sexta-feira, julho 17, 2020

O sol do Gabão


O aeroporto de Libreville, no Gabão, chamava-se (e chama-se) Léon Mba, nome do primeiro presidente do país. Desembarquei nele, ido de Paris, na madrugada de um dia do final de fevereiro de 1976. A ligação a S. Tomé, que era o meu destino imediato, só teria lugar a meio da tarde. A aerogare era de uma grande simplicidade, sem a menor comodidade, para o tempo que mediava entre os dois voos. Fui tomar o pequeno almoço, num arremedo de restaurante, e comecei a impacientar-me. Teria mesmo de aguentar por ali, cerca de 10 horas?

Era a minha primeira viagem a África. Era também a minha primeira missão oficial. Não era muito curial que um jovem “adido de embaixada”, ingressado há menos de meio ano na diplomacia, fosse encarregado de uma missão numa ex-colónia, recém-independente. Havia por lá uma embaixada, com dois diplomatas, mas o então Ministério da Cooperação (onde eu tinha sido destacado) decidira ser eu era a pessoa que devia ir mediar o conflito que se gerara entre as autoridades santomenses e os primeiros professores cooperantes portugueses, que haviam chegado ao país há escassas semanas. Um dissídio que a embaixada informara não conseguir resolver. A minha missão iria durar uma semana, porque só havia um voo semanal entre Libreville e S. Tomé, num tempo em que as viagens por Luanda, em clima de guerra, estavam suspensas.

Por essa época da minha vida, eu tinha a “mania” de que era um “expert” em viagens. Tinha atravessado à boleia, por duas vezes, durante semanas, vários países europeus, tinha a experiência de uma viagem de férias aos Estados Unidos, o que então não era muito vulgar para a gente da minha geração, tinha já feito bastantes deslocações aéreas ao estrangeiro. Achava, na minha auto-suficiência, que já tinha apanhado os “códigos” para todas as aventuras pelo mundo. Decidi, assim, “ir dar uma volta” a Libreville. Com os diabos! Não devia ser muito diferente de passear em Copenhague ou em Viena! 

Coloquei a minha mala num depósito do aeroporto (o que eu me iria arrepender desse gesto, porque, horas mais tarde, me devolveram uma mala errada, que levei comigo para S. Tomé...) e, com uma pasta negra de couro na mão, atulhada de documentos, depois de trocar francos franceses por francos CFA, aluguei um táxi e fui para a “baixa” de Libreville. 

O motorista ficou intrigado quando lhe pedi para me levar ao “centro” da cidade. “Quel Centre, Monsieur?”. Então ele não sabia onde era o centro? Disse-lhe para ir andando, que lhe diria depois onde parar. À medida que o casario se adensava, percebi que nada daquilo parecia ter um centro, como estava habituado nas cidades que conhecia. Quase todas as lojas que via estavam fechadas. Era, além disso, um domingo! 

A minha confiança, própria de um “maçarico” sem a menor experiência africana, era, no entanto, imensa. A certa altura, decidi mandar parar o carro, paguei ao homem e comecei a caminhar. A manhã ia avançando para o meio-dia, o sol começava a torrar e ali ia eu, de blazer e pasta preta, a passear por uma cidade meio deserta. 

Vou dizer algo politicamente incorreto, mas muito verdadeiro, para quem conhece África: em regra, um branco não se passeia, a pé, sem rumo, vestido à europeia, numa cidade africana. Os locais que comigo se cruzavam, ou quem passava de carro, todos olhavam para mim com uma evidente estupefação. Era uma imagem bizarra, agravada pelo imenso suor que me começava a invadir, sem que descortinasse lugares onde me abrigar ou tomar alguma coisa. 

A partir de uma certa altura, também eu comecei (já não era sem tempo!) a achar a minha aventura um tanto insólita. E a arrepender-me da “brilhante” ideia que tivera de “ir dar uma volta a pé“ por Libreville. De facto, estava a aprender, à minha custa, que nada ali era parecido com Amesterdão ou Zurique.

Perguntei onde podia apanhar um táxi. Faziam-me gestos vagos, apontando-me sítios distantes. Inquiri de algum hotel, onde tudo se tornaria mais fácil, mas as indicações eram no sentido de que estava a quilómetros de um desses oásis. Não sou de empanicar, mas tinha o bom-senso mínimo para começar a preocupar-me. Porém, sempre com um ar grave e decidido, para fingir que me sentia dono da situação, lá ia eu por avenidas poeirentas, em direção a sítio nenhum. E, claro, táxis nem vê-los! 

