terça-feira, 22 de julho de 2014

Israel

Na minha vida diplomática, dei-me conta de que criticar a ação internacional de Israel obrigava sempre a um "disclaimer", implícito ou explícito, sem o que se erguia o risco de cair, de imediato, na jurisdição dos atentos polícias do espírito: cuidar em não poder ser acusado de anti-semitismo e nunca deixar de referir que o povo judeu foi vítima da violência nazi. 

A ajudar a este temor reverencial soma-se, desde o primeiro momento, um racismo anti-árabe, que condicionou o discurso popular. Tutelados por regimes retrógrados, embrulhados em panejamentos que os indiciavam noutro patamar da civilização, os árabes são-nos mostrados como uma espécie de bárbaros, apenas desejosos de "deitar os judeus ao mar". Por isso, e porque não eram aceitáveis os métodos extremistas da Fatah ou o não são os das várias seitas em que a revolta palestiniana se balcaniza, aos olhos de muito mundo passou a "valer tudo" por parte de Israel, desde os assassinatos da Mossad ("extra-judicial killings", na linguagem eufemista das Nações Unidas) às incursões sem limite pelas terras vizinhas. Ninguém ousa lembrar que Israel se recusa a cumprir as resoluções que a ONU (já agora, sem oposição dos EUA) aprovou, muito embora se levante um escarcéu se outros países procederem de forma similar (desde logo, o Iraque).

Durante a "guerra fria", Israel estava do lado "de cá" e os árabes do "outro lado", embora se soubesse que as coisas não eram bem assim. Os judeus eram o povo perseguido, rodeado de "facínoras" que aproveitariam o seu menor descuido para o esmagar. Por isso, para o ocidente, era de regra apoiar, sem limites, tudo o que pudesse ser apresentado em favor desse "enclave" não árabe, que "dava jeito" quando era necessário (sem que ninguém tivesse de "sujar as mãos"), por exemplo, para dar uma lição às ambições nucleares iranianas ou ver-se livre de alguns terroristas, esquecendo leis. É que, neste "racismo nuclear" que por aí anda, o Irão não pode ter a arma atómica, mas Israel está aparentemente "isento" da observância do Tratado de não-proliferação.

Os EUA, mobilizados pelo lóbi judaico, neutralizam toda a atitude que possa limitar a liberdade do Estado israelita. A Europa, com o ferrete da guerra a marcar-lhe a memória, vive entre piedosos protestos perante os "exageros" de Telavive e os negócios com a constelação dos governos árabes. Estes, com os conflitos entre si a prevalecerem hoje sobre a sua acrimónia face a Israel, vivem mais preocupados em fazer sobreviver os seus heteróclitos regimes do que se sentem mobilizados para a causa palestiniana. 

O absurdo de tudo isto é que, se alguém se atrever a afirmar que Israel tem o indeclinável direito de ver respeitadas as fronteiras que lhe foram consagradas pelas resoluções da ONU, é imediatamente acusado de ser inimigo jurado do Estado judaico. E se ousar dizer que, em troca da segurança desse território, garantida, por exemplo, pela colocação de forças internacionais de paz, protetoras dessas mesmas fronteiras, Israel deve prescindir de quaisquer ambições territoriais e recuar na construção de colonatos em territórios que ninguém reconhece como seus, de imediato fica crismado de anti-israelita, provavelmente de anti-semita e, ainda com alguma probabilidade, sei lá!, de simpatizante nazi. Dei-me conta que não falei de Gaza. Para quê?

Artigo que hoje publico no "Diário Económico"

9 comentários:

patricio branco disse...

dificil, sem duvida, o mais cómodo para um país como portugal é dizer que apoia as resoluções das nu sobre o problema, a declaracão tal da ue sobre isso, e portanto um que reconheça o outro, as fronteiras, negociem, se entendam, não ataquem ou provoquem, quanto a poderem defender se já estamos em terrenos movediços, etc.
para os eua ou outros países é diferente, pesa o lobby judaico, a luta contra o terrorismo, o aliado que é israel,etc
mas este conflito é biblico e não vai terminar.
o egipto entretanto saiu do problema saindo de gaza e abrindo relações com israel, passos que alguns outros países arabes têm medo ou não querem tomar mas deviam.
temos pano para mangas nisso.
não sei qual é actualmente a posição da russia, preocupada com outras guerras.

e já agora, viajar na el al é certamente mais seguro e pontual que viajar na nossa tap, tão boa que estava a nossa aerolinea e tão baixa que está a ficar.

Anónimo disse...

Eu até sou de opinião que as Nações Unidas devem dar um território algures, no centro da América central ou no centro da França Exagonal, aos portugueses da diáspora (portugueses da diáspora já se diz sim senhor) para criarem aí um Estado que lhes falta. O que é preciso é fazer a contagem de quantos somos: 5 milhões, dez milhões, quarenta milhões ?
Ora bem, precisamos de um território suficientemente grande mesmo que não seja limitado pelo golan...
José Barros

Defreitas disse...

Excelente , Senhor Embaixador.

