Por que será que, nos dias que correm, tenho já imensa pena dos muitos e simpáticos cidadãos do Nepal, do Sri Lanka ou do Bangladesh, que pagaram o que não tinham para vir aterrar num país de turismo pujante, onde se empregavam precariamente, ganhavam pouco e viviam em condições difíceis?
sexta-feira, março 13, 2020
O poder da natureza
Há qualquer coisa de terrivelmente fascinante na natureza.
Até há cerca de um mês, as dinâmicas à escala global comportavam diversas variáveis, reconhecidamente com um elevado grau de indeterminação. O futuro da relação entre os EUA e a China, a capacidade da União Europeia superar o desafio do Brexit e as crises políticas internas, em especial na França e na Alemanha, o mutante saldo dos equilíbrios no Médio Oriente – eram, e continuam aliás a ser, temas que nos interrogavam. Alguns especulavam sobre a forma de levar algumas décimas ao crescimento débil com que a economia mundial estiolava. Apesar dessa indefinição, já de si muito diferente daquela que moldara a relativa estabilidade de décadas anteriores, esse tempo de ontem já quase nos parece hoje sinónimo de um mundo previsível.
É que, de súbito, uma crise de saúde, de proporções gigantescas, passou a sobredeterminar o nosso quotidiano. Por quanto tempo? Uma economia como a italiana “fechou para obras”, a indústria universal do turismo e a economia da circulação de pessoas estão a sofrer um imenso choque, o qual, aconteça o que acontecer, demorará já muitos meses para recuperar. De um instante para o outro, os orçamentos dos Estados, desenhados para o “business as usual”, passaram a meras curiosidades estimativas do passado. Há que encontrar novos recursos, porventura com acolhimento forte na dívida, para fazer face aos impactos inadiáveis que aí estão à vista.
Um surto de desemprego é já inevitável, os serviços públicos entraram em estado de anormalidade. O nosso dia a dia está fortemente condicionado, escolas fecham, espetáculos são cancelados, adotámos uma “coreografia” defensiva nas relações pessoais, vivemos numa espécie de clima “de guerra”, com a estranha sensação de que os direitos têm de passar para segundo plano, condicionados por aquilo que surge como um imperativo incontornável. Entrámos em visível “estado de exceção”.
Estaremos a exagerar os nossos medos? Pode ser que sim, mas também pode ser que não. Apesar dos “bitaites” com que os especialistas inundam as televisões, é óbvio que ninguém sabe, de ciência certa, por quanto tempo e com que dimensões, a presente crise acabará por marcar a nossa vida. É curioso observar já, em alguns comentários mais despudorados, a fria crueldade da diferenciação dos riscos etários: os mais velhos serão os mais atingidos, como manda a lei da vida, pensam ou dizem alguns, adotando intimamente uma espécie de juízo de justiça terminal.
Aturdidos pelas incógnitas, absorvemos as imagens alheias deste novo “tempo da peste”, com a íntima esperança que tudo não passe de um exagero, que possamos evitar o tal vírus, nós e os nossos. Afinal, pensamos, já houve crises desta natureza no passado – e aqui estamos para contá-las. “Não há-de ser nada”, dirão os otimistas, convencidos de que, com o calor, o vírus sairá de cena. “Isto pode ser o diabo”, resmungarão, por seu turno, os céticos.
Quem se ri, com estas partidas, é a poderosa mãe natureza.
Há cinco anos
O fotógrafo era um nabo e autocritica-se por nunca ter conseguido imagens de jeito. O Google Fotos, há minutos, sem eu lhe ter pedido nada, lembrou-me que a fotografia tem exatamente cinco anos - e quem sou eu para duvidar. Nela se vê que a São Jordão relata uma situação ou conta uma história a que o Nuno Brederode estava a achar graça. Do outro lado da Mesa Dois, ali no Procópio, quem estaria? O António Dias ou o João Durão ou a Margarida Figueiredo ou a Sedona Alice Pinto Coelho ou a Graça Vasconcelos ou o Zé Vera ou o “tio” Vilhena ou o Chico Soares ou a Sara Amâncio ou o Jorge Strecht ou a Suzy ou o Zé Augusto ou sei lá quem mais. O Raul Solnado, esse, de certeza que já lá não estava, nem o Zé Medeiros Ferreira, nem o Kiko Castro Neves, nem, claro, desde há muito, o Zé Cardoso Pires. Pela coreografia da imagem, fico com a certeza de que a Céu Guerra não tinha ainda chegado. E, claro, por ali não tinha chegado também a tristeza.
quinta-feira, março 12, 2020
Quase guerra
Pode parecer uma afirmação exagerada, mas acho que a situação de exceção que atualmente se vive é a mais próxima de um clima “de guerra” que, até hoje, os atuais cidadãos portugueses alguma vez conheceram.
