terça-feira, 12 de janeiro de 2016

António Monteiro Cardoso (1950-2016)

Um dia, numa entrevista, dei-me conta de que o António tinha, como "lugares de sonho" cidades que me eram, em absoluto, comuns: Ouro Preto, Mariana, Tiradentes e Sabará. Seria por sermos ambos transmontanos? Talvez, mas nunca falámos sobre isso. Aliás, longamente, falámos muito poucas vezes, embora comungássemos muitas outras coisas, como era o caso do futebol.

Já não sei como nos conhecemos. Terá sido nos anos 80, creio. Seguramente, através da Ana e, depois, também da Joana. Recordo que lhe escrevi um dia, a felicitá-lo pelo excelente (e surpreendente) "Boas fadas que te fadem". Guardo uma troca de notas sobre isto.

Ontem, regressado a Lisboa, a meio de um jantar, fui surpreendido pela notícia da morte de António Monteiro Cardoso. Sabia-o doente. Não nos víamos há bastante tempo, porque as nossas vidas são o que são e, às vezes, só as mortes nos juntam.

Recordo o António como um homem caloroso, de sorriso aberto, por onde perpassava sempre alguma ironia. Saído dessa escola agitada que foi Direito de Lisboa em 1975, ex-MRPP, depois de se deter no Direito da Informação, ao tempo em que trabalhou com o Alberto Arons de Carvalho, o António passou posteriormente a dedicar-se à Historia, onde fez uma obra diversa mas muito interessante, chegando mesmo a colaborar com o António Pinto da França, no tratamento da reedição das suas "Cartas Baianas".

Era um homem de uma grande cultura, de palavra fácil e sólida, escrevia muito bem e tinha uma visão algo "renascentista", que a sua e minha geração (o António, contudo, era mais novo do que eu) foi a última, entre nós, a cultivar.

O António desaparece agora. É hoje enterrado em Freixo de Espada-à-Cinta. Tenho pena de nunca ter discutido com ele o seu conterrâneo Guerra Junqueiro. Tenho a certeza de que iria aprender bastante e, tenho para mim, ele estaria seguramente de acordo com o meu pai, que sempre se recusou a considerá-lo um "poeta menor".

Neste dia triste, deixo um beijo sentido para ti, Joana.  

5 comentários:

Anónimo disse...

Hi

Carlos Beja disse...

Inteiramente merecido este magnífico texto sobre o António.Carlos beja

Vitor Pataco disse...

Tive o privilégio de conhecer e trabalhar com o Monteiro Cardoso no inicio dos anos 90 na Direcção Geral dos Desportos/Instituto do Desporto. Há vários anos que não estava com esta extraordinária personalidade e fui hoje surpreendido com a triste notícia. Recordo a boa disposição que transportava permanentemente, um sentido de humor refinado e a incrível facilidade que tinha, nas muitas sessões de trabalho que realizámos, em converter um conjunto de ideias sobre um qualquer tópico numa proposta de diploma legal, que dias depois viria a ser publicado em Diário da República, com a assinatura do repectivo membro do governo. Eram sessões muito produtivas mas acima de tudo muito divertidas porque eram sempre temperadas com o seu apurado sentido de humor.
Não conheço a familia e por isso aproveito, abusivamente, o post de Seixas da Costa para enviar um abraço à familia.
Vitor Pataco

Eduardo Saraiva disse...

Trabalhei com o António na Direcção-Geral dos Desportos, onde fazia assessoria jurídica e tínhamos uma boa amizade. Depois, cada um foi para seu lado . . . e hoje encontro-me com esta notícia. Paz à sua alma
Eduardo Saraiva

Joana Cardoso disse...

Querido Francisco, muito obrigada pelas palavras dedicadas ao meu pai. Não consegui responder no facebook, respondo por aqui em nome da família. Ficámos muito sensibilizados, o texto apanha-o muito bem. Aproveito para agradecer também a quem que escreveu acima. Vamos aproveitar o lançamento da re-edição do livro Boas Fadas, no dia 11 de Fevereiro, para lhe fazer uma homenagem. Darei notícias. Um grande beijinho, muito sentido também, Francisco. Joana