quarta-feira, setembro 16, 2020

Sintomas de regime


Andando três décadas para trás, por esta altura do ano, terminava a "saison" social do Algarve. A Comporta ainda não estava na moda, o norte, exceção feita a Moledo, cujo nevoeiro nobilitava, nunca foi muito dado a essas coisas.

A sul, nos clubes e locais badalados, cavalheiros sorridentes, de calças encarnadas (raramente tidas por vermelhas) e camisa aberta, acompanhados de senhoras douradas, surgiam pelas páginas das revistas sociais. 

O regime, que espero que ninguém se ofenda que eu chame de "cavaco-soarismo", espelhava ali o "novo Brasil", a riqueza da Europa, a que o país aportara tempos antes. Ministros, empresários, "socialites", "cromos" e penetras, alguns e algumas servidos por "petits noms", ilustravam, de copo na mão, as páginas da "Olá Semanário", publicação que inaugurou o álbum de glórias efémeras do "star system" à portuguesa. 

Noutro registo, consonante com este, surgiam as quintas, os casamentos e batizados de famílias sonantes, os automóveis de luxo, às vezes os helicópteros e os iates, sinais exteriores de uma riqueza que, nem por invejada, ou talvez por isso, deixava de ser mostrada. Cavalos, golfe, ténis e coisas assim faziam parte do cenário. Uma figura aristocrática ou real à mistura, em especial se estrangeira, ajudava muito a compor o ramalhete.

Regressemos ao presente. Pandemia à parte, olhem-se, nos tempos de hoje, as revistas "sociais": os políticos sumiram, os poderosos entraram na clandestinidade social, a que agora se chama discrição. Futebolistas, apresentadores e atores de telenovela ocuparam o espaço de financeiros, da gente "bem" do "tout Lisbonne". Estes não desapareceram, mas vivem hoje sob um outro perfil: mostram menos piscinas e mansões, "glicerinam" as caras dos filhos nas fotografias, acham mesmo "cafona" quem ostenta uma riqueza recente. 

Mas nada de equívocos: o Portugal social não se democratizou, porque as relações de poder e de riqueza não se alteraram por aí além. O que mudou, e radicalmente, foram os modelos de exposição social. E não há nenhum efeito geringonça neste recolhimento, o qual já vem de há vários anos. 

Aliás, algumas famílias e personalidades com poder sempre cuidaram em preservar a sua intimidade, nunca se deixando seduzir, ao contrário de outros, pela vaidade das revistas sociais. Intuíram que as perceções estavam a mudar, que a inveja, cedo ou tarde, seria um sentimento protegido pelo "politicamente correto", que era preciso respeitar o choque provocado pelos contrastes de riqueza.

terça-feira, setembro 15, 2020

Frase

Somos responsáveis pelo que escrevemos, não pelo modo como os outros nos leem.

segunda-feira, setembro 14, 2020

domingo, setembro 13, 2020

“Tal & Qual”


A história da imprensa de um pais ajuda muito a percebê-lo. Os jornais, com a sua ocasional ou prolongada popularidade, acabam por ser o reflexo do modo como foi possível encontrar fórmulas para responder mediaticamente às ondas, episódicas ou sustentáveis, de interesse por parte do público, neste caso leitor.

É na novidade, pelo rompimento com o que até então existia, que reside sempre o êxito das novas propostas. Foi assim com o “Expresso”, repetiu-se com o “Independente”, iria ser o caso do “Público”. Mais recentemente, o “Observador”, na era digital, surgiu um pouco nessa linha de rutura. Nuns casos, a neutralidade política é tentada, noutros impera aquilo que já vi qualificado como “jornalismo de seita”.

Se bem que não catalogável no mesmo clube de jornais, o “Tal & Qual” representou também, na sua época, uma forte novidade, em termos de modelo. Assumiu, em regra, uma assinalável independência no sempre rentável terreno “anti-establishment”, o que, com o peso de alguns nomes que surgiam a fabricar o produto, lhe garantiu, logo no lançamento, uma certa credibilidade.

