Julgo que por uma questão etária, a Revolução cubana nunca fez parte das mitologias políticas a que fui particularmente sensível. A mim, disse-me sempre muito mais, por exemplo, a guerrilha vietcong no Vietnam do que a aventura da Sierra Maestra. Mesmo as peregrinações posteriores de Guevara, do Congo à Bolívia, levei-as à conta de um voluntarismo romântico, simpático mas algo inconsequente.
Dito isto, é impossível, para alguém da minha geração, não ter tido alguma afetividade pelo movimento que conduziu ao derrube de Fulgêncio Baptista e pelo desafio orgulhoso aos Estados Unidos em que Cuba se erigiu, em especial num tempo em que Washington, à luz de uma cínica realpolitik motivada pela Guerra Fria, se tornou protetor de várias sinistras ditaduras, um pouco por toda a América Latina.
Li o que julguei necessário sobre Cuba e, um dia, passei por lá uns dias, bem fora das zonas turísticas. E, devo confessar, não gostei muito do que vi. Chocou-me a desesperança triste de alguma gente com quem falei.
Já não vivo num mundo maniqueísta que me leve a justificar a flagrante ausência de liberdades e a vida miserável - repito, miserável - daquela gente como contraponto óbvio das pressões externas, nomeadamente com os malefícios do ridículo bloqueio americano.
Por tudo isso, os 90 anos de Fidel, ontem completados, não suscitaram em mim qualquer particular emoção.