segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

As armas da Venezuela


Há cerca de dois anos, contei esta historieta no meu blogue. Hoje, pelas razões que facilmente compreenderão, lembrei-me dela:

"Mário Soares não tinha por hábito pernoitar nas embaixadas, preferindo quase sempre os hotéis. Apenas em Brasília, numa das vezes que por lá passou, o convenci a dar-me o gosto de ali ficar. Mas foram bastantes as noites, em vários países, em que com ele fiquei à conversa pela noite dentro. Nessas ocasiões, eu aproveitava para saciar a minha curiosidade em torno das suas inesgotáveis memórias, sempre marcadas por um rigor dos factos, datas e nomes. Muito aprendi então sobre a história da oposição democrática à ditadura e os bastidores da política doméstica no pós-1974.

Naquela noite, eu juntara à sua volta, num jantar, o antigo presidente da República, José Sarney, e o então vice-presidente, José Alencar. Sarney era um velho conhecido de Mário Soares, que as voltas da política tornara, à época, um leal aliado de Lula, e Alencar era um querido amigo pessoal meu, que achei que Soares gostaria de conhecer melhor.

O jantar começou muito bem, com a bonomia e as histórias mineiras do vice-presidente a deliciarem o nosso antigo presidente. Este tinha vindo, na véspera, da Venezuela, onde entrevistara o presidente Hugo Chávez para um programa televisivo. Estava visivelmente entusiasmado com o líder venezuelano, sentimento que eu sabia muito longe de partilhado pelos dois convivas brasileiros. Alencar mostrava-se mais parcimonioso nestas reservas do que José Sarney, que, tempos mais tarde, acabaria por assumir no Senado brasileiro uma oposição forte à entrada da Venezuela para o Mercosul.

A certo passo do repasto, com a conversa quase sempre em torno da figura de Chávez, comecei a notar que o diálogo entre Soares e Sarney se estava a tornar um tanto tenso. Entre outras discordâncias, Sarney explicava a Soares que havia setores brasileiros muito preocupados com as aquisições de material militar que Chavez tinha recentemente feito, e procurava chamar em apoio das suas teses o vice-presidente da República, José Alencar, que, até meses antes, tinha acumulado o cargo com o de ministro da Defesa. Este, porém, por não querer distanciar-se da atitude nada crítica de Lula face a Chávez, mantinha-se discreto.

Soares, contudo, acreditava piamente na boa vontade de Hugo Chávez, creditava-o de boas intenções e de um real interesse em manter um relacionamento positivo com o Brasil. Num determinado momento, voltando-se para Sarney, disse-lhe: "Ó José Sarney! Eu conheço muito melhor o Chavez do que você! E, por isso, posso assegurar-lhe que nunca uma arma venezuelana que ele controle se voltará contra um interesse do Brasil".

Sarney fechou aquela cara de brasileiro que, do bigode ao cabelo negro com brilhantina, refletia uma imagem caricatural do brasileiro da sua idade a que o mundo dos anos 50 e 60 se habituara, e, longe de convencido, voltando-se para Soares, disse-lhe: "Ó Mário! Nem você nem eu já temos idade para acreditar nessas coisas! Não seja ingénuo!".

Mário Soares não gostou, retorquiu firme, mas com procurada elegância. Eu fiz um sinal a Alencar para me ajudar a amenizar a conversa. Isso foi conseguido, sem dificuldade, mas pode dizer-se que aquele que seria o último encontro entre os dois antigos presidentes não acabou em ambiente de grande euforia."

Chávez já morreu há muito e por lá está agora Maduro. Alencar e Soares também já desapareceram. Olhando as coisas à luz dos riscos potenciais nos dias que correm, com a escalada entre os dois países, em que só se pode esperar que o bom-senso prevaleça, lembrei-me das preocupações de Sarney.

11 comentários:

Luís Lavoura disse...

É ridículo da parte do Brasil ou de um ministro brasileiro pensar que a Venezuela pode constituir um perigo militar.
A Venezuela tem uma população muitíssimo inferior à brasileira. Não tem capacidade militar para enfrentar (em território brasileiro) o gigante que o Brasil é.
Ademais, as terras fronteiriças são de floresta tropical e não constituem propriamente algo que se queira conquistar militarmente.

Anónimo disse...

O dr. Mário Soares não ficava nas Embaixadas ? Ora essa , sózinho ou acompanhado da mulher dra . Maria de Jesus Barroso , deu a honra a muitos Embaixadores de ficar nas Embaixadas , aliás , a sua Residência nos Paises onde estava ...

Anónimo disse...

Lamentavelmente a Venezuela é uma ditadura na qual os cidadãos sobrevivem no dia a dia com cada vez mais dificuldade. Tudo falta, desde medicamentos a comida, passando pela água e luz.

É necessário uma mudança para que este país volte a progredir/

Anónimo disse...