Até que, quase uma boa meia hora passada, comigo a derreter de calor, com uns “Ray ban” que já escorriam água, avistei um táxi na minha direção. A esperança rapidamente se diluiu: vinha cheio, a abarrotar. Arrisquei e fiz sinal para ele parar. E, para minha surpresa, ele parou. Perguntei onde havia táxis. Nem sei bem o que o motorista respondeu, só sei que, quando mencionei o aeroporto, os olhos se lhe arregalaram: “Pour l’aéroport, Monsieur? Ah! Mais ça c’est une bonne course!” Para grandes males, grandes remédios: disse que lhe pagava a “course” e que ainda lhe dava mais uns tantos francos CFA, se me levasse ao aeroporto.

Foi remédio santo! Os passageiros, uma mulher e uma criança incluídos, foram logo expulsos pelo motorista no táxi. Estavam compreensivelmente furibundos, lançavam-me olhares ameaçadores, ao serem afastados pela arrogância de um branco, que “comprara” o seu transporte. Fiquei orgulhoso? Não fiquei, mas o alívio que senti absolveu, até hoje, bem mais de quatro décadas passadas, o meu sentimento de culpa. 

Nesse dia, aprendi, em vários sentidos, o que a África pode significar de diferente. E que o tal “centro” de Libreville tinha, afinal, muito pouco a ver com as “baixas” que eu conhecia... na Europa e na América do Norte! Nos anos seguintes, visitei muitas cidades africanas, do Magreb à África do Sul, de Angola à contra-costa. E aprendi bem o que é a geografia social urbana dessas terras.

Lembrei-me ontem disto quando, sob um sol muito raro na sua inclemência, cometi a patetice, após o almoço, de arriscar fazer a pé uma caminhada, numa distância que ainda era longa, por uma Lisboa sem sombra de sombras. Por instantes, veio-me à memória aquele sol antigo do Gabão. Sem uma réstea de saudade, confesso.

quinta-feira, julho 16, 2020

António Franco

A lealdade para com os amigos e a elevada exigência para consigo mesmo estavam-lhe coladas à pele. Vivia, sem a menor dificuldade, esse comportamento extremo de rigor, mas sempre num tom nada macambúzio, com um eterno espírito de bonomia, de graça, de alegria de vida. 

Falámos pelo telefone, pela última vez, na passada semana, a minutos de ele partir para o hospital, de onde já não sairia. Estava a comer uma “bacalhauzada”. A mim, sem o menor jeito para estas cenas, saiu-me um qualquer dito tolo. A reação dele foi: “Que diabo de frase é essa?” Dias antes, num prenúncio, tinha-me dito que, sem remorsos, estava a ter a paga dos prazeres e da liberdade de que nunca se privara, ao longo da vida. 

Acabo de saber que morreu António Franco, um colega um pouco mais velho do que eu, a conselho de quem entrei para o Ministério dos Negócios Estrangeiros e que, curiosamente, viria a substituir no seu último posto como embaixador. Conhecemo-nos na parada de Mafra e fomo-nos encontrando a partir daí pela vida, com imensa frequência e regularidade.

Fomos muito amigos. Se posso contar os meus amigos dos dedos de uma mão, o António, sem a menor dúvida, foi um deles. Por décadas, cultivámos imensas cumplicidades, de toda a natureza. Em todos os passos importantes da minha vida, consultei-o sempre antes, pela certeza do seu bom senso e do seu equilíbrio. 

Nos últimos anos, por motivos que para aqui agora não importam, não olhámos da mesma forma para algumas coisas e isso afastou-nos um pouco. Tive muita pena. Porém, nos últimos meses, voltámos a falar bastante. E isso fez-me muito bem.

A morte do António não foi uma surpresa, já era prenunciada por uma mensagem recebida da Ana, há escassas horas. Sinto-me muito triste com a partida do António.

Para a Ana e para os filhos do António, a quem ele se dedicava sem limites, deixo aqui um forte abraço e o nosso imenso pesar.

