terça-feira, 16 de agosto de 2016

Eça agora




Eu pensava que Eça de Queiroz era um dos poucos consensos nacionais (verdade seja que não consultei nem Vasco Pulido Valente nem Alberto Gonçalves, esforçados profissionais nacionais do dissenso). Porém, há uns meses, um amigo surpreendeu-me. Trata-se de alguém bastante conhecido e que, tendo eu feito uma citação qualquer de Eça, me disse: "Eça, sendo um excelente escritor, reduziu o país a algumas caricaturas autoflagelatórias com que hoje nos comprazemos de forma comodista".

Devo dizer que percebo esse amigo, embora discorde dele a 1000%. Eça fez um retrato a preto e branco de um país em decadência. Uma decadência que não parou, desde então. Foi um retrato escrito ao longo de anos, o que significa que esse próprio esquiço de Portugal também não deixou de acompanhar a evolução do próprio Eça, o modo como a sua relação com o país se foi alterando - e esta é uma realidade que frequentemente não é tida em conta, como se tivesse havido apenas um "único" Eça.

Foi o realismo, às vezes quase maniqueu mas sempre com algum traço afetivo, com que Eça nos serviu uma multiplicidade de "characters", que fez com que o país passasse a dispor, projetados numa escrita genial, de uma multiplicidade de figuras-limite que, a partir de então, "colamos" às sucessivas realidades do país. Aos Conselheiro Acácio ou os Dâmaso Salcede continuamos a encontrá-los pelas esquinas e, olhando para a comunicação social de hoje, quantos Melchior ou Palma Cavalão não andam ainda por aí! Ou alguém tem dúvidas que "A Corneta do Diabo" era a premonição evidente de um tablóide matinal de cujo nome, como diria Cervantes para um certo lugar na Mancha, não me quero lembrar?

O meu colega de profissão José Maria Eça de Queiroz morreu faz hoje, dia por dia, 116 anos. Com 54 anos. Em Paris, seu último posto diplomático, como sucedeu a outras figuras portuguesas admiráveis, como Mário Sá Carneiro, Afonso Costa ou Gérard Castello-Lopes. Morrer deve ser chatote, mas Paris é, com toda a certeza, uma bela cidade para se morrer.

10 comentários:

Luís Lavoura disse...

outras figuras portuguesas admiráveis, como [...] Afonso Costa

Afonso Costa foi admirável? Homessa!!! Fez algumas coisas admiráveis (equilibrou o orçamento nacional em 1913 e fez uma boa lei de separação entre o Estado e a Igreja) mas, no cômputo geral, foi um político bastante desprezível.

Anónimo disse...

Eça não qualificou Portugal como um pais em decadência, mas sim a atitude da sociedade em decadência, isso sim que continua até hoje. O jeitinho sempre foi português, foram os portugueses que levaram para o Brasil. E foi lá que tomou fama, pois no âmbito internacional, o Brasil sempre foi mais relevante.

Anónimo disse...

Pelo sim pelo não e até nova ordem é preferivel viver em Paris do que lá morrer.

JPGarcia

Anónimo disse...

O último posto de Eça de Queiroz,como aliás a generalidade dos postos que ocupou(com excepção de Havana),não era diplomático mas consular.Nessa altura,e até 1966,as carreiras eram distintas.Eça foi consul.

Francisco Seixas da Costa disse...

Todos os cônsules eram diplomatas. Ou de como o preciosismo engana.

Anónimo disse...

Eu, que não percebo nada de diplomacia, diria em qualquer caso, que Cônsul e Embaixador são ambos diplomatas. Eça é que é Essa!..
Coitado do Eça, não morreu de velho!

Anónimo disse...

Eça está longe de ser consensual. Fernando Pessoa bem lhe topou o sarro provinciano, questão que Eduardo Lourenço também desenvolveu.

Embora o escritor oitocentista tenha evoluído, no grosso da obra reproduz essa atitude provinciana e decadentista que já era antiga quando nela pegou e que se prolonga até hoje - como se verifica, aliás. no que escreve gente como o anónimo das 16 de agosto de 2016 às 22:43.

