terça-feira, 4 de setembro de 2018

Artur Portela


Para as novas gerações, o nome de Artur Portela (assina Artur Portela Filho, para não se confundir com o pai, um grande nome do jornalismo português de outros tempos) dirá pouco ou nada. E, no entanto, essa figura consagrada do mundo da publicidade revelou-se uma personalidade muito original na nossa imprensa, devendo-se-lhe também algumas incursões interessantes na literatura e até na história.

Ontem, o “Público”, pela mão de Nuno Ribeiro, fez-lhe uma boa entrevista que revela um Artur Portela que, nos seus 81 anos, está bem atento ao quotidiano político, com os mesmos valores e acutilância a que nos habituou nos anos 70, em especial na sua polémica coluna “A Funda”, publicada no “Jornal do Fundão” e no “República”. E ressalto aqui a dimensão polémica, porque Portela não fugia a ela - e quem é do meu tempo e estava atento a esses meios tem, com certeza, bem presente uma deliciosa e famosa troca de argumentos com Mário Castrim, no “Diário de Lisboa”.

Na entrevista, Portela fala-nos de figuras do nosso atual quotidiano político e também de outras que marcaram os tempos democráticos, sempre com o desassombro e frontalidade que são a sua marca de água. Foi pena a entrevista não ser mais longa, pelo que pressinto que Portela está ainda a dever ao país um bom livro de memórias.

Tive o gosto de conhecer pessoalmente Artur Portela há poucos anos, num almoço organizado por um amigo comum, precisamente com esse objetivo. Ter-lhe-ei dito que, com gosto, tinha lido praticamente todos os seus livros - e não foram tão poucos como isso. Mas julgo que lhe não referi que, então com bastante menos prazer, porque estava à época no outro lado da “barricada”, recordava bem os seus (politicamente ácidos) editoriais no “Jornal Novo”, um órgão de combate político criado por quem se opunha ao PREC, financiado pela CIP, como Nuno Ribeiro lembrou, numa das questões que lhe colocou. Deixo uma fotografia dele, desse tempo.

Na língua portuguesa que Portela usa, de forma imensamente criativa, nos seus textos é clara a influência de Eça - de quem teatralizou “A Capital”, o que motivou um artigo crítico meu, no “Comércio do Funchal” (ou seria no “& etc”?), intitulado “Ora Eça, ó Portela!”, creio que em 1972. Hoje posso confessar que invejava muito a Portela a agilidade da sua escrita, servida por uma cultura rica e diversificada, própria da gente de muito boa qualidade que, por essa altura, andava pelo nosso jornalismo. Ao lê-lo ontem, dei-me conta de que, infelizmente, nos dias de hoje, já por lá não há muita gente assim.

1 comentário:

Manuel Silva disse...

Senhor Embaixador:
Hoje é mais gente que dá pontapés na gramática a cada vez que abre a boca.
E quando algum leitor lhe chama a atenção, ou não responde ou que reage mal.
Como fazem alguns comentadores deste blogue e de outros.
Hoje confunde-se muito a mensagem com o mensageiro: se o mensageiro faz um reparo à mensagem, ataca-se este e desfoca-se a discussão do que está em causa.
A convivialidade sã entre as pessoas anda muito por baixo.