Engravatar os dias


Acabei de ver mais um Poirot, na “Fox Crime”, e notei o rigor do traje do detetive. Li, em tempos, quase toda a Agatha Christie, mas então não me tinha ficado na memória o requinte do vestuário do atento belga britanizado. Aquilo é que são gravatas!

Fui ontem, de casaco e gravata, ao Chiado. Com a caloraça que tinha estado durante o dia, havia gente que olhava para mim como se eu fosse um ET. Adoro andar de gravata e o local e a cerimónia (chamemos-lhe assim) a que eu ia exigia (e bem!) o seu uso. Nem imaginam o prazer que tive e o bem que me senti! 

Tenho de comprar mais gravatas, concluí. Em minha casa, atrás de duas portas, foram inventados dois armários, cada um com mais de dois metros de altura e uma profundidade que não chega a um palmo, onde jazem, por tons, algumas das muitas centenas de gravatas que fui acumulando na vida. De quando em vez, ofereço umas dezenas, mas cada vez tenho menos a quem. Chego sempre à conclusão de que me faltam ainda alguns padrões essenciais. A gravata é um sinal de civilização. Melhor: é um sinal de que ainda há civilização.

Três histórias de gravatas.

Há não muito tempo, fui com um amigo, diplomata inglês de passagem, jantar a um restaurante em Lisboa. Na televisão, essa praga que marca alguns locais feitos para se comer em descanso (“é por causa do futebol, shôtor!), passava uma cena de um debate parlamentar. O inglês inquiriu: “Não é obrigatório o uso da gravata no vosso parlamento?” Respondi que não. A certa altura, perante um deputado em traje bem simplificado, teve esta frase cruel: ”Aquele parece um sem abrigo!”. Calei-me, por respeito à instituição. E à verdade.

Há uns anos, vai para uma década, saiu na imprensa que, num determinado ministério, tinha sido abolido o uso da gravata (vá lá!, tinha deixado de ser obrigatório). Escassos dias depois da notícia, tive de ir ver o titular desse ministério e, claro, apresentei-me de fato e gravata. E perguntei, à entrada do gabinete: “Não se importa que eu venha de gravata, pois não?”. A senhora ministra não se importou.

Outra vez, em Chipre, nos anos 90, um ministro local contou-me uma história curiosa. Vou repeti-la, com todo o politicamente incorreto que ela comporta: “Durante alguns anos, após a saída dos britânicos, houve no país uma tendência para “abandalhamento” (não sei como ele disse isso, mas era essa a ideia) do vestuário. Estávamos a ficar tão levantinos como a nossa geografia apontava, com as nefastas consequências disso na nossa atitude. Porém, a partir de certa altura, o uso de ar condicionado passou a ser regra nas repartições públicas. As pessoas começaram então a vestir de forma mais cuidadosa, a usar fato e gravata e, quer acreditar?, a nossa atitude oficial mudou, para melhor. Mas, felizmente, não ficámos iguais aos ingleses, “thank god”!”

Dito isto, daqui a uns dias inaugura-se o belo mês em que o meu traje “de rigor”, de manhã à noite, serão jeans ou coisas parecidas, sapatos Timberland com idade para irem para o museu do fabricante e velhas camisas largueironas ou t-shirts. Se, nesse período, me surgir alguém de gravata à frente, estrangulo-o, como fazem na Fox Crime.

(Creio que morre bastante mais gente na Fox Crime do que na pandemia, mas não parece ser de bom gosto dizê-lo. Eu faço-o, porque este é um texto desengravatado, que tem quase tantas mentiras como escassas verdades).

quarta-feira, julho 15, 2020

Severino Cavalcanti


Morreu, no Brasil, Severino Cavalcanti. Tinha 89 anos.

Na história política daquele país, o seu nome não passará de um pé de página. Um dia, durante o segundo mandato de Lula, um grupo de deputados, aproveitando um impasse na eleição para a presidência da Câmara de Deputados, decidiu apresentar o nome de Cavalcanti, um nordestino pernambucano, figura nada notável daquilo a que se chama o “baixo clero” (deputados sem grande projeção, que os britânicos designam por “backbenchers” e os franceses “d’arrière-ban”, mas não “banc”). E a aposta, insólita e divertida, para atrapalhar o governo, saiu vencedora.

