Eu pensava que Eça de Queiroz era um dos poucos consensos nacionais (verdade seja que não consultei nem Vasco Pulido Valente nem Alberto Gonçalves, esforçados profissionais nacionais do dissenso). Porém, há uns meses, um amigo surpreendeu-me. Trata-se de alguém bastante conhecido e que, tendo eu feito uma citação qualquer de Eça, me disse: "Eça, sendo um excelente escritor, reduziu o país a algumas caricaturas autoflagelatórias com que hoje nos comprazemos de forma comodista".
Devo dizer que percebo esse amigo, embora discorde dele a 1000%. Eça fez um retrato a preto e branco de um país em decadência. Uma decadência que não parou, desde então. Foi um retrato escrito ao longo de anos, o que significa que esse próprio esquiço de Portugal também não deixou de acompanhar a evolução do próprio Eça, o modo como a sua relação com o país se foi alterando - e esta é uma realidade que frequentemente não é tida em conta, como se tivesse havido apenas um "único" Eça.
Foi o realismo, às vezes quase maniqueu mas sempre com algum traço afetivo, com que Eça nos serviu uma multiplicidade de "characters", que fez com que o país passasse a dispor, projetados numa escrita genial, de uma multiplicidade de figuras-limite que, a partir de então, "colamos" às sucessivas realidades do país. Aos Conselheiro Acácio ou os Dâmaso Salcede continuamos a encontrá-los pelas esquinas e, olhando para a comunicação social de hoje, quantos Melchior ou Palma Cavalão não andam ainda por aí! Ou alguém tem dúvidas que "A Corneta do Diabo" era a premonição evidente de um tablóide matinal de cujo nome, como diria Cervantes para um certo lugar na Mancha, não me quero lembrar?
O meu colega de profissão José Maria Eça de Queiroz morreu faz hoje, dia por dia, 116 anos. Com 54 anos. Em Paris, seu último posto diplomático, como sucedeu a outras figuras portuguesas admiráveis, como Mário Sá Carneiro, Afonso Costa ou Gérard Castello-Lopes. Morrer deve ser chatote, mas Paris é, com toda a certeza, uma bela cidade para se morrer.
