sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Franco Nogueira - política e diplomacia


Passam 100 anos sobre o nascimento de Alberto Franco Nogueira, o diplomata que foi o último ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar. Quando, em 1975, entrei para as Necessidades, Franco Nogueira tinha deixado de ser ministro há seis anos. Durante esse tempo, foi tido, com fortes razões, como figura relevante dentre quantas haviam resistido, pela direita, à alegada abertura política de Marcelo Caetano, que o suplantara na substituição de Salazar e com quem viria a incompatibilizar-se politicamente, abandonando funções meses depois. 

Numa casa em que, à época da minha entrada, a preocupacão maior era afirmar internacionalmente um regime ainda convulso, gerindo os impactos diplomáticos da descolonização, estava já distante a imagem daquele que conduzira, com inegável brilhantismo formal, uma política externa que ele mesmo viria a ter de aceitar como um fracasso histórico, embora sem nunca renegar, com assinalável coerência, os princípios em que a mesma se apoiava. 

Ao ser visto como alguém ainda mais radical do que Caetano, que acabara de ser derrubado, Nogueira tornara-se já, naquela época, figura de um passado ainda mais longínquo do que realmente o era no tempo. A sua associação à extrema-direita anti-Caetano, após 1969, que o levara a colaborar na revista “Política” e a transformar-se numa espécie de ideólogo dos “ultras”, iria manter abafada, por muito tempo, a memória que dele ficara nos claustros do palácio das Necessidades: a imagem de um ministro combativo, dirigindo com firmeza uma política externa que, nem pelo facto de já não ter o menor sentido no seu tempo, deixava de reclamar empenhamento, competência e qualidade técnica para a sua execução. 

Quando assumiu funções como ministro, em 1961, Nogueira soube rodear-se, para a “missão impossível” que era defender o patético colonialismo tardio de Salazar, de alguns daqueles que eram, de facto, os melhores quadros da casa. Parte importante desses diplomatas viria, aliás, a transitar, com raros sobressaltos, para o novo tempo democrático. É que, salvo alguns profissionais que tinham aliado o seu trabalho diplomático a uma militância estado-novista que os levara a excessos de zelo, a grande maioria dos profissionais do MNE era gente, ainda que em geral de tendência conservadora, que tinha um espírito aberto, talvez produto de um cosmopolitismo induzido pela carreira. Encerrado que fora o tempo da diplomacia de defesa da política colonial, que profissionalmente lhes coubera executar, e de que muitos se orgulhavam tecnicamente, esses quadros que haviam servido com Franco Nogueira viriam a dedicar-se, com idêntico empenho, às novas tarefas que o poder, agora democraticamente legitimado, lhes destinou. 

Franco Nogueira, um homem intelectualmente muito capaz, também fora um desses espíritos abertos, que o tempo se encarregou de ir fechando, passando de um mundo intelectual e literário liberal da juventude a um conservadorismo radical, que o levaria a transformar em hagiografia o que ele pretendia fosse uma biografia de Salazar, com o grau de rigor do que nela escreveu a ressentir-se desse viés. Não obstante, outros testemunhos que deixou, com a clara escrita que era a sua, detalhando a doutrina justificativa da política externa e colonial da ditadura que lhe coubera conduzir, levam a que mereça hoje uma justa atenção, como conceptualizador e brilhante ator diplomático - ele que foi um embaixador que, curiosamente, para o ser nunca precisou de chefiar nenhuma embaixada, mas a quem pouca gente não credita, ainda hoje, um singular talento como político condutor da nossa diplomacia. 

Há dias, alguém me perguntava o que ainda sobrevive dos tempos de Franco Nogueira na nossa cultura diplomática contemporânea. Respondi que praticamente nada, porque essa herança seria, afinal, a de Salazar, de quem Franco Nogueira foi um criativo seguidor e intérprete. Nem mesmo já sobram os resquícios de um tropismo soberanista anti-europeu, da desconfiança no multilateralismo, do anti-americanismo ou do preconceito anti-espanhol, reflexos que, por alguns anos ainda, emergiram aqui ou ali, em democracia, como parte da herança política subliminar da diplomacia da ditadura.

8 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

« Quando assumiu funções como ministro, em 1961, Nogueira soube rodear-se”… de alguns daqueles que eram, de facto, os melhores quadros da casa. Parte importante desses diplomatas viria, aliás, a transitar, com raros sobressaltos, para o novo tempo democrático.”

Transitar da ditadura para a democracia parece mais fácil que o contrário. Mesmo em países mais desenvolvidos e com instituições democráticas mais antigas, sempre me impressionou a facilidade com a qual esses “trânsfugas” da ditadura se inseriram na nova sociedade democrática.

