sábado, 14 de março de 2015

Memorabilia diplomatica (V) - A viagem impossível

Foi noutro março, em 1976.

Eu estava em S. Tomé, ao serviço do nosso então Ministério da Cooperação, para tentar acabar com uma greve dos professores cooperantes que, meses antes, tinham sido enviados de Portugal para o novo país. No jardim da residência do embaixador, entrei à conversa com uma velha empregada, a quem procurei indagar como é que os santomenses estavam a viver a sua independência recente.

"Eu não sou de cá, sou de Cabo Verde", respondeu-me a senhora. "Vim para S. Tomé há muito tempo".

"E agora, com o seu país também independente, tenciona regressar? Tem lá a sua família...", comentei.

Demorei uns segundos a entender o olhar triste da mulher e a indizível tristeza da sua resposta: "Eu não posso regressar nunca à minha terra. Não vou voltar a ver a minha família. Não tenho dinheiro para voltar. Vou morrer por aqui."

Tudo o que eu sabia sobre a tragédia dos "contratados" caboverdeanos, levados para um trabalho quase escravo nas roças santomenses, nada representava, ao lado da lição da vida daquela mulher, que nunca teria suficientes posses para a aventura que representaria regressar à sua terra natal, com a qual não havia já ligações marítimas e as vias aéreas eram muito escassas, complicadas e caras. 

Anos mais tarde, ao ouvir Cesária Évora cantar o "Sodade", onde se fala, em crioulo, de "esse caminho longe, esse caminho para S. Tomé", percebi melhor o drama criado pela dispersão humana no nosso passado colonial.

Ontem, ao ver anunciado num jornal que as autoridades de S. Tomé vão finalmente conceder a nacionalidade aos descendentes dos caboverdeanos imigrados no país, lembrei-me dessa minha conversa com a empregada da nossa embaixada.

(Reedição de historietas da diplomacia por aqui já publicadas)

5 comentários:

Portugalredecouvertes disse...


infelizmente não faltam casos de milhares de deslocados nos dias de hoje com regressos que se tornam uma viagem impossível,
sem contar as tragédias das guerras civis que se seguiram "à liberalização dos povos"
é só um "pensamento" para que não se pense que os homens de hoje não criam tragédias como o fizeram os homens de ontem

mr vadaz disse...

Pois, essa situação dramática já devia estar resolvida há muito tempo num entendimento entre as autoridades portuguesa, cabo-verdiana e são-tomense. Ainda estão ali nas roças de São Tomé muitos caboverdeanos a viver numa situação dramática sem que ninguém, principalmente o Estado de Cabo Verde, olhe para a situação deles.

São sequelas da descolonização e se o Estado de Cabo Verde não soube solucionar os problemas dos seus cidadão, também não estava à espera que outros façam por ele. Contudo, é de salutar este pequeno passo dado.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Chico Amigo

Vivia em Luanda e fui duas vezes a São Tomé: uma antes do 25 de Abril para visitar Mário Soares ali desterrado e outra,já depois da data redentora para levar combustível que estava esgotado no arquipélago.~

Duas viagens curtas,mas em tive a oportunidade de conhecer o drama dos cabo-verdeanos. Na primeira o director do "aeroporto" cargo que acumulava com bagageiro, continuo, controlador aéreo, telegrafista e abastecedor de combustível para aeronaves, disse-me que era imigrante de segunda geração, pois os seus pis tinham ido como "contratados" para ali.

E não podia sequer visitar a terra dos seus progenitores porque não tinha escudos. Acumulava funções,mas não acumulava vencimentos...

A segunda foi uma aventura em que entrei voluntariamente. Transportador: um DC3 Dakota da TAAG (Transportes Aéreos de Angola, herdeira da DTA)de que eu então era secretário-geral e cujo logótipo eu próprio desenhei (e que ainda hoje se mantém que com cores diferentes.

Carga: 1.200 litros de gasosa acondicionada em bidões atados com cordas para não deslizarem no avião sem bancos; tripulação: comandante Madueno Barbosa (cabo-verdeano) e meu grande Amigo e... eu.

Foi um susto permanente, pois se os desgraçados bidões se soltassem lá se ia o payload (equilíbrio da carga calculado antes da aeronave descolar) do venerável Dakota (da II Guerra), lá se ia o idoso DC3 e, principalmente, lá se iam os dois malucos Gusmões...

Pois, qual foi o meu espanto quando depois de termos aterrados quem nos apareceu foi o múltiplo e único funcionário aeroportuário de São Tomé o supracitado que nos contou a sua miserável estória.

Safou-se. O Madueno Barbosa reuniu uma assembleia-geral ad hoc cujos dois membros (adivinham quem...) votámos por unanimidade a deliberação do órgão colegial, por unanimidade e aclamação da proposta do comandante.

Ele pagaria a passagem ida e volta do semi-compatriota Areliano (assim mesmo, sem u) Francisco Pereira e eu trataria da instalação do premiado em casa do Sr. Manuel Apolinário, onde vivera com a Raquel quando fomos assistir ao Quinto Aniversário da Independência de Cabo Verde e conversar com o meu Amigo de longa data Pedro Pires, então primeiro-ministro.

Já chega, já te roubei imenso espaço e o escrito (comentário?) já foi mais comprido do que a espada do Dom Afonso Henriques.

Mas, um dia destes contarei com mais pormenores e, portanto, maior desenvolvimento, essa viagem a São Tomé. Na Travessa. Fica prometido; o problema é saber quando...

Abç

José Neto disse...

Malhas que o Império tece...

Anónimo disse...

Bonito texto.