quinta-feira, dezembro 12, 2019
quarta-feira, dezembro 11, 2019
O teatro da verdade
Há muitos anos, tive um chefe só com certezas: perante qualquer assunto, tinha sempre uma sólida opinião, que assumia com uma inabalável determinação. Porém, se as circunstâncias mudavam e, forçado pela realidade, se via obrigado a alterar o que pensava, era em absoluto incapaz de confessar que se tinha enganado. Afirmava a nova posição com total desplante, como se nunca tivesse dito algo diferente. E ai de quem tentasse sugerir que se estava a contradizer!
Quando passei pela política, aprendi que, por aí, a regra era exatamente a mesma. Raramente se ouve alguém dizer: "Enganei-me, procedi de forma errada e, porque aprendi com esses erros, vou de futuro fazer diferente". Um político que assim proceda teme que lhe seja atirado à cara que, afinal, era a oposição da época que tinha razão e que, se ele havia cometido então os erros que agora confessava, talvez não haja razões para o eleitorado voltar a confiar em que ele não venha a errar de novo no futuro. E, por isso, continuará, com a segurança de sempre, a dizer e a fazer coisas diferentes das que fez ou não fez no passado, mas sempre sem se retratar, como se nada tivesse ocorrido, incapaz de pedir desculpa pelos pecados cometidos.
Há quem, numa altivez política, teorize mesmo esse comportamento. A uma figura pública muito conhecida, perguntei um dia que erros reconhecia que cometera, face a uma realidade que se tinha revelado completamente adversa das soluções que ele empreendera. Abespinhou-se comigo e disse-me: "Eu não cometi erros. Atuei, da forma que me pareceu mais adequada, em face dos dados de que, à época, dispunha. Esses dados e os pareceres que recebi com base neles, apontavam para a tomada das medidas que tomei". Ingénuo, perguntei-lhe se, ao menos, se não arrependia de ter assumido as políticas que então preconizara. A resposta foi lapidar: "Arrependermo-nos é errar duas vezes..." E passou à frente.
Será inevitável que os políticos procedam sempre desta forma? É assim tão impiedosa, ao ponto do absurdo, a opinião pública? Não será esta capaz de apreciar a sinceridade, a honestidade e a franqueza, o humano assumir do que se fez de errado? Gostava de pensar que sim, mas não penso. E, por isso, aprendi a viver com os políticos: vendem-nos, na busca do nosso voto, programas que já sabem que não vão cumprir, mentem-nos com toda a verdade que sabem imprimir a um discurso em que, no fundo, nenhum de nós - a começar por eles - acredita. É o teatro da verdade.
terça-feira, dezembro 10, 2019
O regresso dos bufos
Quando as pulsões populistas esquecem o cuidado mínimo a ter com os direitos básicos das pessoas, o resultado é sempre a grossa asneira. A “delação premiada”, que as teorias das justiças de pacotilha utilizam pelo mundo subsdesenvolvido para obviar à incompetência investigativa, tentando acomodar da maneira mais baixa os clamores da indignação justicialista, anda agora por aí nas bocas do nosso pequeno e, por isso, mais miserável mundo.
Ora nós já por cá tivemos a delação premiada! Que outra coisa era senão isso a corte de “bufos” que a Pide alimentava, à custa de alguns tostões e outras benesses?
Imediatamente a seguir ao 25 de abril de 1974, quando dava instrução na Escola Prática de Administração Militar, aproximaram-se de mim dois irmãos, ambos economistas, que frequentavam a especialidade de “Contabilidade e Pagadoria”. Por uma razão que eu não conseguia compreender, esses meus instruendos mostravam-se muito inquietos com a Revolução que tinha acabado de suceder, querendo saber do seu possível destino pessoal, então que a guerra colonial parecia sair do horizonte. Ia acabar já o seu tempo de “tropa”? Regressariam de imediato à vida civil? Encaravam mesmo a hipótese de ir para o estrangeiro.
Eu achava tudo aquilo um pouco estranho! Logo então, que Portugal começava finalmente a “ter graça”?! Mas, embrenhado que andava, por esses dias, nas lides revolucionárias, dei-lhes pouca atenção. Mas, lá no fundo, estranhava aquela aproximação conjugada e um pouco insistente de mais.
Mas acabei por esquecê-los, semanas depois. Só voltei a lembrar-me deles, meses mais tarde, quando veio a ser revelado que esses “irmãos metralha” eram, afinal, dois miseráveis “bufos” da Pide, de quem haviam sido encontradas cartas sob pseudónimo, a denunciar colegas que, por sua culpa, tinham passado “as passas do Algarve”. Isso acabou por vir a público, os canalhas foram desmascarados mas, com toda a certeza, a “bondade” do 25 de abril acabou por esquecer esses pecadilhos e, às tantas, ainda aí hoje andam de costas (a fingir de) direitas.