O que não quer dizer que não houve os “trânsfugas” que “se ajoelharam” ao transitarem da democracia para a ditadura…

Mesmo De Gaulle foi buscar Papon, chefe da polícia de Vichy, et Mitterrand, Bousquet, personagens mais que duvidosos da política e que deviam ter prestado contas em vez de serem promovidos…

Franco Nogueira, de quem li a “bíblia” sobre Salazar, todo ocupado a “legitimar” a politica estrangeira do ditador, não viu o caos do interior, com o seu cortejo de assassinatos políticos, torturas, e opressão. Não disse nada…

Esta capacidade, por vezes, de certos diplomatas a só olhar para um lado, avalizando com o seu silêncio, todo o totalitarismo do sistema ao qual pertencem, sempre me deixou dubitativo sobre as qualidades morais de alguns diplomatas.

Napoleão foi um dos grandes dirigentes que disse alto e forte o que pensava do diplomata Talleyrand, e o seu “portrait” do “bas de soie” muito sugestivo.

Anónimo disse...

Se se substituisse o sintagma "Franco Nogueira" por "Joachim von Ribbentrop" ou "Galeazzo Ciano", este texto daria arrepios, principalmente com uma frase como "a imagem de um ministro combativo, dirigindo com firmeza uma política externa que, nem pelo facto de já não ter o menor sentido no seu tempo, deixava de reclamar empenhamento, competência e qualidade técnica para a sua execução". Compreendo o seu elogio, mas cai num formalismo serôdio. É bom não esquecer que a política desse senhor provocou mortes e não é por ser "nosso" que o colonialismo é menos mau. Sim, somos de gerações diferentes. Uma coisa é aceitar que Mário Soares se tenha apoiado na estrutura que já havia nas Necessidades (como já aqui sublinhou), outra coisa é este texto.

Anónimo disse...

Lido.

Despacho:
É uma visão do mundo a fazer uma interpretação da política portuguesa antes da descolonização.
Não deferido.

[Os radicais livres são sempre os melhores. Os outros radicais são sempre os maus da fita. Para uma observação histórica tem de se ter maior distanciamento ideológico.]

Joaquim de Freitas disse...

Anonimo de 21 de Setembro de 2018 às 11:34:




Por ter aceitado de servir durante anos, cegamente, um regime ditatorial, até ao fim, Ribbentrop pagou-o em Nuremberga . Ciano , tentando escapar antes da derrocada, metendo-se à sombra do rei, mas traindo o ditador, seu sogro, pagou-o imediatamente em Verona.

A Revolução dos Cravos, não somente pagou bilhetes de viagem para o Brasil, para uns, mas recuperou as “competências”, de outros, entre os quais Franco Nogueira.

Quando penso no assassinato de Humberto Delgado e da sua secretária, e de Bento de Jesus Caraça, no Tarrafal, obra do ditador, não posso impedir-me de considerar que a Revolução foi clemente com os facínoras.

Anónimo disse...

O anti-espanholismo de Franco Nogueira não só faz todo o sentido como devia ser doutrina na nossa diplomacia.

Anónimo disse...

Pronto, em suma: o homem era tecnicamente competente e diligente na defesa dos ditames do chefe. Suponho que isto seja uma avaliação sarcástica...

Anónimo disse...

Apoio com veemência a opinião do anónimo das 15,30. Aliás uma das enormes vantagens de pertencer à União Europeia é a defesa contra os Espanhóis, defesa essa antes apoiada na Inglaterra e em França, conforme as circunstâncias. Se não fosse isso ... já éramos.
João Vieira

PS. Sim sou profundamente pró europeu, mesmo federalista, respeitando a terrinha de cada um.

Anónimo disse...

O Leitor joaquim de Freitas tem toda a razão. "A Revolução de Abril foi clemente com os facínoras". E foi. Deixou seguir para o Brasil o Caetano e o Tomaz (ou Thomaz), entre outros, e ainda hoje, no MNE, no dia 17 deste mês, lá se fez uma evocação desse individuo, um fascista, o Franco Nogueira, porque o regime era fascista e ele não só o defendeu como criticou quem veio depois (a Democracia).
Franco Nogueira foi uma importante personagem desse regime, que a Europa e os EUA à altura condenavam, e bem, por ser uma Ditadura (de cariz fascista). Foi a cara desse regime salazarista nos palcos da Diplomacia Internacional. E, nesse sentido, uma figura a condenar, com repulsa. Franco Nogueira estava de acordo com o Colonialismo, a Ditadura, a ausência de Direitos Humanos e Laborais, a ausência de eleições Democráticas, de uma imprensa livre, etc, etc.
Era pois uma criatura que não nos deve mercer qualquer tipo de respeito.
Ainda me espanto como foi possível o MNE e o Instituto Diplomático terem promovido a sua Evocação! Sobretudo, com este tipo de Governo. Enfim...