sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Segurança europeia

Na passada terça-feira, no Instituto de Defesa Nacional, fui um dos oradores num debate sobre a "Estratégia global da União Europeia para a Política Externa e de Segurança". 

Há pouco, ao consultar alguns apontamentos em que assentei as minhas intervenções, dei-me conta de que terei porventura sido mais frontal do que habitualmente, nos comentários que então fiz. Neles coloquei em causa (e vi que alguns dos presentes poderão ter ficado chocados com isso, mas talvez a simplificação a que a língua inglesa nos conduz tenha tambëm alguma culpa nisso) a utilidade de um exercício que, a meu ver, não incorpora as "lições aprendidas" ao longo da mais de uma década passada desde um texto idêntico, datado de 2003. 

Fico com a sensação - e disse-o abertamente - que o mero compilar de interesses estratégicos, princípios, prioridades e implicações, em que supostamente todos estamos de acordo, pode ser "agradável à vista" mas esquece deliberadamente coisas muito importantes. Também não basta listar ameaças: é preciso hierarquizá-las e, nessa medida, priorizar os meios para lhes fazer face, com as implicações financeiras correspondentes. 

Desde logo, convém ter claro, e assumi-lo, o facto de não estarmos hoje todos no mesmo barco - desde a divisão Norte-Sul que o caso grego sublinhou, à divisão Oeste-Leste evidenciada pela crise dos refugiados e, noutra dimensão, nas perceções face ao caso ucraniano, passando pelos crescentes problemas internos que afetam a compatibilidade do comportamento de alguns Estados membros com a necessidade de observância com alguns princípios democráticos, de separação de poderes, de liberdade dos media, de respeito pelos refugiados, etc. Tudo isto afeta a nossa unidade, do mesmo modo que, em especial no último caso, atinge a autoridade da Europa como "produtor de segurança", reduzindo a sua legitimidade como "soft power" perante terceiros. 

Acho, além disso, muito cínico que não debatamos e iludamos (por inevitáveis? para não incomodar alguns?) questões como o modo bizarro como a UE trabalha nas Nações Unidas, com a França e o Reino Unido a furtarem-se à coordenação prévia com outros Estados membros no Conselho de Segurança. E reparo agora que não me lembrei de referir essa anomalia, hoje já interiorizada como normal, da Alemanha (e, às vezes, da França) se arrogar representar "de facto" a UE em contactos externos, como é o caso com a Rússia/Ucrânia ou a Turquia - com a senhora Mogherini, "dona" deste papel, a "vê-los passar". E não seria tempo de se fazer um balanço ao trabalho e resultados do Servićo Europeu de Ação Externa, bem como do "saldo" da sua articulação com a diplomacia bilateral dos Estados membros da UE?

Outro ponto que então destaquei, teve a ver com o quadro global das relações externas. O nosso "olhar" é tão eurocêntrico que parece que não cuida em destacar as mudanças sensíveis que se processam noutros espaços, desde a potencial influência, na relação transatlântica na própria configuração futura da NATO, da nova política dos EUA para a Ásia, os novos equilíbrios subregionais em África, as mutações ocorridas no mundo dos "emergentes" e as crises de representação institucional à escala global (instituições de Bretton Woods, G8 e G20, etc).

O que mais me chocou no texto apresentado foi o facto de, perante o "terramoto" em matéria migratória e de terrorismo por que a Europa está a passar, pela "casa em chamas" em que vivemos e que pode pôr em causa a sobrevivência do projeto europeu, agravado pelo afastamento britânico e pelas ameaças separatistas em alguns Estados, o texto burocrático preparado por Bruxelas transmita a sensação de que navegamos em feliz "velocidade de cruzeiro", num ambiente "business as usual", como se nada de grave se passasse. Fiz notar que esta aproximação é, em termos de "diplomacia pública", quase escandalosa e ofensiva para sociedades que vivem "stressadas" por crescentes angústias e dúvidas e que, seguramente, se sentirão chocadas por uma linha como a que é seguida pelas instituições de Bruxelas na preparação deste texto.

2 comentários:

Antonio Cristovao disse...

Gostava de referir, que a visão burocrata que devemos dialogar em Bruxelas e só depois é suposto haver uma posição da UE, esquece. quanto a mim, a triste figura que o Camarão, Holandinho e os EUA secundados por alguns "dirigidos" europeus, que se não fosse a sra Merkl, teriamos agora a UE atolada com a "geoestrategia" anglosaxonica; bem como a miseravel posição perante os refugiados, de muitos(mais chocante a do Camarão e seita da City, que tendo muito a ver com a desestabilização na Siria; Libia e Iraque, são capazes das tristes figuras de Calais, por ex.

Anónimo disse...

Caro Antonio Cristovao

"geoestrategia" anglosaxonica"

esqueceu-se dos francius! a estratégia também era desses! (esse pais magnifico que permite aos seus cidadaos judeus fazer o serviço militar em israel, vende armas as tribos medievais da arabia saudita, permite a proliferacao cogumelica de salafista wahabitas jihadistas e afim e depois se queixa da marine, que nao é la grande pera tambem...)

cumprimentos