A Venezuela, ao contrário do que determinados sectores políticos têm vindo a classificar (por pura manipulação política) e que um Leitor aqui referiu, não é uma Ditadura. Numa Ditadura não o líder da mesma nunca toleraria um “presidente interino”, nem permitiria umas eleições livres como as que se registaram para o parlamento venezuelano, de onde saiu o tal rapaz Guaidó. Muito menos também se toleram manifestações contra o líder, como sucede na actual Venezuela. Ditadura é o que existe na Coreia do Norte, na Arábia Saudita e noutros regimes, como, por exemplo, a China (onde as palavras Liberdade de Imprensa, Eleições Livres, Partidos Políticos, etc, são coisas que não fazem parte do quotidiano da RPC). Maduro está maduro? Está. Ninguém o duvida. Todavia, não é um Ditador “stricto sensu”. Ditadura era, por exemplo, para quem não se lembra, ou gosta de ignorar, o regime de Salazar e de Franco. E já que os mencionei, ocorreu-me o seguinte, a propósito do que se diz sobre a Venezuela de hoje (e com verdade) de que “tudo falta, desde medicamentos, comida, electricidade, etc”: uma das razões para as tomadas de posição quer dos EUA, CAN, quer de uma boa parte dos países da União Europeia, entre outros países, é o facto de Maduro ser um “Ditador Sanguinário” (ouvi este tipo de asserções da boca de alguns políticos portugueses!). Agora imaginemos que, à época, os EUA, CAN e os países que compunham a CEE, estes arautos dos valores morais da Democracia e “inimigos das Ditaduras”, decidiam impor apertadas sanções económicas ao Portugal Salazarista e à Espanha Franquista, negando-lhes a importação de medicamentos, de alimentos, de equipamento vário, de petróleo, de gaz, enfim, do que mais lhes ocorresse. Isto tudo, com vista a fazer com que aquelas Ditaduras caíssem, depois de várias e inevitáveis manifestações públicas contra os malvados Salazar e Franco (cujos regimes tinham uma polícia política, não haviam eleições livres, havia censura, prisões políticas, onde opositores por vezes eram mortos, por cá Humberto Delgado e outros, por lá, em Espanha, muitos mais) e a Democracia, com eleições directas e livres, fosse devolvida aos povos da Península Ibérica. Ora, como se sabe, nada disso aconteceu. É que quer os EUA, quer a U.E toleram regimes de Ditadura de Direita (também conviveram bem com os coronéis Gregos, dessa altura). Veja-se os exemplos das Ditaduras da Amérca Latina no século passado, com destaque por exemplo para a De Pinochet e dos generais da Argentina, ambos de uma crueldade aviltante. Mas, pergunto, fez-se o mesmo que a Maduro, que não se lhes compara politicamente? Não fez. Fez-se “melhor”. Henry Kissinger foi a Santiago dar um abraço a Augusto Pinochet, lá está a foto para quem quiser ver, a fim de reforçar o apoio dos EUA a esse “paladino democrata”. E claro, o cobre chileno voltou às mãos norte-americanas. Tal como sucederá com o Petróleo venezuelano (além do ouro e o coltan).
a)Jorge Albuquerque

Anónimo disse...

Não é a Venezuela que pode constituir um perigo militar ao Brasil, mas quem está por trás disso, a Rússia e a China, quem não teria medo desses aliados do Maduro????

Anónimo disse...

Caro Jorge Albuquerque

A Venezuela é uma ditadura, onde Maduro e os seus apaniguados tudo tentam controlar, desde a economia à comunicação social.

Veja-se o caso das televisões, o regime como não tolera a oposição não renovou em tempo qualquer licença ás televisões que o criticavam. No último sábado foi mesmo mais longe e cortou o sinal interno para impedir a simples transmissão do concerto Venezuela Aid, que estava cheio de gente, ao contrário do concerto que o Governo organizou.

Claro que é uma ditadura, senão analise a brutalidade da intervenção do SEBIN (polícia política), que prende sem respeito pela lei os jovens manifestantes e os leva para o Helicóide, onde são sujeitos a tortura e execuções.

A falta de medicamentos não se devia ás sanções, nunca os países da União Europeia, o fizeram, mas sim à inépcia e nepotismo dos governantes, que não pagam aos fornecedores.

É uma ditadura na qual o senhor Maduro, quando sofreu um revés com eleição do Parlamento que não controlava, criou ilegal e inconstucionalmente uma nova assembleia constituinte e esvaziou o Parlamentodos seus poderes.

Só uma ditadura encerra às suas fronteiras para impedir a entrada de alimentos e medicamentos a um povo que não tem dinheiro para comer, nem para se tratar. Veja a quantidade de feridos, presos e mortos no passado sábado.

Se a Venezuela não é uma ditadura, sem qualquer respeito pelos direitos humanos, o que será?

Luiza Nóbrega disse...

Mas o sentido desse vector-temor não seria agora inverso? Ou seja: não seria a Venezuela a temer uma agressão do Brasil?
Ou estarei eu também incorrendo na referida ingenuidade?
(Rs).