Com um preço apelativo, o jornal era, esteticamente, um produto algo artesanal, tendo como trunfo o chocante das capas e algumas boas e inventivas “caixas”, num jornalismo que então esgravatava nichos nunca antes navegados, pelo menos daquela forma, servido por reconhecidos profissionais e jovens e talentosos jornalistas, à cata de uma oportunidades de realce, nem que fosse pelo chocante das propostas. Sempre me pareceu haver por ali muito do “tabloidismo” britânico, somado à herança implícita da ousadia do “Reporter X”, de muitas décadas anteriores.

Claro que o “Tal & Qual”, até pela própria natureza do jornalismo que fazia, não resistiu a prestar-se, algumas vezes, a ser instrumento de algumas “vendettas” (mas muito, muito longe desse “benchmark” do género que foi “O Independente”) quase sempre enroupadas por algum humor e ironia (sei do que falo, por experiência própria, por mais de uma vez). Mas não hesito em reconhecer que a sua iconoclastia representou, claramente, um tempo marcante no jornalismo português. Valeu muito a pena ter existido o “Tal & Qual”.

Gonçalo Pereira Rosa - cujo nome, neste caso equivocamente, traz memórias da família que foi dona de “O Século” - e José-Paulo Fafe lançaram-se agora à tarefa de recordar a aventura que foi o “Tal & Qual”. Para tal, convocaram memórias de muitos que estiveram ligados ao processo de criação e feitura do jornal.

Pereira Rosa tem-se revelado um prolífico e notável inventariador das memórias do jornalismo português, José-Paulo Fafe é um “vieux routier” da profissão, nela assumindo, como imagem de marca, um temível estilo acerado de escrita. Começou no “Tal & Qual”, daí encetando um percurso por vária imprensa e artes correlativas.

Com apoio das imagens de algumas primeiras-páginas marcantes da história do jornal, o livro - e aqui regresso ao que disse a abrir este texto - ajuda-nos bastante a perceber (ou a recordar) o Portugal desse tempo, da “jovem democracia portuguesa” (para utilizar uma expressão comum no Dr. Cunhal).

Por aquelas páginas, fotografias e textos, andam Soares, Cavaco e os respetivos séquitos e sucessores, os tempos do deslumbre com os dinheiros europeus e as negociatas anexas, os “cromos” da época, os escândalos e alguma coscuvilhice, inócua ou não.

Na minha opinião, sobrevivem hoje, no “Correio da Manhã”, reflexos de alguma herança jornalística do “Tal & Qual”, servida talvez por uma leitura diferente dessa coisa, às vezes despicienda, que é a verdade dos factos. Sei que a frase que acabo de escrever está longe de ser consensual, pelo que fica já aqui um pedido preventivo de desculpas às duas publicações, em especial à “falecida”.

Ao tempo do “Tal & Qual” vivia-se apenas um esboço tímido do ataque aos “famosos” e aos “poderosos” do mundo económico, atitude mediática que agora se banalizou, porque então tudo era feito com muito “respeitinho” por quem tinha “o bago”, termo que João da Ega dizia a Palma Cavalão, diretor de “A Corneta da Diabo”, jornal que, nem pelo facto de não ter existido, não deixou de ser um inspirador do “Tal & Qual”, particularmente em algumas fases deste - e mais não digo! 

(O Zé Paulo Fafe não deve ter gostado mesmo nada, em especial, dos dois últimos parágrafos, mas discutiremos isso numa não-tertúlia que consta que por aí anda).

Este livro, que li de um fôlego, é um interessante testemunho daquilo que foi um fresco jornalístico de um país e de um regime que então andava à procura de um registo para, em paz e democracia, poder “viver habitualmente” (para citar o Dr. Salazar), o que, feliz ou infelizmente, não está na nossa matriz de “um povo que não se governa nem se deixa governar”, como escreveu um general romano que, já desde os tempos da Ibéria, nos topava à légua.

sábado, setembro 12, 2020

Uma nova diplomacia?

