Dormi lá há dias. É um belo, tradicional e renovado hotel do Norte de Portugal, com uma sala de refeições magnífica, a lembrar outros tempos, e com uma cozinha agora com o dedo do meu amigo Rui Paula, mas que ainda não experimentei.
Há cerca de dois anos, entrámos lá uma noite, para jantar, com dois casais amigos. Abancámos num extremo da sala e, minutos depois, vislumbrei-o, precisamente do outro lado. Era um colega meu, embaixador, arrulhando, com toda a evidência, imerso num "caso", numa mesa de canto, com uma senhora loira. Nada de pecaminoso, nem de invulgar. Apenas uma curiosidade. Ele "nem" nos via, ela não nos conhecia.
Veio a lista, começámos a escolher e eu, confesso!, não resisti e liguei-lhe pelo telemóvel. Identifiquei-me e ele respondeu, algo incomodado:
- Você desculpe, mas eu agora estou ocupado.
- Eu sei... Só lhe queria perguntar se me recomenda alguma entrada. Houve alguma coisa que o tivesse tentado mais?
Vi-o levantar a cabeça, escrutinando a sala. E lá me descobriu, no outro extremo, a acenar-lhe, sorridente mas convenientemente discreto.
- O abacate não estava mal, esclareceu, pedagógico, numa esforçada tentativa de manter um registo sério.
Agradeci e deixei-o na paz da senhora.