Cavalcanti, oriundo do Partido Progressista (PP), um partido “fisiologista” (expressão que se usa no Brasil, significando que mistura a política com interesses económicos e financeiros), com um histórico no jogo de negociação de cargos e que viria a envolver-se em tramóias sucessivas nos anos posteriores, disse logo ao que vinha: pediu, para os seus, um lugar na direção da Petrobrás. Mas não um lugar qualquer. Queria um posto operacional, com poder, “dos de furar poço” de petróleo. A expressão ingressou logo no anedotário político.

Mais tarde, viviam-se os tempos do “mensalão” (mesadas pagas pelo governo Lula a deputados de certos partidos, oriundas de fundos ilegais, para recompensar votos favoráveis ao governo), Cavalcanti viria a ser apanhado numa trafulhice menor, na qual se apurou que um fornecedor da cantina da Câmara de Deputados lhe pagava uma “propina” regular. Naquela fértil imaginação semântica que só os brasileiros têm, o esquema passou a ser designado pelo “mensalinho”...

Cruzei-me com Cavalcanti duas vezes.

A primeira foi quando o fui visitar, para o cumprimentar, pouco tempo após a sua turbulenta e inesperada eleição. A Hebe Guimarães, uma amiga que tinha uma posição proeminente na máquina político-administrativa do parlamento brasileiro (hoje, infelizmente, bastante doente), arranjou-me o encontro.

Nunca, em toda a minha vida oficial, me deparei com um caos análogo àquele que se vivia no gabinete de Cavalcanti. Simultaneamente, tinha ali lugar uma reunião, com vários deputados, àcerca de um diploma legislativo. Em frente, em sofás, assistindo sem limitações àquela “marchandage”, estavam as pessoas que o presidente da Câmara dos deputados iria receber. Por ali estive vários minutos, no segredo “dos deuses” da barganha legislativa em curso. Graças à “cunha” da minha amiga, o embaixador de Portugal passou à frente de todos os que aguardavam.

Cavalcanti, um simplório senhor idoso, estava sentado numa secretária, por detrás de uma meia parede que fazia de uma espécie de biombo. Foi simpático, conversador, falou-me do “Solar dos Presuntos” onde, em Lisboa, um dia comera magnificamente e exultou quando se deu conta de que ambos tínhamos coincidido em Nova Iorque, no dia fatídico do 11 de setembro de 2001: eu era embaixador por lá, ele estava na cidade, numa visita parlamentar. Contou-me que, na falta de voos para regressar ao Brasil, a delegação que integrava ficou quase sem lugares no hotel, tendo de dormir em escassos quartos. “Dormi na cama com dois colegas, embaixador. Felizmente que a minha mulher sabe que não sou viado!” E todos rimos imenso, sempre com gente a entrar e a sair do espaço, com a sua atenção a ser suscitada para assinar coisas que despachava, à confiança. Foram vinte minutos inesquecíveis.

Um outro dia, e foi a última vez que o vi ao vivo, testemunhei a sua intervenção inicial numa bizarra homenagem póstuma feita pela Câmara dos Deputados brasileira a Sérgio Vieira de Mello, reunião que viria a terminar com a sala quase vazia, praticamente só comigo, com a família do diplomata da ONU e uma banda de música, que no final tocaria o hino nacional. Cavalcanti abriu a sessão, mas logo ficou evidente que não tinha a menor ideia daquilo que lhe tinham agendado para ir ali fazer. Iniciou o seu discurso dirigindo-se a ... Sérgio Vieira de Mello! Um fâmulo acorreu, pressuroso, informando-o de que, tendo o passamento do homenageado ocorrido já há dois anos, era justificável a sua ausência da sala e que era a família do homenageado que deveria começar por saudar. Ele corrigiu, leu o que tinha a dizer e desapareceu.

Hoje, morreu.

Haja coerência!

Lamento bastante a posição assumida por António Costa face a Viktor Orbán, “desligando” a questão dos fundos europeus do cumprimento dos valores e princípios da União. Não me revejo nessa “realpolitik” de oportunidade, que abertamente favorece o detestável e reiterado comportamento do autocrata húngaro. O argumento de que há outras áreas dos tratados europeus em que o tema melhor caberá é muito débil.

Mas quem, entre nós, nunca mostrou o menor empenho em isolar Orbán e o seu partido, no seio do Partido Popular Europeu - o grupo político onde estão o PSD e o CDS -, alinhando na oportunista tática de o “suspender” antes das últimas eleições para o Parlamento Europeu, não tem hoje a menor autoridade para criticar o primeiro-ministro por aquele infeliz gesto.