 



Creio não ser muito clara, para muita gente, a importância da Assembleia Geral anual das Nações Unidas que, por esta altura do ano, tradicionalmente se iniciava em Nova Iorque. Em 2020, o evento inaugural, preenchido com as declarações nacionais, terá lugar apenas por via telemática.

Para além da própria ONU já suscitar muitas dúvidas quanto à sua real eficácia, sempre imaginei que aquele imenso fluxo de chefes de Estado e de governo, acompanhados de ministros e de séquitos infindáveis, num ambiente prenhe de retórica, conferia alguma imagem de inutilidade àquele exercício ritual. Alguma razão podia existia nesse juízo comum, mas o evento não era, necessariamente, uma mera perda de tempo. Esse período comum em Nova Iorque era regularmente aproveitado para uma imensidão de encontros bilaterais, que poupavam muitas viagens e gasto de tempo, no resto do ano.

O período ministerial da AG da ONU é, em especial para muitos pequenos e médios Estados, que não dispõem de uma rede relevante de relações externas, um tempo importante para objetivarem os seus interesses face a outros parceiros, na ausência de uma máquina capaz de assegurar uma presença contínua e eficaz pelo mundo, no resto do ano.

Mas é uma evidência que os dias da vida internacional estão muito diferentes. Permanecerão assim? Por quanto tempo uma AG da ONU, em forma “física”, estará condicionada? Não sabemos, ainda hoje, em que medida a prática telemática passará a ser a regra e a deslocação a exceção. A diplomacia vai assim mudar os seus métodos? Mesmo que o não faça de forma radical, quantos dos seus modelos tradicionais de operação vão ser afetados?

A pandemia que marca o mundo é uma incomensurável tragédia, mas todos aprendemos que é quase sempre nos momentos de dificuldade extrema, em que a gravidade das situações convoca a agudeza das atenções, que acabam por ser descobertas as soluções mais inventivas para os problemas.

Quem sabe se um aperfeiçoamento radical dos mecanismos de comunicação à distância, que a crise atual seguramente incentivará, não nos poderá vir a trazer, sem perda de eficácia, um salto qualitativo nos instrumentos de representação e de operação diplomática?

Se isso acontecer, vai seguramente acabar, ou atenuar-se muito, algum “glamour” que estava associado ao mundo tradicional da representação externa. Isso, aliás, já vinha a acontecer aceleradamente nas últimas décadas. Se isso puder vir a ser feito sem perda relevante de eficácia, com poupanças interessantes para o erário público, a vida diplomática poderá ganhar novos contornos.

É que, ao contrário do que alguns possam ainda pensar, é a defesa dos interesses nacionais, públicos e privados, que, em derradeira instância, justifica a existência da máquina de relações externas de um país. E em tempos de uma saudável exigência de transparência, cada vez mais a representação externa vai ter de se sujeitar a constantes juízos valorativos de custo-benefício. Uma nova diplomacia pode, assim, estar a caminho.

12 de setembro de 1973


Pela rádio, naquele dia 12 de setembro de 1973, tinham-nos chegado algumas notícias sobre o derrube violento do governo de Allende, no Chile, com a morte do próprio presidente e a tomada do poder pela junta militar.

(Meses depois, quando por cá se ouviu falar de “Junta de Salvação Nacional”, muitos de nós ficámos algo inquietos com o uso do termo).

Longe estávamos então de poder prever a onda de barbárie que iria ocorrer no Chile, nos anos seguintes.

Eu estava então na Escola Prática de Administração Militar, no Lumiar, prestes a concluir o segundo ciclo, logo passando a “aspirante a oficial miliciano”. Seria, aliás, o único daquele grupo que continuaria naquela unidade até junho do ano seguinte, como instrutor militar, com o 25 de abril pelo meio. 

