De há muito que assumi a modéstia de só me pronunciar de forma definitiva não sobre o que sei mas apenas sobre aquilo sobre que julgo saber alguma coisa. E, mesmo assim... Vem isto a propósito da economia. Todos já percebemos, em definitivo, que, tal como a guerra é uma coisa demasiado importante para ser deixada exclusivamente aos militares (como disse Clemenceau), os últimos anos deixaram claro que é suicida deixar a economia apenas nas mãos dos economistas, que quase sempre nos "explicarão amanhã por que é que as coisas que previram ontem não aconteceram hoje". Mas daí a que qualquer fabiano se arrogue o direito de mandar bitaites sobre os "spreads" ou a "saída limpa", com ar de entendido, vai uma grande distância. Muito embora a economia não deva ser do múnus exclusivo dos economistas, as coisas necessitam de ser estudadas antes de, sobre elas, se poder formular uma opinião que se tenha por séria. E o ambiente de poluição ideológica e partidária dos assuntos que por aí se vive não ajuda ao tratamento racional destas coisas.
Surgiu agora uma nova proposta sobre a reestruturação da dívida. À hora a que escrevo, está a ser discutida na Faculdade de Direito de Lisboa. Pensei passar por lá para assistir ao debate, mas uma leitura do texto convenceu-me a não fazê-lo. Com o devido respeito pela opinião dos seus autores, entre os quais reconheço (alguns) nomes qualificados e que respeito, fiquei com a sensação de que se trata de um "nonstarter", de uma construção teórica inexequível, irrealista e que seria detrimental para muitas camadas da população, representando, além disso, uma brutal mudança de paradigma político-económico, à revelia do que a imagem do país necessita. Se acaso houvesse a vontade política de a pôr em funcionamento, o que nunca acontecerá, Portugal ficaria mais isolado do que nunca no plano internacional. Digo isto como um não especialista, mas apenas como cidadão que tem vindo a interessar-se por estas coisas da economia, sem sequer chegar a ter a pretensão de chegar ao grau de dúvida que eles próprios mantêm entre si...