Um comprazimento em desdenhar do que é português e de complexo de inferioridade em relação ao lá de fora - um comprazimento que medra nesse complexo de inferioridade e na total incapacidade para fazer auto-crítica, como se quem fala e quem escreve não se fosse também parte do problema que se critica e como se não existisse pátria além disso.


Como bem dizia Diogo Ramada Curto a propósito de Vasco Pulido Valente, o historiador tanto critica Portugal e os portugueses mas fê-lo sempre como funcionário público "a mamar da teta da vaca que semanalmente criticou na imprensa." Aliás, digo eu, se esteve em Oxford, foi também à conta do erário público.


De Alberto Gonçalves não falo. Compará-lo a Eça ou a Vasco Pulido Valente é metê-los em companhia que só os deslustra. O reclamado e intelectualmente indigente sociólogo nunca fez nada na vida além de escrever uma crónica semanal no Correio da Manhã, primeiro, e no DN, depois. Sem currículo profissional, não passa de um fascista, defensor da tortura. Na revista Sábado, nos tempos do actual director do pasquim Observador, fez o elogio do militar que em 1973, durante o golpe de Pinochet, esmagou a mão com que o chileno Vítor Jara tocava guitarra - "um contributo para a música como não houvera desde Bach e do seu contraponto".

Francisco Guerra Tavares disse...

100% de acordo caro Embaixador. Uma escrita genial sobre realidades (e não só as portuguesas, vd Eça jornalista) que infelizmente não se alteraram, apenas se mostram sob diferentes formas.

Anónimo disse...

É verdade que Eca tinha um toque provinciano: o deslumbramento com algumas características de culturas estrangeiras. Mas o essencial da suavescrita, que o torna universal e leva Bloom a incluí-lo entre os 100 melhores escritores da época, e a natureza humana. E essa que muda, e não a decadência portuguesa, aliás não tão decadente assim na sua vida e certamente não agora, pese embora o esforço da política europeia em nós atirar de volta à idade da pedra, acresce que Eca não criou apenas charcters como o Acacio ou Abranhos, criou personagens imortais, com os Maias, avô e neto, a Maria Edurda, o Acacio, a criada do Primo Basilio, etc.
Fernando Neves

Anónimo disse...

Senhor Embaixador FN,

Infelizmente, muitos dos que por cá cultivam Eça não o cultivam pelos bons motivos achados por Bloom. Cultivam-no em modo digest, em modo de citação, deslumbrados com o que acreditam ser a perspicácia do autor que terá topado uma qualquer essencialidade portuguesa - como se houvesse essencialidades, como se houvesse um fado, como se Portugal, como os outros países, não tivesse coisa más e coisas boas. Na altura, e agora.

Aliás, alguns dos que mais ruidosamente convocam a conversa do deslumbrado provinciano em nada se distinguem do criticável - veja-se Vasco Pulido Valente, Barreto, Filomena Mónica e outros da nossa galeria de ridículos.

Felizmente, Eça passou dos crimes de padres para Os Maias (um romance genial e desmesurado, apesar de tanta caricatura) e para A Cidade e as Serras. O romance passado Leiria é um catálogo de tipos, de frases mastigadas para o leitor perceber os tratantes que tinha à frente. Uma obra de personagens caricatura, os cónegos apresentados com vícios simbólicos não fosse o leitor estar distraído.

Bem andou Camilo quando em crítica ao Crime do Padre Amaro disse que um padre português nunca mataria o filho. Trá-lo-ia para casa e criava-o como sobrinho. Eça trouxe para o português um estilo límpido, com influência, por exemplo, no já centenário Vergílio Ferreira.

Mas a literatura portuguesa é também outras coisas. E isso, tantas vezes em vertigem barroca, tantas vezes saturada de uma densidade metafórica, traz-lhe espessura - um tempo e um modo que os parvenus são incapazes de ler e que por isso preferem atacar: uma literatura que afinal só é tão verde como as uvas da raposa do outro.