segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Negociar na rua


Não sei se os portugueses apreciam este mais do que lamentável espetáculo de reuniões entre líderes partidários, que deviam ter lugar num ambiente de discrição e mútuo compromisso de confidencialidade, serem de imediato comentadas, em contexto público, pelos próprio líderes e por figuras das direções dos partidos. 

Não me parece sério, e muito menos eficaz, efetuar conferências de imprensa no termo de rondas negociais. Por este andar, qualquer dia vale mais a pena transmitir as conversações em direto. Se é total transparência o que se pretende... 

Também me parece triste que se tenha banalizado a mútua divulgação de correspondência trocada. É por demais óbvio que o objetivo destas cartas já não é informar os destinatários das intenções dos remetentes, mas apenas jogar para a plateia mediática e, em particular, para o seu próprio serralho de prosélitos. 

Como é do bê-á-bá de qualquer negociação, o conhecimento público das propostas rigidifica as posições, impede recuos, mesmo que táticos, e vai destruindo o terreno de compromisso possível.

Não adianta apontar o dedo a quem tem a culpa original deste striptease negocial. Este é um triste episódio onde não há inocentes, só há culpados. E eu lamento ter alguns amigos no seio deles.

2 comentários:

Jaime Santos disse...

Presumo que o Sr. Embaixador se refere às conversações entre a PàF e o PS. Era claro desde o início que um acordo não interessa a nenhuma das partes. Ao PS porque está à procura de uma solução alternativa e porque mesmo que deixe passar o programa de Governo da PàF (na ausência dessa dita alternativa) não quer estar constrangido por acordos de longo prazo, até pelo sinal que daria à sua Esquerda, à PàF porque deseja governar com o seu programa e admitirá negociações limitadas no caso da aprovação dos Orçamentos, que são no fundo o que interessa. Estas 'negociações' servem às duas partes para cada uma mostrar, como diz, firmeza à sua legião de prosélitos, e para não serem acusadas pela outra perante a opinião pública de total falta de flexibilidade. Se estivessem genuinamente interessadas em negociar, não faziam este teatro. Dadas as clivagens e dado o que os respetivos líderes disseram relativamente à indisponibilidade em negociar com a outra parte durante a Campanha Eleitoral, nada disto é de espantar. Repare que as negociações à Esquerda têm sido bem mais discretas, com uma ou outra fuga convenientemente colocada para forçar o parceiro a concessões...

Carpe Diem disse...

Penso que a situação se tem arrastado um pouco, apesar de estarem a ser cumpridos todos os passos determinados pela Constituição. Lamento este impasse e acredito que existem alguns Partidos que procuram uma maior exposição mediática com as famosas Conferências de Imprensa depois das reuniões com o Presidente da República.