Anónimo disse...

Anónimo das 02.25 (Oh Diabo, você está acordado até tarde!),
Não altero uma vírgula do que escrevi. Maduro não é um Ditador “Stricto Sensu”. Aqueles que referi, de Salazar, a Franco, do criminoso Pinochet, o regime sangrento dos Generais Argentinos, dos militares brasileiros (tão admirados por Bolsonaro!), dos coronéis Gregos, da Coreia do Norte, da Arábia Saudita actual e de sempre, dos vários Regimes Sul-Americanos Ditatoriais patrocinados (e financiados) por Washington nos idos do Século passado, a par de outros em África, pelas mesmas razões, esses sim, eram Ditadores. E sangrentos. Mas, que, “extraordinário”, não foram objecto de sanções – como devia ter sucedido! Todavia, registo, com curiosidade, que nada disso o perturba…caso contrário tê-los-ia mencionado. Fica o registo. Ou seja, você está muito incomodado com o Maduro, mas perdoa as sevícias praticadas por todos aqueles facínoras e patifes criminosos que atrás menciono. Ficam-lhe bem esses “sentimentos”. Nada como os Direitos Humanos serem esmagados e aviltados por um regime Fascista, ou de outro tipo, como na Arábia Saudita e outros, amigos (ou pelo menos importantes parceiros económicos) desta nossa “nobilíssima Civilização Ocidental”.
Passe bem!
a)Jorge Albuquerque

Anónimo disse...


Tem uns que quanto mais se explicam, mais falam besteiras, claro sempre no “Stricto Sensu”.

Anónimo disse...

Nada como besteiras de anónimos! O tolo, não foi foi capaz de escrever um argumento contraditório, com substância. Fico à espera! Oh Anónimo, tenha, pelo menos, a coragem de nos dizer que o Augusto Pinhochet foi alguémqeu você admira! Ou essa sinistra figura como o Salazar!

Joaquim de Freitas disse...

O que muitos anti chavistas não querem aceitar é simplesmente o grande numero de venezuelanos comuns ,cujas vidas foram radicalmente melhoradas pela revolução socialista após a eleição de Chávez em 1998, e o contraste entre as opiniões dos pobres e o ódio vitriólico das elites que recusam mesmo a ideia de que os seus privilégios e a imensa riqueza construída num oceano de pobreza possam ser ameaçados.

As pessoas que não podiam ler ou escrever e eram incapazes de obter diplomas, estão agora fora do pântano da ignorância e capazes de participar mais plenamente na sociedade. Crianças e idosos que morriam prematuramente porque não podiam ter acesso aos cuidados de saúde caros agora vivem mais tempo graças ao sistema universal de saúde criado por Chávez .

Mais de um milhão de casas construídas para os pobres para substituir as favelas que cercam Caracas, a redução da metade da pobreza, tudo isso não vale nada?

A maioria das elites que possuem e controlam a imprensa e os meios de comunicação apelaram ao boicote das eleições de 2018. Maduro venceu com 68% dos mais de 9 milhões de votos expressos. Receavam o quê, aqueles que boicotaram, senao perderem.

É esta eleição e este presidente, que Donald Trump, este retardado, semianalfabeto, misógino, racista, especialista em falências, declara "ilegítimo". Ele que teve 3 milhões de votos menos do que a adversária, Não é inventado! Imaginemos que o rei Herodes faz um sermão sobre bebés ou que Quasimodo ordena que lhe endireitem as costas ? É o equivalente a ser chamado democraticamente ilegítimo pelo inepto Donald Trump.

Trump é um político fraudulento e lunático que tem o cérebro de uma criança mas que dirigentes estrangeiros estão prontos a seguir e apoiar a sua tentativa ilegal, antidemocrática e imoral de derrubar o Presidente eleito da Venezuela. É uma loucura possível por manipulações mediáticas nojentas e quando se dispôe da força bruta.

Os Estados Unidos servem-nos mentira após mentira para nos fazer acreditar que as suas intervenções militares são baseadas em preocupações humanitárias. A guerra lançada contra a Venezuela não tem absolutamente nada a ver com os direitos humanos. Os EUA só têm desprezo pela redistribuição da riqueza e do poder implementado pelo governo da Venezuela e tem medo de que isso possa estender-se a outras nações.

Como acreditar que um país que apoia regimes como a Arábia Saudita, Bahrein, Egipto, Israel, e os Emirados Árabes Unidos, que comercializa com eles e lhes fornece armas de guerra, está preocupado com os direitos humanos?

Se os E.U. derrubarem o governo eleito da Venezuela para o substituir pelo traidor Guaido, seria a 68 ª vez que derrubariam um governo soberano. Aqueles que têm um pouco de espírito esclarecido e democrático compreenderão que os Estados Unidos são o Estado mais desonesto do planeta e a pior ameaça para a paz mundial.