Claro que sabemos todos que tudo começou pela criação dum estado religioso em 1945, o estado de Israel, sobre a terra dum povo que não tinha nenhuma responsabilidade na segunda guerra mundial.

Este estado desenvolveu-se em seguida através da colonização violenta contra os Palestinianos, mas o que é particularmente detestável é o facto que os Israelitas fazem desde sempre um jogo duplo absolutamente hipócrita: anunciar oficialmente o desejo de paz, mas continuando de facto a massacrar seres humanos e a confiscar novos territórios.

Como o Senhor muito bem escreve, desde há muitas dezenas de anos, a chave da política medio-oriental dos EUA foi o apoio a Israel: tomam posição nas negociações de paz e, cada ano, Israel continua a receber três mil milhões de dólares de ajuda americana – ou seja um sexto da ajuda estrangeira dos EUA. O que demonstra que este apoio não se pode só explicar por interesses estratégicos comuns , nem por imperativos morais.

Só se pode explicar pela influência dum lobby que trabalha activamente a orientar a politica estrangeira americana num sentido pro-israelita, que exerce pressões eficazes sobre o Congresso, os presidentes e a sua administração e que goza duma grande influência nas universidades e os media ( que frequentemente lhes pertencem !).

Este lobby desempenhou, como muito bem sabe, um papel preponderante na politica americana no Médio Oriente sob a administração Bush em nome da " luta contra o terrorismo", como o prova a desastrosa invasão do Iraque, a confrontação com a Síria e o Irão.

Israel é o cão de guarda americano no Médio Oriente., com as missões que bem explica no seu "post".

Excepto para aqueles que são cegos de nascença, todos os sionistas sabem que não existe a menor esperança de obter um acordo dos Árabes da Terra de Israel para que a "Palestina" se transforme num pais unicamente judeu.

Os EUA são responsáveis do massacre actual e dos do passado e do futuro, porque sem o seu apoio Israel não poderia perseguir a opressão e o massacre do povo Palestiniano.

Mas a União Europeia também tem culpas no cartório, ao seguir a linha que consiste a pôr em "equidistância" a vítima e o opressor, e desenvolvendo ao mesmo tempo uma cooperação com Israel nos domínios militar, económico e politico.

Textos como aquele que o Senhor Embaixador enviou para o "O Económico", mesmo se não conheço a sua audiência, só podem ajudar a abrir os olhos àqueles que por diversas razoes não vêm onde está o mal. A paz depende do numero daqueles que são conscientes do perigo...

Anónimo disse...

Enfim li uma explicação cabal e simples para esta questão tão complexa e que divide tanto a vida do mundo ocidental.

JP disse...

Excelente análise com a qual estou totalmente de acordo.

Resta-me acrescentar o silêncio oficial dos canais diplomáticos ocidentais face à aviltante desproporção da reacção de Israel.

Mais de 600 mortos em 15 dias, 80% dos quais civis e 20% dos quais crianças.

Isto não é uma guerra. É um genocídio de gente que nem sequer pode fugir da zona.

Como dizem os ingleses "fish in a barrel".

Anónimo disse...

Touché uma vez mais.
(ainda bem que se reformou)

Anónimo disse...

Continuo a reparar que, em determinados textos, não se tem o cuidado necessário para se distinguir "povo judeu" de "Estado de Israel". São coisas diferentes e até antagônicas. O Estado de Israel é sionista, concorda com a superioridade e imposição de uma "raça" sobre outra - algo completamente contrário aos princípios do Judaísmo. O povo judeu é aquele que se converteu à fé judaica, independentemente da sua raça. Por isso, é errôneo referir-se que judaísmo é uma raça. É uma religião, que deve ser respeitada como as outras. Muitos judeus são contra a invasão e massacre de inocentes em Gaza e Cisjordânia. Muitos judeus nem se identificam com o Estado de Israel. Existem manifestações de judeus contra o que está a suceder em Gaza mas isso é perfeitamente "abafado" pela mídia que está ao serviço do Estado de Israel e que conta com o vergonhoso apoio/complacência de EUA/UE/ONU….. A maior ameaça ao Estado de Israel, maior ainda que o apoio mundial ao sofrimento da Palestina, será o apoio do próprio povo judeu que não concorda com esta violência e massacre contra um povo que não tem como se defender. São muitos os judeus que não concordam com o que se está a fazer. Quando o mundo entender que não se trata de uma causa do povo judeu mas apenas de um Estado violento, sionista e criminoso será um primeiro passo para o conflito se resolver e perder a "legitimidade" que alguns ainda insistem conferir…...

Anónimo disse...

Peço desculpa mas não percebi nada do comentário do anónimo das 21:24

Defreitas disse...

Pena é que o anónimo das 14:13 não compreenda, porque a ultima frase do comentàrio do anonimo das 21:24 está perfeita e diz tudo: '.

"Quando o mundo entender que não se trata de uma causa do povo judeu mas apenas de um Estado violento, sionista e criminoso será um primeiro passo para o conflito se resolver e perder a "legitimidade" que alguns ainda insistem conferir…..."


O que quer dizer que ninguém é contra a religião judaica mas sim contra os que a exploram para justificar os crimes do Estado de Israel.