Lembram-se?


Alguns não se lembram, outros nem se querem lembrar, muitos desconhecem. Por esta época, nas revistas “do social”, era o período áureo das festas de verão, dos “dias nacionais” das embaixadas lisboetas, dos que “recebiam”, era o início dos eventos chiques da “saison” algarvia, um mundo cheio de nomes sonantes, uns porque sim, outros porque eram repetidos à exaustão. A Comporta só veio mais tarde, o Norte nunca foi muito “in”, salvo no registo de quem ia para os nevoeiros nobilitadores do Moledo.

Era o Portugal “dourado” da época, assente nos fundos europeus e na nova classe política, nas fortunas antigas ou no dinheiro novo, das empresas na moda aos ”cromos” da noite de Lisboa. Era o estatuto do novo regime. 

Em noites resplandecentes, eles viam-se de smoking ou de calças vermelhas e camisas abertas até à cruz no peito, elas surgiam “produzidas”, longos cabelos loiros, peles escurecidas, sorrisos de circunstância, guarda-roupa muito cuidado. Alguns lutavam para aparecer nessas ocasiões e para a sua presença ser citada, às vezes notados pelos “nicknames” que eram meio caminho andado para o reconhecimento. Os menos poderosos e mais arrivistas metiam cunhas aos fotógrafos ou a umas senhoras, reverenciadas e mimadas por quem queria aparecer, que iam dando indicações sobre de quem guardar a imagem para essa efémera posteridade, se me permitem a contradição. Outros estavam lá pela ordem natural dessas coisas, pelo apelido, pela “função” social, porque era assim. Depois, com maior ou menor destaque, lá saíam todos, ao final da semana, em papel “couché”, no “Olá Semanário” e revistas parecidas, num arremedo do que se fazia em Espanha, uma terra com mais aristocracia e mais “grandes” para mostrar.

Nos dias de hoje, a “Olá”, que até chegou a ter alguma graça, desapareceu já há muito, mas surgiram entretanto os seus sucedâneos, mais modestos mas, nem por isso, menos coloridos e a puxar para o glamoroso iluminado. Era um tempo em que ainda apareciam crianças nas fotografias, hoje, pudicamente, mostradas com as caras glicerinadas, como nos quadros do Noronha da Costa. 

A sociedade - que, a certa altura, tinha já sido substituída por reportagens de casamentos e batizados de ignotas famílias, que pagavam o frete a metro - deixou definitivamente o lugar aos atores e atrizes das telenovelas, aos futebolistas, às figuras televisivas, aos saídos dos “big brother”. Reportam hoje separações, óbitos, azares, doenças, namoros, ciúmes, intrigas, perdas de emprego, programas que começam ou acabam, coisas assim. Para quem não segue muito esses mundos, chega a não ser fácil saber quem é essa “beautiful people” de nova extração. Mas que há quem ainda goste, lá isso há!

Por que me lembrei disto? Foi ontem, ao ver nas televisões as imagens de arquivo do caso BES. Recordei-me que há um mundo que, por um novo e receoso pudor, temente à inveja que campeia e à crítica raivosa da ostentação dos outros, tida como ofensiva para as desigualdades, passou a viver as suas festas atrás de muros e a ter uma vida social em voz mais baixa. Hoje, mostrar os cavalos ou os carros de última gama, as festas de champanhe e caviar, ostentar as jóias e tudo o que possa ser lido como sinais exteriores de riqueza, como belas mansões e até excessiva alegria passou a não estar no “l’air du temps”, no politicamente correto. É uma hipocrisia, deixemo-nos de coisas!, mas é assim mesmo. Essas pessoas passaram a ter de ser mais discretas, mais contidas na exposição da sua imagem. É a nova vida!

Mistura de sentimentos


Não há expressão consagrada em português para “mixed feelings”. E, no entanto, é isso que sinto, uma mistura contraditória de sentimentos, face à saga que marca os dias do antigo rei espanhol, Juan Carlos.