Pelo meio da tarde, como era de regra, os soldados-cadete das especialidades de “Ação Psicológica” e de “Licenciados em Direito”, que somados não chegavam à vintena, “formavam” juntos na parada, antes de poderem ser autorizados a sair da unidade (a imagem reproduz o local). O Miguel Lobo Antunes, que era um de nós, lembrar-se-á bem desse ritual.

Naqueles escassos minutos em que nos alinhávamos antes de poder “destroçar”, dois dos nossos colegas, gente de uma direita radical extrema, crítica ‘pela direita” do regime de Marcelo Caetano, que acusavam de tibieza, manifestaram, em comentários, o seu vivo contentamento com a queda do regime de Allende, rejubilando com a instauração da ditadura militar em Santiago. 

Conhecendo-me, a mim próprio, à época, presumo que lhes terei lançado, como reação, alguns pouco carinhosos impropérios qualificativos. Tudo, diga-se, num ambiente de cordialidade que, não obstante, as profundas divergências políticas, marcava esse nosso convívio.

Um desses colegas foi então ao ponto de convidar quem, de entre nós, estivesse disponível, para ir a sua casa, não muito longe dali, beber uma “taça de champanhe” (ainda não tinha imperado a ditadura das “flutes”), para celebração da chegada dos militares ao poder no Chile.

Aquilo era dito num tom de brincadeira, convocando comentários e gracejos, mas os sentimentos de fundo de cada um de nós eram bem claros.

Nesse mini-pelotão, perfilado em frente à caserna, ouviu-se então uma voz forte, num comentário dirigido ao mais radical daqueles ultra-reacionários: “Tu tens muita sorte, sabes?”. Ele não sabia porquê. “É que se eu não tivesse entregado já a minha G3 no armeiro, não sei se não te dava um tiro!”. Todos sorrimos, até o visado.

Tudo aquilo era retórica. Mas o colega que se saiu com aquela frase quis mostrar como estava chocado com os defensores despudorados do golpe militar. O seu nome era António Franco, viria a ser um dos meus grandes amigos de vida e morreu há muito pouco tempo.

sexta-feira, setembro 11, 2020

A desordem dos trabalhos

Faço parte de uma tertúlia que não existe. Eu explico. Há um grupo de pessoas que, desde há meses (com a pandemia pelo meio), se reunem com o propósito de pôr de pé um determinado projeto. Encontramo-nos num escritório ou almoçamos num restaurante. Como é da lógica destas coisas, a conversa começa por generalidades, com historietas e comentários divertidos pelo meio. Só que a “desordem de trabalhos” é, por ali, a regra do jogo. Isto é: 90% do tempo conversamos, rimo-nos, divertimo-nos e, nos 10% de tempo que, a muito custo, nos resta, vamos levando alguma água ao moinho comum que inicialmente nos juntou. Aquilo é uma tertúlia? Pelo tom dos encontros, é mesmo uma bela tertúlia. Mas, com os diabos!, não devia ser só isso. Que fazer? - como dizia o velho Ulianov, a fingir-se de modesto. Não sei, mas nós lá vamos andando.

“Alô Nuno, passo às Antas!”


Acaba a “Tarde Desportiva” da Antena 1. Para alguns, começou por ser a “Tarde Desportiva da Emissora Nacional”, com a “Semper Fidelis” de John Philip Sousa como música de fundo: https://youtube.com/watch?v=okjN2krWDPw…. “Alô Nuno, passo às Antas!”, dizia quem?

11 de setembro, sempre!

Em 11 de setembro de 2001, eu era embaixador junto da ONU, em Nova Iorque A Assembleia Geral das Nações Unidas, cujos trabalhos deveriam iniciar-se no dia seguinte, sofreu uma forte perturbação e só se organizou quando a cidade e a segurança nos Estados Unidos recuperaram um mínimo de normalidade.

