suspeitar), era branco e o avô era da Madeira (por cá, há Pantaleões na Madeira e em Gondomar, fiquei a saber, porque ele me disse).
Perguntei-lhe se tinha lido o livro de Vargas Llosa, "Pantaleão e as visitadoras". Nunca tinha ouvido falar. Disse-lhe para o ler. Malandro (com a permissão dos leitores deste casto blogue), acrescentei, para o estimular: "Mete tropa e muitas gajas ..." O nosso Pantaleão ficou entusiasmado. No fim da viagem, tomou nota, por escrito. Disse-me que vai comprar o livro.
Se acaso de outro tipo de pessoa se tratasse o Pantaleão com que hoje me deparei, e se esse outro já tivesse lido, quanto mais não fosse por curiosidade onomástica, a saborosa novela de Vargas Llosa, então talvez tivesse valido a pena eu ter-lhe revelado, se o não soubesse, que é dedicado a São Pantaleão (na imagem) um dos belos mosteiros no monte Athos, na Grécia - um lugar que faz parte de algumas das já muito escassas coisas que integram a minha agenda de curiosidade pendente, para usufruto ainda neste "vale de lágrimas", tal como livros, vitualhas, copos, viagens e outros prazeres lúdicos (eu escrevi lúdicos, não lúbricos!) que acho que ainda valerá a pena ver, consumir ou experimentar, antes que as pilhas acabem.
Enfim, fiquei hoje a saber que, em Lisboa, até há Pantaleões. Isto é que é uma cidade cosmopolita!
