sábado, fevereiro 16, 2019

Caídos em tentação



A direita democrática espanhola decidiu atravessar uma linha vermelha. A fotografia que mostra os líderes do Partido Popular e do Ciudadanos, lado a lado com responsáveis do Vox, um grupo de extrema-direita ainda sem presença parlamentar, representa um tempo novo e triste da vida política na nossa imediata vizinhança. Tudo isto fora já prenunciado no anterior entendimento regional na Andaluzia, mas este “dar de mãos” a nível nacional tem um significado substancialmente diferente.

Por décadas, as forças políticas saídas da sábia transição espanhola tinham conseguido evitar a sua mistura formal com quantos propunham políticas de ódio e de discriminação, feitas da exploração dos medos e de sentimentos mesquinhos. Mas havia quem dissesse que, escondido nas catacumbas do PP, vivia sempre algum franquismo envergonhado. A verdade é que conseguir arrancar a um espanhol ”de derechas”, em conversa, uma condenação aberta de Franco e do franquismo foi sempre uma quase impossibilidade – ou então sou eu quem tem andado em estranhas companhias. 

Da trágica Guerra Civil dos anos 30 do século passado, haviam sobrado as famosas “duas Espanhas”: a vencedora e a humilhada. Franco não se havia limitado a ganhar o conflito interno, em que as atrocidades se dividiram, com “vantagem” para o seu lado. Após a guerra, efetuou uma terrível barbárie seletiva, à sombra do nacionalismo e da cruz. E isso não foi esquecido.

O caráter sinistro do regime do ditador galego conduziu a que, mesmo no auge da “realpolitik” da Guerra Fria, a sua aceitação acabasse por ser lenta. Salazar, apesar de não conseguir fazer ingressar Portugal na ONU em 1945, iria obter, pela mão da paternal Albion e pela utilidade das Lages para a América, um irónico “slot” no “mundo livre” da Nato, em 1949. Franco não. 

A Espanha, contudo, era demasiado importante, económica e estrategicamente, para que a quarentena se mantivesse. Com a recuperação económica, a benção americana e o pragmatismo europeu, somados à sua normalidade democrática sob instituições pujantes, o país regressou naturalmente ao “mainstream“ das nações. Tudo isto tendo, como pano de fundo, tensões autonómicas e um terrorismo defrontado com admirável coragem. 

Com os anos, o sistema partidário crispou-se a níveis insuspeitados, hoje com o nacionalismo centralista e os nacionalismos separatistas a confrontarem-se. Mas não deixa de ser uma má surpresa ver alguns por lá derivarem agora para o vale dos caídos em tentação anti-democrática.

6 comentários:

  1. Anónimo00:37

    Em Espanha não houve o derrube de regime. O presente regime democratico é o herdeiro directo de uma dictadura que derrubou um governo de esquerda democraticamente eleito. As feridas da guerra junto com as loucuras sobre o sexo dos ananases de certa esquerda e os neo fascismos de certa direita são boas noticias... em Moscovo...

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  2. Anónimo11:30

    Meu caro Francisco,

    Há uma troca no seu post. A ONU foi criada em 1945 e a NATO em 1949.

    Um abraço

    JPGarcia

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  3. Gostei do último parágrafo (Mas não deixa de ser uma má surpresa ver alguns por lá derivarem agora para o vale dos caídos em tentação antidemocrática.).

    Não sei se pensava noutros, mas para mim nessa equipa estranha desfila um antigo maire, deputado, ministro do interior, primeiro-ministro e candidato às eleições presidenciais francesas.

    Nunca apreciei este catalão, espanhol, socialista francês, que tem tanto de socialista que eu de budista!

    Com antenas por todo o lado, incluindo o Grande Oriente de França, onde tinha a sua loja, grande amigo do Emir de Doha, cuidou sempre das suas relações com os representantes de Marrocos e Israel. História de não insultar o futuro.

    Valls esquece assim quando ele quer as regras estabelecidas pelos Mestres que querem que a religião seja um ópio do povo. Assim, por meio de dois Estados, Manuel não hesita em flirtar com comunidades religiosas. Para ser o amigo dos muçulmanos, confia no Qatar, para ser o dos judeus, em Israel.

    Espécie de Calígula assassinando o pai Ayrault, impaciente de lhe roubar o lugar, mordendo os calcanhares de Hollande, para finalmente levar uma abada nas presidenciais.

    E pensar que desfila agora em Espanha com os fascistas!

    Pobre Espanha que recupera de tais filhos pródigos.

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  4. alvaro silva20:55

    Afinal Franco só cobrou com juros módicos as benfeitorias da Frente Popular, nomeadamente os assassinatos de cidadãos. de religiosos e de políticos monárquicos, Quem cometeu esses crimes não podia ficar impune e teve que pagar por isso. Do ouro do banco de Espanha que o Negrin e o Caballero mandaram para Moscovo também serviu para acertar as contas. Quem ganhou ganhou e ganhou bem e livrou-nos dum comunismo feroz aqui ao lado.

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  5. Anónimo22:48

    Lamentavelmente deriva-se um pouco para os extremismos na Europa, mas atenção pois em Espanha não é só o VOX um partido extremista, o Podemos e outros partidos regionais também o são.
    Veja-se com atenção as propostas do líder do Podemos apresentou a Sánchez para formarem governo no início da legislatura que agora termina.

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  6. Anónimo15:08

    FSC tem de ser coerente. Não pode ser "amigo da Espanha", anti-independentismo-catalão, defensor da Espanha "una e eterna" e, depois, não apoiar aqueles que defendem o sonho que ilumina os espanholistas: uma nação grandiosa, castelhana, ibérica!

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