Foi num verão, logo no início dos anos 70. Eu andava à boleia pela Europa. Vinha de uma semana em Amesterdão. O Dam era então uma espécie de Meca em forma de praça, onde, ao fim do dia, encontrávamos quase todo o mundo que queríamos conhecer e as vidas que, sem o saber, queríamos cruzar. Na véspera, tinha dormido numa pousada da juventude em Bouillon, no sul da Bélgica, perto de Namur. Agora, estava noutro meu objetivo, bem perto, o Luxemburgo.
Depois de me instalar no “auberge de jeunesse”, bem lá no fundo da cidade (passei lá há pouco tempo e ainda existe), fiz o reconhecimento turístico habitual e jantei, muito cedo, na pousada.
Ia a começar o caminho de subida de Pfaffenthal para a cidade alta (o útil elevador só surgiu bem mais tarde), para por lá testar a noite, quando passei num largo, junto a um café e ouvi falar português. Parei, dei boa tarde (ainda não era noite) e entrei na conversa dos quatro ou cinco compatriotas, sentados num muro, com cervejas na mão. Eram operários da construção civil. Viviam, disseram-me, numas camaratas ali perto. Deitavam-se muito cedo, porque a jornada abria na alvorada, e por lá se alojavam também italianos, que eram muitos mais e de quem se queixavam, pelo barulho e falta de higiene. (A certa altura, porém, passou um italiano e entraram todos numa algaraviada amigável de gestos e palavras soltas).
Notei que começaram a revelar-se menos abertos quando, por mera curiosidade e para alimentar conversa, lhes perguntei de onde eram, como tinham vindo, há quanto tempo, coisas assim. Distraído, não percebi logo que, muito provavelmente, todos tinham vindo “a salto”, alguns fugidos à tropa e com situações complicadas. Eu, diletante, ao responder à questão de como ali chegara, disse-lhes que andava à boleia. Olharam para mim de soslaio. “Veio de Portugal à boleia?”, interrogou-me um deles. Manifestamente não acreditaram, quando contei que já andava naquilo há umas semanas, que tinha estado em Paris, tinha ido à Dinamarca e à Alemanha, etc. “Mas você vem à procura de trabalho?”. Disse-lhes que não, que só andava a passear. “Sem carro?” A certo ponto, notei que se olhavam entre si, já desconfiados de quem eu afinal era e o que pretendia ao tê-los abordado. Percebi o incómodo, arrumámos cordialmente a conversa e eu fui à vida, imaginando o que teriam ficado a magicar sobre aquele português, que usava pêra, a dar-se ares de intelectual e com uma conversa estranha. Aprendi bastante nessa curta troca de palavras, que, como vêem, me ficou na memória por este meio século.
Voltei a lembrar-me, há pouco, do episódio no Luxemburgo com esses portugueses, mas em especial dos seus parceiros italianos das camaratas, ao ver, na net, a altercação entre o filo-fascista ministro italiano do interior e o ministro dos Negócios Estrangeiros luxemburguês. Este último, farto de ouvir o discurso anti-imigrantes que punha em causa a política de abertura do seu país, não se conteve e, com rudeza justificável, lembrou, interrompendo a litania de Salvini, que o Luxemburgo recebeu no passado muitos italianos que para lá iam à procura das condições de vida que a Itália lhes não dava para alimentar os seus filhos. E terminou com um sonoro: “Merde, alors!”. E, minutos depois, saiu da sala e não compareceu à “foto de família”.