sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Voltemos a 2009...

Imaginemos o seguinte cenário, em 2009.

Eleições legislativas. José Sócrates não consegue renovar a maioria absoluta. Só obtém 93 deputados (de facto, teve 97). É, contudo, o partido mais votado.

O PSD obtém 91 (teve 81) e o CDS obtém 25 (teve 21). PCP e BE somados têm apenas 21 deputados (de facto, tiveram 31)

A líder do PSD é Manuela Ferreira Leite. A campanha, marcada por uma bipolarização feroz, foi terrível entre os dois lideres. Nessa sequência, nenhum entendimento entre Sócrates e Ferreira Leite era viável. Mal se falavam.

Cavaco Silva chama Sócrates, líder do partido mais votado, para formar governo.

Sócrates, com uma solução minoritária, como todos lembrarão, pergunta a cada um dos restantes partidos se acaso querem entrar para um governo de coligação, para formar um executivo de maioria absoluta. Todos recusam.

Sócrates decide então avançar com um governo minoritário. O governo apresenta o seu programa na AR. É rejeitado pelo PSD e CDS (na altura não tinham força para o fazer), com abstenção do PCP e Bloco.

É então que, nesse cenário, PSD e CDS, que dispõem coligados de uma maioria absoluta (116 deputados), fazem um acordo entre si e informam o presidente que têm uma solução maioritária.

Alguém acredita que Cavaco Silva não daria posse a Ferreira Leite como primeira-ministra?

Mas, mais importante ainda, passa a alguém pela cabeça que a questão dessa aliança "dos que perderam as eleições" se ia colocar? Como responderiam PSD e CDS o argumento da sua "ilegitimidade" fosse colocado?

5 comentários:

aamgvieira disse...

N seu discurso na AR em 2009 ,dise:

"A terminar, José Sócrates pedia ao Parlamento que permitisse o Governo entrasse “em plenitude de funções, para cumprir o Programa que é o seu – tal como os portugueses o sufragaram, quando chamados a escolher o melhor para o país. (…) O que se pede aos partidos da Oposição representados no Parlamento é uma atitude de responsabilidade ao serviço do bom funcionamento das instituições democráticas e do interesse do País. Tenho a certeza de que isso não será pedir demais!”.

visado pela 324ª delegação da verdade de ideologias

disse...

Esta sua comparação não tem cabimento nenhum.

Em primeiro lugar, há múltiplos precedentes de coligações pre e pos eleitorais entre o PSD e o CDS. Assim, alguém que vote no PSD tem perfeita consciência de que o seu voto pode levar o CDS ao poder (e vice-versa), mesmo quando estes partidos não se apresentam coligados a eleições. Dificilmente se poderá dizer o mesmo a respeito de quem vote no PS. Eu, que por várias vezes votei no PS, nunca o teria feito, se achasse possível uma coligação pos-eleitoral com os partidos da extrema esquerda. Ao coligar-se com a extrema-esquerda, o PS de António Costa está a trair os eleitores do centro (que escolheram desta vez confiar-lhe o seu voto).

Mas mais, as diferenças programáticas entre o PS e a coligação são muito menos profundas do que as diferenças que separam o PS da extrema esquerda.
Basta pensar em questões como o equilíbrio das contas públicas, o respeito pelos compromissos internacionais e o papel do estado na economia. A grande fratura dos dias de hoje não é entre esquerda e direita, é entre moderados e extremistas. Serve isto para dizer que o programa eleitoral do PS dificilmente se coaduna com o programa eleitoral do Bloco ou da CDU porque divergem em tudo o que é fundamental. O que é o que o PR deve fazer se o programa de governo da tal frente popular se afastar do programa eleitoral do PS em questões tão essenciais como o equilíbrio das contas públicas? Isto tem um nome: fraude. E o PR não lhe pode dar cobertura porque foi precisamente eleito pelas pessoas que estão hoje a ser defraudadas. Esta é a hora de Cavaco Silva. Esperemos que saiba estar à altura das suas obrigações.

ps. É triste ver um partido como o PS na mão de meia dúzia de caceteiros como inefável João Galamba.

disse...


ps2. E quem nos dera que a Dr. Manuela Ferreira Leite tivesse sido PM. Uma coisa é certa: não teríamos tido cá a troika.

jose reyes disse...

"A terminar, José Sócrates pedia ao Parlamento que permitisse o Governo entrasse “em plenitude de funções, para cumprir o Programa que é o seu" - E depois veio o assalto ao pote .

aliceencantada disse...

Bom dia Sr. Embaixador.

Permita-me também um exercício de regresso ao passado, não a Outubro de 2009 mas a Setembro de 2015.
As sondagens, todas, anunciavam a derrota do PS, até então impensável.
Se, perante este cenário, o líder do PS colocasse sequer a possibilidade de uma aliança com os partidos radicais de esquerda, não teria ele mesmo com essa possibilidade, garantido a maioria absoluta à coligação PaF?
Estou certo que sim. Mas isso sou eu a elaborar sobre cenários passados que nunca existiram e sobre os quais a validade da argumentação não passa de uma questão de fé. Neste caso a minha.

Envio-lhe cordiais saudações,

Amadeu Oliveira