Em data que não posso precisar, mas ainda antes do Natal desse ano, numa livraria numa esquina da Park Avenue, cruzei-me com uma cara conhecida. Era Jose Miguel Insulza, então ministro do Interior do Chile. Três anos antes, ao tempo em que ele dirigia a diplomacia do seu país, eu tinha-o recebido como representante à Expo 98 e, no ano seguinte, como presidente interino, ele tinha-me acolhido no Palácio de la Moneda, numa visita oficial que fiz ao Chile.

Falámos, naturalmente, do trauma que Nova Iorque e aquele país atravessavam, depois dos acontecimentos de 11 de setembro. Nunca esquecerei uma frase que me disse: “Nosotros también tuvimos nuestro 11 de septiembre”. Era verdade. 11 de setembro de 1973 foi a data do sangrento golpe de Estado no Chile. Insulza fora membro do governo de Allende e esteve exilado vários anos, antes dos chilenos recuperarem a sua democracia. Como muita gente da minha geração, eu também não esquecia isso. 

Ao final do dia 11 de setembro de 2001, com as torres gémeas derrubadas, com Nova Iorque sob uma núvem infernal de poeira e o choque da bárbara agressão de que a América acabara de ser vítima pelas mãos do fanatismo, um jornalista português, de Lisboa, que me entrevistava para uma rádio, comentou: “Estou certo que, depois da experiência por que está a passar, o senhor embaixador nunca mais vai esquecer a data de 11 de setembro”. Acho que ficou surpreendido pela minha resposta: “Há muitos anos que eu não esqueço o dia 11 de setembro. Em 1973, foi a data do golpe fascista no Chile”. 

Posso revelar que, nos dias seguintes, recebi de Lisboa, desde logo do MNE, alguns remoques sobre aquela minha inusitada reação. É a vida de quem tem memória!

Pê Ésse

O PS tem por tradição ser extremamente generoso, no que toca a eleições presidenciais: dele emergem vários candidatos, mas ele próprio não tem candidato nenhum.

2020

"Deixa o moleque trabalhar, poxa. Eu trabalhei. Outro dia eu falei que aprendi a dirigir com 12 anos de idade. Eu já engraxei sapatos. Molecada quer trabalhar, trabalha" - Jair Bolsonaro.

2020. O ano em que o Brasil tem um presidente que diz, impunemente, este tipo de barbaridades.

Notícias de Fénix


Na última década, raramente a palavra Europa deixou de estar associada à ideia de crise. A “crise europeia” tornou-se uma expressão corrente, que, ao mesmo tempo, contribuía para absolver alguma impotência dos governos nacionais e associava as instituições comunitárias a um destino marcado pela irreversível incapacidade de estarem à altura daquilo que delas, dessa Europa, se esperava.

O tom dramático das cimeiras europeias, os sinais de desunião e de falta de sintonia entre os parceiros, a lentidão das respostas aos problemas, tudo isso foi dando da Europa comunitária a imagem de um paquiderme irrecuperável, marcado pelo gigantismo da sua máquina, pelo fim dos consensos que suportavam os antigos modelos de solidariedade.

A relativa surpresa que foi Brexit e o surgimento, no seio dos Estados membros, de alguns atores que colocavam em causa os próprios fundamentos do projeto europeu, que eram dados por comummente adquiridos, alimentou bastante essa ideia de declínio inexorável, pelo menos no seu modelo de destino coletivo.

A palavra “refundação” surgiu várias vezes, as sugestões de fórmulas de trabalho com integração diferenciada dos Estados em matéria de políticas foram muitas. A questão sobre se ainda estávamos todos “no mesmo barco” e, em caso de resposta negativa, se não seria oportuno tirar consequências institucionais disso, pairou muito por essa Europa. A bem dizer, ainda anda na cabeça de alguns, podemos ter a certeza.

A Europa tinha sido lenta e pesada na reação à crise financeira de 2007. Em sequência, por falta de vontade política, tomou decisões que muito contribuíram para o desencadear da crise das dívidas soberanas, que fraturou o continente, não apenas em termos de riqueza, mas igualmente no que toca ao discurso sobre a solidariedade, que se foi perdendo, de uma forma quase obscena. Essa mesma crise de solidariedade voltou a estar em causa aquando da questão dos refugiados e continua, aliás, a ser patente na debilidade das respostas face às pressões migratórias.