Virus & virus
Para os que, no remanso do lar, se entretêm, por estas horas, a usar a internet, convencidos de que assim estão a salvo de maléficos contágios, deixo o aviso: não se esqueçam de atualizar o anti-vírus...
Homework
Estou a ter tantas visitas naquilo que escrevo nas redes sociais que começo a suspeitar que a maioria do país está hoje a fazer o mesmo que eu, isto é, nada!
Bolas
O país aguarda, a todo o momento, que seja anunciado que os comentadores televisivos de futebol vão entrar de estrita quarentena verbal, por cerca de um mês. Há a certeza absoluta de que daí resultaria um imenso ganho na saúde mental da pátria.
Tremores
O “Festival Tremor”, nos Açores, foi cancelado, segundo as notícias. Que raio de humor negro deve existir naquelas ilhas, cheias de sismos, para porem um nome desses a um festival!
A crise belga
“Na Bélgica é que a crise do coronavirus é grave!”, dizia-me um amigo. Estranhei. Desde há vários dias, “blindei-me” quase por completo das notícias sobre o assunto (sei que devo ser caso único, mas eu sou assim), limito-me deliberadamente a um curto “digest” oral da família, não sabia da tal situação na Bélgica. “É que lá davam sempre três beijos!”. Ah!
Os “escritores” da quarentena
A tentação é imensa e altamente perigosa: esta malta, forçadamente em casa, de quarentena voluntária, sem ter nada para fazer, apenas com ilusórios sintomas de “escritor”, é gente para se pôr aí a escrever livros a eito... O que aí virá de ”lançamentos” em outubro e novembro! Até eu já ando com ideias!
Social desintensivo
Esta é uma ocasião única na história “social” portuguesa: as conversas já não acabam com o ritual “... a ver se a gente vai almoçar um destes dias, pá!”
Hoje
Isto está de tal modo imprevisível que já me interroguei intimamente: hoje, cá em casa, janta-se?
Lembrar
Sei que não é popular estar a dizer isto, mas gostava de recordar que a solidez de uma democracia se revela pela capacidade das comunidades políticas conseguirem preservar sempre, com firmeza e rigor de princípios, os direitos individuais e coletivos, resistindo aos arbítrios que tendem a surgir nos períodos de exceção e de pânico.
Modéstia
Tratando-se de um tema que nos afeta a todos, todos temos o direito de ter uma opinião sobre as medidas tomadas na crise de saúde pública. Mas, sejamos modestos: há gente que sabe muito mais do que nós sobre questões técnicas ligadas à saúde e, por isso, aquilo que diz vale bastante mais do que os nossos “bitaites” de cidadãos preocupados.
Sem pena
1980. Fui conduzido através de um longo corredor, de paredes quase imaculadas. Acompanhava-me um guarda, altíssimo, que não disse uma palavra.
À época, na interinidade entre dois embaixadores, tinha a meu cargo a embaixada. Mas, essencialmente, a minha presença por ali era na qualidade de chefe da secção consular da embaixada de Portugal em Oslo. Tratava-se de uma prisão, nos arredores da cidade, onde ia visitar um detido português, que aguardava julgamento.
Nas semanas anteriores, o caso ganhara destaque em todos os jornais, com evidência particular no popular tablóide “Dagbladet”, que dera ao assunto um imensa visibilidade, na primeira página. O nome de Portugal vinha em todos os títulos. Incomodamente.
Se as razões para alguém estar numa prisão comum são, quase por definição, sempre desagradáveis, as que justificavam o encarceramento daquele homem eram particularmente graves: uma tentativa de violação de uma menina de oito anos. Tratava-se de um tripulante de um barco de passageiros que, creio, fazia a ligação entre Oslo e Copenhaga.
