segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Memórias


Numa livraria do aeroporto de Madrid, acabo de deparar com as memórias de Jorge Dezcallar, um diplomata espanhol que conheço pessoalmente e que teve um percurso profissional muito interessante, com uma passagem pelos serviços de "intelligence" do seu país. 

Comprei o livro, claro, e vou lê-lo logo que possa. Para colegas de profissão, é sempre curioso tentar perceber o que cada um retirou da sua experiência, o modo como "leu" o seu papel na execução das políticas dos seus governos e, muito em especial, as "learned lessons" dos contactos e das histórias vividas, nos diversos países onde operou. 

Pela minha experiência de leitor compulsivo deste tipo de obras, o saldo destes exercícios é muito variado. Já li memórias fascinantes de diplomatas que ficaram longe de atingir o topo das respetivas carreiras, mas que foram capazes de produzir relatos interessantes e instrutivos. E também já tive grandes deceções em face de escritos de colegas, que embora altamente qualificados, não conseguiram "decantar" nada de especial daquilo que testemunharam ou vivenciaram. 

Há dois defeitos tradicionais neste tipo de memórias. 

O primeiro prende-se com a qualidade da escrita: em todo o mundo, nem sempre os melhores embaixadores são os que melhor escrevem e até se suspeita que alguns grandes diplomatas não arriscam escrever relatos da sua experiência profissional por não terem a certeza de conseguir produzir um trabalho que se situe à altura do prestígio que conseguiram. Muitos diplomatas não têm uma escrita apelativa para um público fora do "métier", por se terem entretanto aculturado a um "oficiês" pouco interessante. E isso pode inibi-los de meterem mãos à escrita.

O segundo liga-se ao bom-senso. Como se diz na minha terra, alguns diplomatas, aliás como ocorre com muitos outros profissionais, "não se enxergam", isto é, não conseguem relativizar o seu papel e tendem a colocar-se "em bicos de pés", não percebendo que, na esmagadora maioria dos casos, são apenas atores secundários, quando não meros figurantes, por melhores profissionais que sejam, de uma "peça" em cujo cartaz figuram em letra necessariamente pequena. O equilíbrio é uma arte difícil, não sendo fácil ter o sentido da medida. Uma coisa é clara: nunca seremos os melhores juízes de nós próprios.

7 comentários:

jj.amarante disse...

Um diplomata não faz crítica de livros, apenas refere do que se lembrou quando os leu.

ignatz disse...

por momentos pensei que tinha ido ao funeral do bowie, afinal foi só um livro de duty free.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ó p'ró ignatz tão bem comportadinho...

Anónimo disse...

Jorge Dezcallar, para além de ser um grande amigo, teve um carreira diplomática brilhante. Foi embaixador de Espanha em Rabat, na Santa Sé e em Washington, e desempenhou funçōes importantes no seu país, umas mais públicas que outras.

JPGarcia

Francisco Seixas da Costa disse...

Foi em sua casa que o conheci. JPGarcia

Anónimo disse...

Sr. Embaixador, poderia recomendar outros livros de memórias na mesma linha?

ARA

Anónimo disse...

Caro Embaixador Francisco Seixas da Costa:

Já aqui o escrevi, mas sublinharia de novo. As suas histórias sobre a carreira diplomática que exerceu ao longo de tantos anos e que tem partilhado no seu blogue e no Facebook são para mim deliciosas e muito instrutivas. Talvez considere que passá-las para o papel talvez não valha a pena. Pela minha parte penso que vale e espero que concretize esse projeto.

Cumprimentos

Paulo Santos