quarta-feira, 7 de outubro de 2009

RIA

Para quem não saiba, a expressão RIA significava em Portugal, ao tempo das lutas académicas dos anos 60 e 70, "Reunião Inter-Associações", isto é, encontros de dirigentes estudantis de várias faculdades, normalmente para discussão das "novas formas de luta", nos tempos áureos em que os universitários se uniam em torno de reivindicações que iam bastante para além das propinas e das praxes.

Lembrei-me do ambiente das RIA ao ler alguns comentários deixados no post "Ainda uma gravata", que aconselho que consultem. Aí aparecem citadas figuras que vieram a ser conhecidas em diversos sectores da vida portuguesa, para além de outras que optaram pela sábia serenidade de uma existência sem paragonas.

Neste contexto de luta académica, há um nome que não resisto a trazer à memória, uma figura de dirigente associativo que marcou muito a minha geração e que, infelizmente, já desapareceu: João Crisóstomo. Era uma voz forte e tonitruante que saía daquela bigodaça farfalhuda, sempre marcada por expressões que, as mais das vezes, se colocavam à margem da linguagem estereotipada que caracterizava os nossos discursos associativos. Ouvir o João era uma delícia!

A primeira vez que o conheci, e perante um comentário que terei feito, talvez sugerindo uma qualquer acção, arrumou-me com um definitivo: "Deixa-te disso! Essa questão já foi discutida no 4º seminário!". A timidez de novato impediu-me de perguntar o que era o "4º seminário" e, ao que recordo, andei uns dias, por caminhos ínvios e que não amesquinhassem mais a minha ignorância, a tentar perceber de que se tratava. Lá vim, finalmente, a saber que se estava a referir ao 4º Seminário de Estudos Associativos, iniciativa cujas conclusões obtive e que, deduzo, terá sido antecedida de três outros "seminários" cujo rasto, confesso, nunca encontrei. Pode ser que, agora, algum comentador me possa esclarecer.

O João Crisóstomo era uma verdadeira enciclopédia associativa. Falava de pormenores das lutas académicas anteriores com imensa certeza e conhecimento, citando, com inesperada precisão, factos muito antigos, a que manifestamente nunca podia ter assistido, dada a sua idade. Por essa razão, uma madrugada, numa sala de Económicas, no Quelhas, no auge de uma RIA, que viria a acabar, horas mais tarde, connosco a fugir pelas janelas e a saltar os muros, devido a um cerco da polícia, alguém lhe lançou uma questão provocatória: "Ó João, esclarece lá uma coisa: tu afinal estiveste ou não na greve de 1907, antes da implantação da República?". O João Crisóstomo, já de si sempre propenso a reacções fortes, "passou-se"! E iam voando dossiês!

3 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Belos tempos esses da RIA e dos sarilhos que o José Carlos Ferreira de Almeida, por causa delas, me arranjou!

ié-ié disse...

Bem me lembro do João Crisóstomo (era do Técnico, não era?) e da sua coragem. Ainda estou a vê-lo empoleirado em cima de uma paragem de autocarro, na Cidade Universitária, em Lisboa, frente à Faculdade de Direito, a falar às massas, sem qualquer medo da Polícia.

O Jorge Sampaio foi presidente de uma RIA.

manelserra disse...

Também me lembro de um "Sit-In" no relvado da Cidade Universitária para o qual centenas de estudantes foram convidados pelo João Crisóstomo após se não me engano uma reunião na Cantina. Quando todos os estudantes já estavam sentados na relva e já se ouviam os carros da polícia de choque a subirem do Campo Grande, o João declara através do megafone: - Assim se bate uma pu..eta revolucionária ! A chegada da polícia de choque levou à fuga de muitos estudantes que se refugiaram na Faculdade de Medicina, e devido a isto o próprio Hospital de Santa Maria foi invadido pela polícia nessa tarde.