O presumível violador fora apanhado em flagrante pelos pais da criança e, por muito pouco, havia-se livrado de uma valente sova dos colegas indignados. Mais tarde, viria a saber-se que já tivera atitudes inconvenientes para com outras crianças, sem que, por razões pouco claras, tivesse sofrido consequências criminais ou sequer disciplinares.
Entrei na sala, onde o homem estava sentado a uma mesa. Não se levantou, estendeu-me a mão e parecia invadido pela maior serenidade do mundo. Parecia estar a fazer-me o favor de me “receber”. Devia rondar os 40 anos. Recordo-me de que vestia uma camisa branca, tinha um olhar neutro e frio, um cabelo preto puxado para trás. Não havia pedido assistência consular e fora eu quem, alertado pelas notícias, pedira para ir vê-lo.
Era, aliás, a primeira vez que eu visitava, como responsável consular, um cidadão português detido. Uma certa arrogância que transparecia da sua cara, somada ao caráter repugnante daquilo de que era acusado, transformavam aquela minha diligência num momento bastante penoso.
Perguntei-lhe se estava bem, se já tinha assistência de um advogado e, ns sequência dessa confirmação, mais para alimentar conversa do que por outra razão, se já tinha alguma ideia sobre a pena que poderia vir a ter. Não respondeu e mudou a conversa, com uma calma que começava a irritar-me. Nem por um instante tentou sugerir que as imputações que sobre ele impendiam eram falsas, ou mesmo exageradas. “O advogado disse-me que há a possibilidade de, dentro de semanas, poder vir a aguardar julgamento em liberdade, porque se metem as férias judiciais e não podem manter-me muito tempo em prisão preventiva”, disse-me, com um ligeiro esgar sorridente.
Eu não tinha quaisquer informações sobre o processo. A Noruega dispunha um sistema judicial a toda a prova, ele já tinha uma defesa em curso, pelo que não se colocava o problema do Estado português providenciar alguma assistência judicial supletiva. Inquiri, assim, se necessitava de alguma coisa da embaixada. Respondeu-me: “O problema é que não tenho o meu passaporte”. Fiquei surpreendido: “Mas para que é que agora quer o passaporte?”. Num tom impávido: “Se me deixam em liberdade provisória, “piro-me” logo. Atravessar a fronteira para a Suécia é “canja” e o passaporte dava-me jeito depois, para depois chegar a Portugal“.
Pela minha cara, deve ter percebido de que não podia contar com qualquer “cumplicidade”. E, de repente, temeu: “Não vai contar isto aos noruegueses, pois não?”. E ainda tentou: “A embaixada passa-me um novo passaporte?”. Nesse tempo, os passaportes eram feitos à mão, com alguma discricionariedade e facilidade, mas com regras. Para emitir uma segunda via, era necessário que tivesse havido um extravio, comunicado à polícia.
A cena estava a ser demasiado pesada para mim. Ali estava alguém que claramente sabia a gravidade do que tinha feito, que tentava colar-me à sua esperteza. Levantei-me e disse: “Claro que não vou dizer nada desta conversa aos noruegueses. Mas, se quer a minha opinião, acho que eles não o vão soltar. E mesmo que isso acontecesse, eu não lhe ia emitir um segundo passaporte”.
Foi então que, pela primeira vez, mostrou uma expressão facial diferente. Levantou-se também. Era mais baixo do que parecia, quando sentado. Fixou-me com um olhar duro: “Eu tenho os meus direitos!”.
Por um instante, “passei-me”, reconheço: “A miúda também tinha! O tribunal tratará dos seus direitos. Passe bem!”. Voltei-lhe as costas, bati na porta, o guarda grandalhão abriu e fui-me embora. Não me senti nada bem com a cena. A emoção toldara-me aquela que tinha sido uma das minhas primeiras ações de natureza consular.
Semanas depois, telefonaram-me do tribunal. Tinham recebido uma segunda queixa sobre o homem, um caso similar. Pela conversa, fiquei com a sensação de que houvera ali um certo artificialismo para que um novo tempo de prisão preventiva se iniciasse, evitando a saída do homem da cadeia.