As moscambilhas financeiras em que o rei emérito se envolveu, recebendo chorudas comissões de nababos medievais que dirigem países do Golfo, em troca de influência junto de empresas espanholas, colocam-no numa situação de extrema delicadeza, fragilizando a própria monarquia. Agora se percebe melhor o inusitado anúncio, feito há semanas, pelo filho, Filipe VI, de que renunciava a qualquer herança do pai. Pelo meio da história, para lhe dar mais picante e colorido, surge a figura de uma bela amiga do velho rei.

Juan Carlos tinha já saído do trono muito debilitado na sua imagem, por gestos insensatos, à revelia da sobriedade de costumes que os tempos exigiam.

Os reis são hoje uma “raça” ameaçada de extinção. Os escassos que sobrevivem, em ambiente democrático, afastados de qualquer poder executivo, são obrigados a observar um comportamento que atenue o risco dos seus “súbditos” poderem vir a optar por uma chefia eleita do Estado.

Como muitos portugueses, criei, no passado, uma forte admiração pelo rei espanhol, que aqui viveu e nunca desmentiu a grande simpatia que tem pelo nosso país. Franco usou-o para uma transição política cujos contornos, no entanto, fugiram à ideia de que tinha deixado tudo “atado y bien atado”. Juan Carlos soube então “ler” os dias, estruturou, com legitimidade histórica reconhecida pelos militares, uma autoridade que lhe permitiu pilotar a mudança, correndo riscos mas ganhando um país democrático, não obstante as tensões regionais centrífugas. Por muitos anos, a Espanha, salvo nas suas expressões mais extremistas, rendeu-se à sua dialogante autoridade e simpatia.

E não se diga que foi tarefa fácil! Não eram apenas as “duas Espanhas”, do tempo do seu pai, que, por vezes, ameaçavam aflorar, foram jogos partidários complexos, para os quais ele conseguiu, sob uma nova constituição, estruturar um terreno hábil de diálogo.

Depois, as coisas começaram a correr mal, não obstante algum cuidado na sucessão. Mas seria ele próprio quem contribuiu, em grande parte, para a perda da “magia” da monarquia espanhola.

Não se sabe agora o que aí vem. Por mim, republicano que sou, com sentimentos contraditórios face ao antigo rei, desde que ficassem devidamente acertadas as suas contas com a Espanha, não me importaria de vê-lo acabar os seus dias em Portugal.

Quinto livro para férias


terça-feira, julho 14, 2020

Ao fresco


Passei, há minutos, no lugar onde ficava o “33”, um agradável restaurante na rua Alexandre Herculano. Tinha um pátio magnífico onde, no verão, se almoçava ou jantava. As suas portas estão fechadas há já bastante tempo.


Depois de almoço, ali em frente da Gulbenkian, neste dia de calor, tinha-me lembrado da “Gôndola”, por ora transformada num buraco à espera de um banco. Tal como no “33”, a oferta gastronómica nunca foi por aí além, mas o espaço era soberbo. Tenho muito boas memórias de almoços por ali.


Na parte norte do Campo Grande, bem antes da igreja, quem se recorda do interessante jardim traseiro daquele que foi, por muito tempo, um dos mais antigos restaurantes de Lisboa, muito ao jeito das casas de comida “fora de portas”? Chamava-se o “Antigo Retiro do Quebra Bilhas”. 

Lisboa tem hoje muitos mais lugares onde se janta, ao fresco, comendo bem melhor do que naqueles restaurantes que fomos perdendo. Mas o que é que hei-de fazer? Aqueles três fazem-me falta.

Quarto(s) livro(s) para férias


segunda-feira, julho 13, 2020

Havemos de ir a Viana!


Palermices

Há uma coisa tão palerma como comemorar os êxitos da luta contra o vírus em Portugal: é mostrar um cínico regozijo com o agravamento dos números da pandemia entre nós. No primeiro caso, é parolice, saloiíce, deslumbramento. No segundo, é estupidez, sadismo, crueldade. Escolham!

Aviso à navegação


Já o disse, no passado, mas repito: este blogue não é um “cabide” em que os comentários servem para “pendurar” outros blogues ou links. Só excecionalmente isso pode acontecer. Por isso, desistam quantos tentam, por aqui, ganhar popularidade indireta.

Terceiro livro para férias


domingo, julho 12, 2020

Uma olímpica ironia


Romanos


Tenho esta dúvida: quantas pessoas, com menos de 30 anos, são capazes de ler isto? (Nem me atrevo a perguntar: e com mais de 30?)

sexta-feira, julho 10, 2020

Segundo livro para férias


A vida como ela está!