O Brexit parecia poder vir a ser uma machadada dramática no projeto, e as suas consequências estão ainda longe de medidas. A Europa era amputada de um membro que, nem por ser um parceiro relutante, deixava de ser um componente essencial do seu poder como entidade económica e política à escala global. Um tanto surpreendentemente, contudo, os 27 juntaram-se para responder ao Reino Unido, com uma agenda firme, bem estruturada e, essencialmente, comum.

Mas com as dúvidas sobre a China a adensarem-se no seu seio, com o “amigo americano” a minar décadas de cooperação e a ameaçar o sistema multilateral em que a Europa jogara todas as cartas, com a persistência de sensibilidades divergentes face aos “infratores” internos, com tensões de vizinhança fortes (Rússia, Turquia, Médio Oriente, Líbia) a testarem a sua vontade externa, a Europa mantinha-se num limbo político.

De súbito, surgiu a pandemia. As economias pararam, as sociedades entraram numa crise quase existencial, os medos aceleraram, os governos enquistaram-se no essencial, os sacrossantos limites macro-económicos foram esquecidos, o caleidoscópio das respostas sanitárias ameaçou a própria liberdade de circulação.

E, contudo, acabou por ser no meio desta imensa ameaça, aliás muito por virtude dela, que, quase como um coelho tirado da cartola, a Europa, sob liderança alemã e francesa, promoveu e conseguiu impor um modelo de resposta financeira, com contornos inéditos, que combina instrumentos clássicos com fórmulas inovadoras, rompendo tabus como a mutualização europeia de dívida e a possível criação de novos recursos.

Três mulheres, há que sublinhar, lideraram visivelmente esta resposta: a chanceler alemã, com uma coragem que lhe pode valer a História, uma presidente da Comissão Europeia com a vantagem pontual de ter a nacionalidade certa para dar força às suas propostas e uma líder do Banco Central Europeu que, parecendo embora estar longe do rasgo de um Draghi, soube encontrar soluções no seu âmbito, em consonância com o projeto.

Fénix renasceu?

quinta-feira, setembro 10, 2020

Toponímia


Aqui deixo uma historieta que um amigo português, residente em Londres, me contou um dia. 

Havia decidido oferecer à sua mulher uma estada e um passeio pela zona sudoeste da Inglaterra, por Cornwall. 

Desafiou um casal amigo, também português, a juntar-se-lhes. No "Michelin", ele havia descoberto um hotel que parecia muito simpático, numa pequena localidade, já próxima do cabo mais ao sul do Reino Unido.

Cornwall é uma região com paisagens magníficas, onde ainda nenhum dos quatro viajantes tinha ido. Esse meu amigo, contudo, já se deslocara bastante pela Inglaterra. Durante os meses que haviam antecedido a chegada da mulher a Londres, tinha passeado sozinho, quase todos os fins de semana, por várias zonas do país.

Porém, esse "sozinho" era um conceito que a mulher nunca "digerira" por completo, porque sempre alimentou uma suspeita residual sobre todo aquele afã turístico fora de Londres, a montante da sua chegada. Coisa de mulheres ciumentas, claro!

Nesse tempo sem GPS dos anos 90, as pequenas cartas das localidades que os Guias Michelin traziam eram de grande utilidade, para evitar perdas de tempo. A vilória onde iam alojar-se não era grande e o meu amigo havia-se dado ao cuidado de decorar o caminho que, desde a entrada no pequeno burgo, era preciso fazer para chegar ao hotel. E, por essa carta, até ficou a saber que o hotel ficava à esquerda, no fundo de uma determinada rua.