Poucos meses mais tarde, o tribunal decidiu, num julgamento em que esteve presente um representante da embaixada: uma condenação pesada. Devo confessar que não tive a menor pena “patriótica”.
quarta-feira, março 11, 2020
Cada um no seu papel
Lembrei-me dele ontem, ao ver anunciado que o açambarcamento nas lojas, por uma misteriosa razão, começa sempre pelo papel higiénico. Esse meu amigo, que acumulava essa já de si invejável qualidade com o facto de ser também um sábio, afirmava que “aquilo que verdadeiramente distingue um país é a qualidade do seu papel higiénico. Nunca encontrei nenhum país subdesenvolvido onde houvesse um papel higiénico decente”, sentenciava ele, prenhe de experiência. É claro que, na altura em que ele afirmava essas coisas imensamente sábias, ainda havia países “subdesenvolvidos”; agora só há “países em vias de desenvolvimento”, isto é, a doutrina aponta para que todos os países caminhem no sentido de virem um dia a ter um papel higiénico decente. (Que raio de conversa! E tem este tipo por aqui um blogue com pretensões!)
Adiamento
Os vírus também atacam os lançamento de livros... Lá teremos de encontrar uma nova data para a apresentação do “À Luz do Índico”, de Amélia Vera Jardim, que estava previsto para dia 16 de março.
Depois avisarei da nova data.
Saudades de Draghi
Aquando da crise financeira, há pouco mais de uma década, o mundo desenvolvido passou a ter a súbita consciência de que todo o poderio que tinha criado uma imensa riqueza e bem-estar, que parecia sustentável com alguma segurança, era, afinal, uma realidade perecível. Em semanas, esfumavam-se fortunas, empresas desapareciam, a falta de postos de trabalho gerava miséria em vários dos seus setores. A engenharia financeira que tinha criado a “bolha” de progresso veio a mostrar-se de uma espantosa fragilidade. As consequências políticas foram óbvias: Trump, AfD na Alemanha, Marine Le Pen, o Brexit, Salvini e o estilhaçar ético-político da União Europeia.
Foi muito curioso constatar que o “clube dos ricos”, orgulhosamente reunido no G7, foi de imediato obrigado a estender a mão ao mundo emergente, situado no patamar imediatamente inferior de riqueza. Nasceu aí o G20, um conjunto muito heterogéneo que acolhia as economias de segunda linha, onde, na realidade, estavam situados os mercados em que assentava o crescimento dos primeiros. Todos nos recordamos daquelas imensas fotos de família, onde Merkel e os seus pares do “primeiro mundo” sorriam para chineses, indianos e brasileiros. Onde é que isso levou? A muito pouco, no final de contas.
Para além da pressão sobre os paraísos fiscais, onde o mundo desenvolvido tenta fazer esquecer que também alimenta “dumpings” que nunca dispensa - do Luxemburgo ao Delaware -, de um relativo esforço de transparência que, afinal, está nos antípodas daquilo que é a matriz do capitalismo especulativo, a “regeneração” pós-crise acabou por ter resultados globais muito parcos.
Nos fóruns onde a regulação económica verdadeiramente se pratica, isto é, nas instituições de Bretton Woods (Banco Mundial e FMI), o novo “segundo mundo” apenas obteve algumas “migalhas” institucionais, quase sem significado. Para isso, muito contribuiu a circunstância dos “emergentes” terem ido cada um para seu lado, com a China a mudar de “campeonato”, a Rússia a claudicar económica e demograficamente, a Índia a não conseguir ter uma estratégia mínima de afirmação externa e o Brasil a regressar ao seu eterno estatuto de “país do futuro”.
Estamos hoje numa situação idêntica à de 2007/8? Alguma coisa se aprendeu, mas, ao que se sabe, nem a própria UE conseguiu ainda consensualizar medidas sólidas para enfrentar crises muitos sérias. Por estes dias, os efeitos do coronavirus irão pôr à prova a solidez do que aí está. Por que será que tenho saudades de Mario Draghi?
Noutro país
Como eu gostaria de ver, numa declaração conjunta, António Costa, Rui Rio, Francisco Rodrigues dos Santos, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, expressando a sua comum preocupação pela situação que o coronavirus acarreta para o país e apelando a medidas coletivas de responsabilidade!
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Tempus fugit
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