sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Klaus

O presidente da República Checa, Vaclav Klaus, um eurocéptico que mantém o Tratado de Lisboa como refém, é uma personalidade polémica, com que muitos não concordam, mas cuja coragem e frontalidade ninguém pode contestar. Agora, num gesto que está a embaraçar de novo os círculos europeus, quer colocar uma adenda ao Tratado, como condição imperativa para o assinar. Posso estar enganado, mas acho que acabará por fazê-lo.

Klaus é uma figura histórica importante do período subsequente à queda do muro de Berlim. Com o então líder eslovaco, Vladimir Meciar, é considerado um dos "culpados" pela divisão da antiga Checoslováquia, uma decisão à época muito discutida, mas que hoje parece já consensual.

A acompanhar o primeiro-ministro António Guterres, estive no seu gabinete de presidente do parlamento checo, em 1999. As suas reticências sobre o curso do processo europeu eram muito evidentes e, já à época, abertamente contrastantes com as ideias do então presidente da República, Vaclav Havel, com quem também tínhamos falado. Desde sempre, a República Checa viveu nessa polarização face ao processo integrador, muito por motivo da posição crítica de Vaclav Klaus.

Klaus veio a Lisboa, algures no primeiro semestre de 2000, a título privado, no âmbito de um "think tank" conservador que dá pelo nome de "Le Cercle", que tem como representante em Portugal - o que não será uma surpresa para ninguém! - o meu amigo Jaime Nogueira Pinto. Um jantar do grupo no "Ritz", que reunia umas centenas de membros, oriundos de vários países, tinha como convidado Jaime Gama, ao tempo ministro dos Negócios Estrangeiros, que nele deveria falar sobre a presidência portuguesa da União Europeia, então em curso. À última hora, fui escalado para substituir o ministro na tarefa e, confesso, estava longe de presumir no que me ia meter.

O tempo político estava então dominado pela chamada "questão austríaca", uma espécie de quarentena que os restantes 14 membros da União tinham decidido impor a Viena, como "punição" pela entrada no respectivo governo de um partido de extrema-direita, acusado de propósitos racistas e de simpatias pelo passado nazi. O governo português titulava essa posição de rejeição por parte dos "quatorze" e, por essa razão, era o alvo favorito das fortes críticas que se faziam sentir em meios conservadores europeus. Noutra ocasião, já aqui referi o que ouvi de Jean-Marie Le Pen, no Parlamento Europeu, por virtude dessa mesma atitude.

Apresentado no final do jantar pelo antigo ministro das Finanças britânico, Norman Lamont, a minha prestação correu com normalidade, até que chegou o tempo das perguntas. Sem surpresas, elas foram quase exclusivamente centradas no tema austríaco. E foi Vaclav Klaus quem tomou a liderança do ataque à posição portuguesa e dos parceiros europeus que nós representávamos. Durante bastante tempo, envolvemo-nos num aceso debate de razões cruzadas, sob o olhar deliciado, mas nada simpático para os meus argumentos, de um auditório que oscilava entre um forte conservadorismo e um reaccionarismo quase primário. Vaclav Klaus acabou por ser a "estrela" da noite, acolitado por outras figuras que aproveitaram para, por meu intermédio, "malhar" na Europa que se mostrava crítica da Áustria.

Quando a sessão terminou, confesso que fiquei aliviado. Mas ainda não perdoei totalmente ao Jaime Gama e ao Jaime Nogueira Pinto o "assado" em que me meteram...

4 comentários:

José Barros disse...

Sem pretensões algumas, nem a de me querer imiscuir nos assuntos daquele país mas, não sei porquê, Havel soa-me melhor que Klaus.

Anónimo disse...

Vaclav Klaus era, ao tempo do regime comunista na então Checoslováquia, um relativamente obscuro quadro dirigente, numa empressa estatal daquele desaparecido país. Posteriormente, após a revolução de veludo, aparece com uma postura conservadora (!) e enquanto principal responsável pelo governo antes da separação no que viria a dar origem à R.Checa e à Eslováquia, contribuíu, com atitudes arrogantes e pouco dado a compromissos, contrariando, de algum modo, o que o PR de então, o outro Vaclav, “Havel”, para o desenlance que se conhece. Meciar, um antigo boxeur, era um político tosco, provinciano, mas esperto. E só precisava do tipo de “provocações” que Klaus lhe dirigia, para “justificar” perante a minoria eslovaca, que a única saída para o bem estar daquela região era a independência. Ambos os Vaclav perceberam isto. A diferença, contudo, estava em que Havel não desejava a separação (ao tempo), ao contrário de Klaus, que entendia ser a melhor solução para a futura República Checa, pois, deste modo, poderia vir a aderir quer à Nato, quer à UE, mais cedo e do ponto de vista económico seria melhor, como, de facto, inicialmente veio a suceder. Foi uma atitude oportunista, egoísta possívelmente, mas assente num projecto político pessoal, o de Klaus. Decadas passadas, olhando-se para o que subsistiu, a verdade é que ambos os países nascidos daquela cisão, são ambos dignos membros da Nato e da UE e quer-me parecer que a Eslváquia estará, se calhar, em melhor situação económica até. Havel e Meciar passaram à História, mas Klaus continua. Quem o conheceu logo após a queda do regime comunista na então Checoslováquia (Mário Soares esteve pouco depois naquela jovem democracia, encontrando-se com Havel) e que o vê dele hoje...Continua, porém, pouco flexível e com alguma dose de arrrogância.
Ministro-Plenipotenciário
PS: e ainda me recordo de uma “boutade” pouco simpática para com o então PM Cavaco Silva por ocasião de uma visita oficial, quando se procurava atrair investimento português para aquele país...

Alcipe disse...

Os checos só deram dores de cabeça ao mundo, desde o saudoso Imperador Rodolfo...
a) Subversivo

Helena Sacadura Cabral disse...

Curioso post o do Ministro Plenipotenciário.
E eu, que nada sei de política, pergunto: não estará Vaclav à espera que a Inglaterra mude de governo e passe para Cameron que já fez uns avisos "auspiciosos", como agora se diz aqui, por influência da telenovela brasileira?