quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Orelha de aço

O plenário da Assembleia Geral das Nações Unidas é um espetáculo, historicamente sempre iniciado pelo representante brasileiro, que se prolonga por vários dias. Na semana mais importante, que agora decorre, inicia-se a audição dos representantes de vários Estados, que debitam por ali os seus discursos - através de presidentes, primeiros-ministros, ministros dos Negócios Estrangeiros ou embaixadores. Em princípio, o limite de cada um é de 15 minutos, mas esse tempo raramente é respeitado. O record é de Fidel de Castro, que falou várias horas...

A ordem das inscrições para intervir é sempre objeto de critérios misteriosos de agendamento, que faz com que, não obstante os países serem todos “iguais”, alguns sejam sempre “mais iguais” do que outros, isto é, quem tem força fala mais cedo, a horas “simpáticas”. Em regra, a importância de um país mede-se pela colocação que consegue obter na ordem das inscrições, para representantes de nível protocolar idêntico. E, aos olhos dos governantes que se deslocam a Nova Iorque, a “performance” de um embaixador é sempre discretamente medida à luz da capacidade de fazê-los “subir” na lista, que acabará também por ser uma prova indireta de “influência” de que disfrutam no secretariado-geral.

Nas horas nobres dos primeiros dias, a sala da Assembleia Geral está relativamente cheia. Mas quando, ao final do dia, o delegado de uma pobre ilha do Pacífico ou das Caraíbas, ou de uma obscura República perdida em África ou na Ásia Central, toma a palavra, vai deparar-se com um deserto nas cadeiras. Ou então, apenas verá, atrás de algumas placas, um delegado de “décima linha”, um diplomata novato, que os países deixam sentado, apenas para fazer número. Porquê? Porque o país desse delegado, numa eleição futura para qualquer órgão do universo onusino, pode precisar no voto do país interventor e o gesto de simpatia de ter tido alguém a ouvi-lo pode acabar por ter um reconhecimento. Ah! E há sempre que ter lá alguém a ouvir os países amigos e, no caso de Portugal, temos muitos.

Esses diplomatas anónimos, que ali ficam por uma escala obrigatória, com um auscultador de plástico, horas seguidas, a ouvir platitudes de figuras de países que com toda a certeza nada dirão de relevante, alguns chamam, no jargão dos corredores da organização, os “orelhas de aço”, porque é preciso ter uma estrutura forte nas cartilagens auditivas para suportar o incómodo daquele plástico cinzento (não sei se a cor ainda é essa).

Na imagem, um “orelha de aço” vietnamita sucumbiu, talvez momentaneamente, ao bombardeamento de palavras e exerceu o seu direito à sesta. Porém, como a fotografia está já a correr mundo e Hanói não brinca em serviço, quem sabe se, daqui a meses, o seu destino não será um posto em Tashkent ou Ouagadougou?

2 comentários:

Anónimo disse...

Lido.

Despacho:

Ler-se também artigo abaixo indicado para se tirarem conclusões.
Deferimento a aguardar.

https://www.agoravox.fr/tribune-libre/article/le-sens-de-l-existence-de-l-homme-207930

Anónimo disse...

Imagino os desgraçados que tiveram de ouvir os discursos de horas do maldito do Fidel Castro...