quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Jean-Claude Juncker

Um dia de 1998, acompanhei António Guterres ao gabinete do primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker. A Comissão europeia tinha acabado de apresentar a sua primeira proposta para as "perspetivas financeiras" para o período 2000-2006, o orçamento plurianual de onde decorrem os fundos comunitários. O resultado, maugrado as diligências que havíamos feito nos meses anteriores junto de diversos setores da Comissão, era dececionante para o nosso país. Agora, tornava-se importante mobilizar os nossos amigos europeus a fim de fazer evoluir a proposta, em moldes que pudessem acomodar os nossos interesses.

Nunca mais me esquecerei das palavras espontâneas que ouvimos de Juncker, logo que António Guterres acabou de lhe expor o nosso problema: "António, podes contar comigo a 100%. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para beneficiar Portugal". E fê-lo, a partir daí, de forma exemplar, passando a defender-nos em todos os contextos possíveis. Não houve Conselho europeu em que Juncker não tivesse estado abertamente ao nosso lado, movimentando-se, além disso, junto de outros parceiros para fazer valer os argumentos portugueses.

Lembrei-me disto há minutos, ao ouvir Jean-Claude Junker salientar, nestes que são os seus últimos dias à frente do Eurogrupo, a importância de Portugal ser recompensado pelos esforços que tem vindo a fazer no seu programa de ajustamento estrutural, com a possível redefinição desse mesmo programa à luz da evolução da conjuntura externa. Uma posição pouco comum, mesmo à revelia de outras, nesta Europa onde a solidariedade é uma palavra escassa nos dias que correm.

Jean-Claude Junker é um exemplo de um grande europeu, da escola de um Jacques Delors, uma das poucas personalidades que, pela sua inigualável experiência e pela profunda coerência e verticalidade que o carateriza, merece o respeito da grande maioria de quantos se movimentam pelos corredores da União europeia. Mas, do mesmo modo, a sua independência face aos grandes Estados europeus, bem como o modo frontal como a assume, não terão sido estranhos à sua liminar exclusão, quando o seu nome surgiu mencionado para a presidência da Comissão europeia.

Se Portugal tem verdadeiros amigos entre os dirigentes desta Europa, a experiência demonstrou-me que Jean-Claude Juncker é o mais dedicado dentre eles.

5 comentários:

Anónimo disse...

Ele também falou no FMI... Na coerencia deles...

as-nunes disse...

Um homem que se está a revelar um grande amigo de Portugal.

A dizer uma grande verdade. Para um país, que quer ficar na UE e está sujeito a medidas tão gravosas para sobreviver, bem podia ser beneficiado com um "perdão de dívida", que é a única forma de podermos sobreviver a este naufrágio em que estamos envolvidos.

Mas era igualmente fundamental que se resolvessem rapidamente os casos de polícia que envolvem os roubos de milhares de milhões de Euros dos cofres públicos!

EGR disse...

Senhor Embaixador:o senhor Primeiro Ministro já agradeceu os elogios de Junker masn na verdade, o que lhe interessa é o regresso aos mercados.
Portanto nada de revisão do porgrama de ajustamento porque,como se sabe, está tudo a correr bem.

Helena Oneto disse...

Jacques Delors et Jean-Claude Junker são homens de carisma e grandes obreiros da União Europeia que vão ficar na memoria colectiva.

A exclusão de JC Junker para presidente da Comissão foi um erro enorme com as conseqências que sabemos. Nunca "percebi" como foi possivel os comissarios europeus preferirem ileger (duas vezes ?!)e contra a vontade do Parlamento europeu, o ultra-liberal "gris" Durão Barroso.

Helena Oneto disse...

Ooops... Ler "eleger" com "e" e não com "i" de infligir...