Os dias estão espessos. Por muito que os tentemos normalizar, que nos esforcemos para nos adaptar às novas rotinas, todos já percebemos que, ao contrário de alguma ilusão que existisse no início da crise pandémica, não há a menor ideia de até quando as coisas podem ter de permanecer assim. Pelo contrário, depois de recuos já operados em outros países, nada garante que as coisas não tenham de voltar para trás.

Mas não é sobre os riscos da pandemia que quero elaborar, porque de especialistas sobre o vírus o país parece (afinal) cheio. Gostava apenas de refletir, brevemente, sobre as suas consequências – materiais e humanas. Sem certezas, mas procurando ter os pés no chão.

Do que vou observando na nossa vida económica, não obstante as “almofadas” públicas que foi possível colocar em prática, de que o “layoff” foi um importante instrumento (embora fortemente emperrado pela burocracia), há uma parte significativa do tecido económico que está a sofrer de forma irremediável. Há pequenas e médias empresas que se tornaram inviáveis, o desemprego cresce a cada dia. Conta-se com a “bazuca” da ajuda europeia, mas há impactos que esse apoio não vai conseguir atingir ou chegará tarde, porque o calendário de desembolsos será sempre lento. Acresce que, sendo esta uma crise global, logo relativamente “simétrica”, haverá destinos, que nos últimos anos absorviam a nossa exportação, que deixarão, por algum tempo, de o poder fazer, a acreditar na modéstia das taxas de crescimento que se anunciam. E, como já se está a ver no caso do turismo, mudar de mercados-alvo é uma missão quase impossível, em tempos de crise.

A dimensão social dos impactos económicos da crise pode vir a ser atenuada, a prazo, pelo apoio europeu – e parece ser essa a aposta oficial. Mas é inevitável que, por bastante tempo, se agravem algumas consequências, como o aumento da pobreza e da exclusão, nomeadamente de imigrantes, trazidos pelo surto de turismo e pela agricultura. Por outro lado, é sabido que o desemprego é sempre fonte de uma pequena criminalidade que afeta a perceção de insegurança, induzindo pulsões securitárias, potenciadas por uma comunicação social que faz disso o seu “fond de commerce”, aproveitadas por forças populistas.

O país reagiu com sensatez à crise, aceitou, em regra, as limitações que a situação impunha, mas foi mostrando progressivo e natural incómodo com o espartilho ao seu quotidiano. Questão é saber se, em caso de ter de haver um recuo na abertura da sociedade, por virtude de um agravamento da situação sanitária, haverá consenso para a adoção de novas medidas restritivas.

As pessoas vivem hoje bastante tensas, os efeitos das medidas de confinamento revelaram-se assimétricos e injustos, há setores em compreensível desespero, em especial por não haver uma perspetiva temporal para a normalização da vida.

Reconstituir alguma esperança coletiva é a tarefa fundamental de quem atua na esfera pública, em que a comunicação social também se insere.

Não sei o que te diga


Não sei o que te diga, Mena. Hoje, 10 de julho, uma data muito triste para ti, tu que colecionas tantas datas tristes. Viste partir uma filha, viste desaparecer o teu filho e, há não muito, também, o teu companheiro de vida. Já os teus pais e um irmão tinham saído de cena. Resistir à dor, sublimando-a à tua maneira, passou a ser a tua forma de vida. Às vezes, estranhamos aquilo que parecem ser os teus delírios, os teus mundos algo míticos e oníricos, algumas reações que nos chocam. Mas nenhum de nós ousa sequer pensar o que seria, como reagiria se estivesse no teu lugar, se fosse o protagonista desse teu mundo de tristezas, feito de tantas perdas acumuladas, de futuros não cumpridos. Eu, que te conheço de toda a vida, desde a infância comum, que acompanhei todos esses tempos, que assisti à tua transformação por todas essas dores, que aprendi a ler as sombras que estão por detrás desse teu sorriso tão bonito, quero deixar-te aqui, hoje, dia 10 de julho, um beijo fraterno de grande admiração pela tua imensa e ímpar coragem.

Conselho de ouro

A Galp e a Jerónimo Martins podiam fazer um anúncio: "Se até o governador do Banco de Portugal prefere as nossas ações, de que é que vo...