segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Biafra


Li, há pouco, que vai ser publicado um livro sobre a aventura de alguns portugueses envolvidos no apoio aéreo ao Biafra. Ainda alguém se lembra, nos dias de hoje, dessa República secessionista da Nigéria, dos ibos que por lá habitavam e das fortes razões do petróleo, origem dessa guerra inútil, com muitos mortos e fortes cumplicidades internacionais? 

Ainda guardo algures uma bela nota de “Banco do Biafra”, imaculada e nunca usada, creio que impressa nesta Lisboa onde então vigorava um regime que apostava nos Briafras, nos Catangas, nas Rodésias e em tudo o que fragilizasse a África que se opunha ao colonialismo, de caminho, e também para isso, dando refúgio aos “The Dogs of War” que Frederick Forsyth tão bem retratou.

Um dia, nos inícios de 1976, recém-entrado na diplomacia, fui destacado para ir efetuar uma determinada missão ao recém-criado Estado de São Tomé e Príncipe. A minha estada por lá seria de uma semana, porque era esse o ritmo dos voos da Air Gabon, num pequeno avião que nos fazia chegar e sair da ilha para Libreville, num tempo em que o único percurso alternativo era uma ligação da Taag, através uma Angola em guerra.

Nessa semana, calhou passar uns fins de tarde naquilo que se chamava o “Benguidoxe” (escrever-se-ia assim?), uma espécie de pensão com esplanada, no centro da cidade, onde se bebiam umas cervejas. Creio que através do Jorge Coimbra, um amigo do liceu de Vila Real que vim a encontrar por lá, veio um dia parar à minha mesa (ou eu fui parar à mesa dele) uma figura curiosa. Era um homem grande e cordial, conversador, de um género de contador de histórias que se encontra muito nesses lugares onde o tempo se suspendeu por algum tempo - como era bem o caso da cidade de São Tomé de então. 

O meu interlocutor chamava-se Villaret - um nome que não esquece quem tem a memória do Portugal dessa época. Era piloto e tinha andado envolvido na guerra do Biafra. Contou-me episódios dessa aventura em que aquela ilha, recém-independente, havia também tido o seu quinhão de participação. Eram relatos onde não havia nenhuma arrogância de heroísmo, muito embora as missões tivessem um elevado grau de risco. Lembrei-me dele agora. Surgirá o seu nome no livro que agora vai ser publicado? 

Saí de São Tomé, nesse mês de Fevereiro de 1976, a caminho do Gabão. Ao fundo do aeroporto estava um velho Constellation. Perguntei a alguém o que era aquilo. “É da guerra do Biafra”, respondeu-me. Tentei tirar uma fotografia ao inutilizado avião mas foi-me dito que era proibido, “por razões de segurança”. Não fossem essas brincadeiras serem pouco prudentes, nesses tempos muito afirmativos de juventude independentista, e teria perguntado se a ordem era “do tempo do colono”. Só podia!, como dizem os brasileiros. 

Voltei lá anos depois. O velho Constellation (descobri agora uma foto dele na net!) ainda por ali continuava, a apodrecer. As coisas, em África, têm sempre um tempo e em especial um ritmo diferente. E que teria acontecido entretanto ao Villaret, que já por lá não andava?

9 comentários:

Anónimo disse...

É arrepiante pensar como, em tempos de ditadura, havia um regime capaz de tudo para defender os interesses nacionais, enquanto que, hoje, em democracia, vemos o regime capitular, capitular, capitular...

Durante a ditadura, tínhamos gente em autênticas conspirações estilo 007, lutando pelos interesses do país, hoje, temos um Presidente da República que pouco falta para assentar arraiais na Zarzuela, um PM que se baba todo quando vê um espanhol à frente, uma "élite" que tudo fez para entregar os nossos bancos aos estrangeiros mais perigosos para a nossa soberania...

Faz impressão.

Anónimo disse...

O livro agora publicado afirma, pelo que se pode ler no Observador, que o auxílio militar luso destinado ao Biafra não passou por São Tomé...
Outros garantirão que o referido auxílio foi protagonizado por Jorge Jardim por ordem de Salazar.

Atenciosamente

Retornado disse...

Foram tempos excepcionais, (13 anos)que nos afirmaram como "gente" e como "nação", com vontade própria e não uns "paus-mandados", como hoje, tipo mercenários como irem paraquedistas e comandos para África para países que nem sabemos quem são nem apontar no mapa onde ficam.

Foram tempos de excepção num historial de 800 anos.

Numa europa decadente, que está pagando as asneiras de séculos de colonialismo africano, culminando com aquilo a que se chama "descolonização", que não passou de uma tentativa de abandono e desresponsabilização, com que nós não pactuámos, "orgulhosamente sós"(13 anos).

A Nigéria, hoje tem várias guerras indefinidas, de índole étnica e religiosa, talvez piores do que foi a guerra do Biafra, era fácil de prever.

Mas a Europa já está a pagar as consequências das independências com que nós não concordavamos, mas que tivemos que baixar os braços.

Francisco Seixas da Costa disse...

Eu não escrevi que material militar passou por São Tomé. Por ali passou parte da ajuda humanitária.

patricio branco disse...

um super constellation, o mais belo avião que houve, bem junto aos concordes, nunca andei de concordes, no constellation sim, curta viagem, 2 horas, em que outros aviões andei ou não andei? ou será melhor dizer votei ou não voei?

APS disse...

Esperemos que a obra esteja bem documentada.
Que refira, por exemplo, que a Noruega e o Vaticano, pela figura ambígua de Paulo VI, tenham apoiado a secessão do gen. Ojukwo.
Que o Governo-geral de S. Tomé tenha tido uma importância essencial na libertação de alguns reféns-funcionários da ENI.
É evidente que foi mais uma guerra de petróleo, como na Pérsia, no tempo do Xá, nos anos 50, ou a do Iraque, no consulado do Bush,jr..
Nestes trabalhos históricos, ou se vai ao fundo das coisas, ou não se passa do picaresco da BD.

APS disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

impressionante o livro ja esta no google

segue em baixo, depois dos links

http://especialistasdaba12.blogspot.com/2010/02/voo-1501-o-aviao-do-biafra.html
https://ab4especialistas.blogspot.com/2015/05/portugueses-na-guerra-do-biafra_26.html
https://newsavia.com/biafra-e-faro-parte-i-2/
http://www.odisseiasnosmares.com/2011/08/sao-tome-biafra-odisseia-dos-voos-de.html
https://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/arrecadei-uma-nota-do-biafra-meio-chamuscada
https://www.dn.pt/gente/interior/portugues-a-bombardear-na-guerra-do-biafra--1499218.html

https://books.google.pt/books?id=c7WHDwAAQBAJ&printsec=frontcover


tenho ca para mim que "villaret" era mais um engodo que outra coisa... nenhum texto dos textos o menciona
veja as fotos pode ser que o reconheça!...

cumprimentos

José João Roseira disse...

Na segunda metade da década de 60, voei muito no aeródromo de Cascais onde conheci um piloto de seu nome Villaret. Era um latagão, bonacheirão, comilão e um tanto anafado.
Nessa época, vi por lá estacionados alguns aviões, entre eles alguns T6 (camuflados) e um Dornier que constava que se destinavam (?)ao Biafra. Não sei (não me lembro) se o Villaret andaria metido nisso. Do que julgo lembrar-me é que ele se terá suicidado com um tiro de pistola, numas dunas da Costa da Caparica, numa véspera de Natal, na época do PREC...

José João Roseira