sábado, 31 de outubro de 2009

Lince

O país ficou a saber que o lince regressa à Malcata. Quando já se pensava que o animal tinha desaparecido por completo, até porque se não ouvia falar dele há muito, o esforçado empenho dos protectores da espécie vai recolocá-lo de novo no único habitat onde foi gerado e ficou conhecido, dando-lhe uma nova oportunidade para reproduzir homólogos e espalhá-los no seu ambiente comunitário próprio. Fugidio, habituou quem escrutinava os seus passos com atenção à imagem de um animal palmilhador de montes e vales, só se dando bem entre os seus, que protege e ajuda a alimentar, num sentido gregário muito comum à espécie, reagindo quase sempre com grande desconfiança à aproximação de estranhos. De porte pequeno e ladino, mas sem as defesas de inteligência que caracterizam os animais de qualidade superior, fragilidade que quase levou à sua extinção entre nós, o nosso lince vai agora tentar reocupar os espaços da sua geografia tradicional, na luta eterna pela sobrevivência, a qual, no essencial, passa pela satisfação quotidiana das necessidades que lhe são próprias. O tempo já provou que o lince apenas consegue assegurar tal sobrevida dentro da área onde tradicionalmente se move, por lhe faltarem certas qualidades de agilidade e adaptação, em absoluto indispensáveis para vingar noutros terrenos. Mas porque, como o passado provou, o animal acarreta consigo algumas derivas predatórias, a que quem anda pelas suas zonas se verá forçado a estar atento, corre sempre o risco de vir a ser alvo de actos isolados de reacção cinegética, susceptíveis de porem em causa todo o esforço feito na sua recuperação. O regresso do lince à Malcata é, indiscutivelmente, uma significativa notícia do nosso mundo animal neste Outono.

12 comentários:

Santiago Macias disse...

De momento, o lince está em Silves. Devo dizer, senhor embaixador, que a parte que mais me comoveu foi saber que temos um felino "gourmet". Caçou um coelho, mas não o comeu. Porquê? O bichano está habituado a banquetear-se com pombos vivos e frangos mortos. Esperemos que se adapte bem à mudança de dieta...

Anónimo disse...

Um post muito interessante, mas u tanto ao arrepio do estilo a que nos habituou, Senhor Embaixador. Não o sabia dedicado ao ambiente. Os meus parabéns pela atenção dada ao tema.

Isabel Meirelles

Anónimo disse...

Post muito bem escrito. Uma das obras primas deste blog. Não é, embaixador? NBV

Anónimo disse...

Um belo e nobre animal, provavelmente quase inexistente no seu antigo habitat, a Serra da Malcata, “graças” à acção do Homem, não tanto por lá viver (aquelas serranias não possuem quase povoações), mas pelo que ali tem feito, destruindo uma boa parte daquele eco-sistema e da floresta, onde viveu, durante anos, este belo espécime de felino. Oxalá a sua reintrodução resulte. Para quem não conhece, recomenda-se uns bons passeios por lá, quer de “jeep”, há uns bons trilhos para o efeito, quer a pé. Magnífico! Interessante tema o deste Post. Que se publiquem outros do género! Neste caso, é uma boa e oportuna chamada de atenção para o “nosso” Lince e a sua crítica situação de sobrevivência.
Albano

Anónimo disse...

Os leitores deste blogue são ingénuos. O Senhor Embaixador não o é. O lince é capaz de não ser da Malcata, desconfio.

Albano Reis

Ana Paula Fitas disse...

Vou fazer link no A Nossa Candeia e no A Regra do Jogo. Obrigado pelo texto.
Um abraço :)
Ana Paula Fitas

Anónimo disse...

Ha coisas que nos recordam a infância. O post de hoje é uma delas.
Na sala onde trabalhava a minha mae no Ensino Superior do Ministério da Educaçao havia um poster que muito me impressionava e onde se podia ler : "SALVEM O LINCE DA SERRA DA MALCATA".
Fico comtente por saber que aquela luta passiva num 7°andar da Av. 5 de Outubro em Lisboa deu frutos.

Julia Macias-Valet

Anónimo disse...

Esses "lince"...fez-me lembrar alguém, curioso!
P.Rufino

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara ou caro P. Rufino. Creia que não é sem uma dose de tristeza que vejo ser deturpada, ainda por cima de forma ínvia, a simples intenção deste post: manifestar o júbilo, seguramente partilhado por muitos portugueses, por verem o lince regressar à Malcata. Você parece, contudo, agir como os caçadores da área, que já esfregavam as mãos de contentamento, pela desaparição do bicho. Portugal vai ter muito que andar em matéria de desenvolvimento sustentável. O regresso do lince à Malcata é uma contribuição inestimável para que se reponham os equilíbrios ambientais anteriores. Bem haja quem o permitiu!

Alcipe disse...

E os lincezinhos que vão proliferar por outras serras?

manelserra disse...

Senhor Embaixador, por favor não lhes ligue ! Há sempre pessoas a tentar dar segundos sentidos às situações. Trazem-me recordações de um Colega seu, que repetidamente o fazia a propósito de qualquer situação. Lembra-se ?

Anónimo disse...

Ou muito me engano ou conhecendo o Senhor Embaixador este lince chamava-se António Braga. Ou não?