A viagem foi agradável, com uma conversa divertida, entre casais que, não sendo íntimos, se davam bem. Chegados à localidade, esse meu amigo, que conduzia, começou a cortar à esquerda e à direita, nas esquinas das várias ruas, recordando-se com precisão do mapa para que tinha olhado com atenção, na véspera. Os companheiros de viagem estavam surpreendidos com tanta destreza. A mulher ia em silêncio. A certo passo, o meu amigo teve um derradeiro momento de "glória", ao anunciar: "o nosso hotel fica na segunda rua do lado direito; ao fundo da rua, à esquerda". E ficava mesmo.

O casal acompanhante estava siderado! Como é que ele tinha "dado" com o hotel, conduzindo, rua a rua, sem hesitação, sabendo mesmo de que lado da artéria se situava? Não, não era possível que ele nunca tivesse ido àquela localidade! O meu amigo, para gozar o momento, ia adiando a revelação do truque que tinha utilizado. 

No hall do hotel, a mulher, de cara muito fechada, disse-lhe: "Com que então nunca cá tinhas vindo?" E disparou para o quarto, amuada, antes que ele tivesse tempo de revelar o engenhoso método de orientação utilizado. As explicações que depois lhe tentou dar caíram em saco roto.

O fim de semana havia ficado, em definitivo, estragado. O ambiente do jantar a quatro ressentiu-se também. Ao café, os dois maridos encostaram-se ao bar a tomar um whisky, tendo comentado entre si o incidente. 

Foi aí que o companheiro de viagem do meu amigo, críptico, se saiu com esta: "Será que a sua mulher foi influenciada pelo nome português desta zona?". O meu amigo hesitou um leve segundo, antes de se juntar ao companheiro numas boas gargalhadas, cuja razão não revelariam nunca às cônjuges. É que, em português, Cornwall, traduz-se por Cornualha...

(Já um dia aqui contei esta história. Por uma razão que não vem ao caso, repito-a hoje)

Os que perderam o Norte

A “righteousness” da Europa do Norte é um velho vício arrogante. Vimo-lo emergir nos tempos negros da Troika. Sempre por cá encontrou seguidores, como sabemos. Ressurgiu agora na pandemia, através de uma fauna de neo-libertários, à cata de argumentos políticos auto-flagelatórios

quarta-feira, setembro 09, 2020

As mentiras de Trump

Há uma ingenuidade na Europa quando alguns se admiram pelo facto dos americanos não “cobrarem” a Trump as suas mentiras. Os que “cobram” não votam nele, os que votam nele estão-se nas tintas sobre se ele mente ou não, porque o querem eleito contra a outra América que detestam.

Chega

O homem do Chega aproveita as notícias sobre as outras candidaturas, enche-as de adjetivos qualificativos polémicos e a comunicação social, contentinha, vai-lhe assim dando mais tempo de antena.

Máscaras

Muito embora haja que contar com a provável recusa de muita gente de se transformar em “garoto propaganda”, aposto em como ainda acabará por ser explorado o mercado da publicidade nas máscaras.

Bielorrússia

O autocrata de Minsk, ao raptar opositores (nada que não tenha aprendido com Putin), faz uma fuga em frente da qual dificilmente sairá bem. Mas não há a menor dúvida de que o país mais embaraçado com a situação que se vive na Bielorrússia continua a ser a Rússia.

Ainda o Avante

Admito poder estar a ver mal as coisas, mas acho que o PCP ganhou bastante mais do que perdeu com a “novela” da Festa do Avante. É que o seu “mercado” não são aqueles que nunca votariam no partido, mas, muito mais, os que acham que foi objeto de um “bullying” da direita. E foi.

O modelo sueco

A Suécia tem 10,23 milhões de habitantes e 5842 mortos por Covid. 

Portugal tem 10,28 milhões e 1849 mortos por Covid.

Talvez fosse interessante perguntar aos mortos suecos o que acharam da sua sábia estratégia nacional.

Adiar o cifrão

Até hoje, nunca gastei um tostão (devia dizer um cêntimo, eu sei) com nenhuma rede social, nem fiz nenhum "upgrading" nos sites de...