Se os legisladores portugueses tiverem o topete de trazer para cá o instituto jurídico da “delação premiada”, um sistema de benefício para gentalha a querer absolver-se das suas próprias patifarias, facilmente inventando sobre as dos outros, com o grau de “credibilidade” que o seu estatuto lhes concede, esses legisladores qualificar-se-ão bem a si mesmos. Convém que isto fique dito, alto e bom som, desde já. A justiça, para ser justa, tem de começar por ser decente.
Há dias e dias...
Não sei se também lhes acontece, mas, a mim, em certas zonas de Lisboa, se acaso vejo um lugar vago em que parece ser possível estacionar o carro, acho isso uma coisa tão extraordinária que penso logo que, por qualquer razão, não devo estar a ver bem, que deve ser proibido, que aquilo é para moradores ou outras causas impeditivas, que não descortino à primeira. E lá vou eu olhar, com cuidado, as placas de trânsito e o seu “small print”, incrédulo quanto àquela impossível sorte.
Foi o que me sucedeu, ao final da tarde de ontem, no Príncipe Real, lugar onde, que me recorde, quase só consigo lugar para parar o carro uma vez em cada ano bissexto - e não em todos. E este lugar era mesmo em frente à esplanada norte!
Dava assim para ir à “Travessa”, a magnífica livraria brasileira, hoje, com a FNAC do Chiado, a melhor de Lisboa. Por lá me cruzei com um recém-adelgaçado e recém-publicado autor (falámos sobre um amigo nortenho comum, António de Sousa Homem), com uma romancista por quem (disse-lhe) não passam os anos (ser de Boliqueime confere longevidade, como a pátria aprendeu) e com um grande poeta, este ajoujado de compras livrescas. A ele inquiri o que achava da autora de um pequeno livrinho, que eu tinha acabado de me oferecer, também de uma poeta (agora não é “bem” dizer-se “poetisa”) de quem, há tempos, tinha lido uma coisa que me agradara bastante. Foi críptico, mas não estranhei: os poetas raramente rimam uns com os outros.
Ao pagar, perguntei à jovem que me atendeu se por ali vendiam a “Piauí”. “Ainda não”, respondeu-me, acrescentando um simpático: “Mas não perca a esperança!”. Sobranceiro, lancei: “Era só para saber! Eu tenho uma assinatura!”. Fiquei com a sensação de ter subido uns furos na consideração dela, que intimamente se deve ter interrogado sobre quem era aquele idoso, gordo e de cabelos brancos, que perguntava sobre a revista mais detestada pelos “bolsominions”.
Voltei a encontrar o Brasil logo numa porta a seguir, na pessoa da empregada da Benamor, onde me deu para comprar meia dúzia de sabonetes de cheiros diferentes, que andei a snifar pela loja. Era do Recife, mas (falha imperdoável!) nunca tinha ido jantar ao “Leite”. Mas, em compensação, constatei, conhecia por lá as esculturas do Brennand e o artesanato do mestre Vitalino. Estava perdoada!
À saída, embora com o frio lisboeta (mas eu tomei a vacina da gripe!), bem encasacado, para usufruir um pouco mais do estacionamento, arrisquei beber uma cerveja na esplanada do Príncipe Real. (O Brasil de novo: quantos dos brasileiros que por aí andam saberão que aquela praça se chamou um dia “Rio de Janeiro”?).
Numa mesa quase ao lado, estava um casal, na casa dos trinta. Ele tinha uns óculos redondos “à Trotski”, ela tinha, como qualidade mais visível a olho nu, ser gira à brava.
A certa altura, ele explicava, didático: “... e o homem esteve preso muitos anos, era comunista”. Sou avesso a ouvir conversas alheias, mas, dado o tema, fiquei curioso. Quem seria o comunista? Alguém conhecido ou um anónimo? Ele terá então dito o nome, mas uma buzinadela de um carro “tapou-o”. Bolas! Mas, tive sorte, porque ela retorquiu: “Mas esse não era do Cavaco?”. Um comunista do Cavaco? Olá! Aquilo começava a ter graça!
Nesta fase do diálogo, entremeado pelo barulho dos carros, senti-me da brigada do José Gonçalves (para quem não saiba, era o melhor “pide de rua” que a banditagem da António Maria Cardoso tinha por lá). O “Trotski” deu então uma gargalhada e eu, divertido como um cuco, lá o ouvi explicar à namorada boazona: “Esse era Dias Loureiro! Eu estou a falar do Dias Lourenço!”. Só parei de rir na rua de S. Bento.
segunda-feira, dezembro 09, 2019
Altino Queirós
O Altino Queirós, quando nos anos sessenta andávamos no liceu, lá por Vila Real, era já um reputado mestre em desenho, deixando-nos a todos num patamar de manifesta inferioridade. Daí que não me tenha surpreendido vê-lo seguir para Belas-Artes, o destino que sempre me pareceu natural.
Nunca mais falámos, a vida fez-nos perder de vista, por cinco décadas. Sabia que tinha continuado a desenhar e pintar, tinha lido da sua participação em exposições, mas pouco mais e sempre à distância.
Há tempos, num dos repastos nostálgicos que o pessoal desse período vilarrealense organiza, com notável regularidade, no Porto, e onde, por um raro acaso de agenda, consegui ir, alguém me disse: “Está ali o Altino. Lembras-te dele?”. Claro que me lembrava do Altino! Mas eu recordava-me de um Altino com um cabelame invejável com que ele - e o Trigo, seu companheiro regular de então - se passeavam na avenida (em Vila Real, dizer “avenida” não necessita de complemento explicativo), sob o olhar admirativo do pequename feminino. Por uns segundos, hesitei: mas ali estava ele, agora desprovido, em absoluto, desse abundante ornamento capilar! Porém, a cara, o sorriso e a simpatia eram os mesmos pelo que caímos nos braços um do outro, lembrando esses velhos tempos. A verdade é que, também eu, à época um “lingrinhas”, estava agora com uns (escassos) gramas a mais e uma cabeça (ligeiramente) mais esbranquiçada...
O Altino teve a amabilidade de me mandar, há tempos, pelo Miguel “do Bazar” (já que falámos de cabelo, ele é o único vilarrealense que mantém, da juventude até hoje, com um “boyish look”, uma trunfa “à maneira”, cujo segredo um dia terá de explicar devidamente), um exemplar de um seu magnífico trabalho gráfico, com dedicatória tocante.
Ora Lisboa não é Vila Real e eu e o Miguel não nos cruzamos, com frequência, como acontece “lá em cima”, à esquina da Gomes ou no balcão da Tosta Fina. Por isso, a simpática oferta do Altino demorou um bom tempo a chegar-me à mão. Recebi-a, há dias, por terceira mão, e dela deixo aqui uma imagem possível, com um agradecimento ao autor, por esta sua quase prenda (eu sei que, em linguagem de “tias” se diz “presente”) de Natal.
Espero, quando conseguir ir a uma das próximas almoçaradas, retribuir-lhe, com um forte abraço, este seu gesto de amizade.
domingo, dezembro 08, 2019
Um anão nas Necessidades
Nunca, em toda a minha vida, vi um anão no exercício de funções diplomáticas. O que não significa que não possa haver alguns, em alguma parte do mundo.
Foi essa constatação que me veio à ideia quando, há precisamente 25 anos, sendo eu membro do júri de acesso à entrada na carreira diplomática, me informaram, um dia, que um dos candidatos que, nessa manhã, viria àquilo que então se chamava “prova de apresentação” era anão.
A “prova de apresentação”, à época, era uma conversa, parte dela conduzida em francês ou inglês, durante a qual, por cerca de 20 minutos, tentávamos perceber se o candidato tinha requisitos mínimos, em termos de expressão, cultura e até bom-senso, para o exercício da profissão. Era uma prova com um alto grau de subjetividade, mas através da qual eu tinha (e tenho) uma única certeza: nesses 20 minutos, eu percebia, sem a menor sombra de dúvida, se o candidato NÃO tinha as qualificações para integrar a profissão. E sublinhei o “não” porque o contrário não era necessariamente verdade: vários candidatos que nela vi aprovados (às vezes, também com o meu voto), viriam a revelar-se maus ou medíocres profissionais da diplomacia.
A “prova de apresentação” tinha lugar entre as várias e eliminatórias provas escritas e os exames orais, onde, nesse ano, também haveria examinadores de luxo: Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Beleza, Vitor Gaspar, etc. O júri era presidido pelo secretário-geral, embaixador Costa Lobo, vice-presidido pelo embaixador Luis Navega e integrado por Rui Quartin Santos, Manuel Fernandes Pereira, António Santana Carlos e eu próprio - estes últimos quatro funcionários no ativo, todos exercendo então funções de direção no MNE.
Dou estes pormenores para se perceber bem o contexto em que caía, sobre os nossos ombros, a responsabilidade de dizer sim ou não à entrada daquele candidato para a carreira. Recordo a primeira questão que se nos colocou: pode um anão ser membro de uma carreira diplomática? Seria uma situação, sem dúvida, estranha, mas lembro-me, como se fosse hoje e não sem algum orgulho, do sentido nossa atitude coletiva, tomada ainda antes da entrada na sala do candidato: se acaso viesse a constatar-se, na conversa que iríamos ter com o candidato (o qual, sublinhe-se, já tinha ultrapassado, com sucesso, todas as provas escritas), que ele reunia as qualificações tidas por necessárias, não iria ser o seu perfil físico, ainda que peculiar, que o iria impedir de ser aprovado. O facto de ser anão não iria por nós ser assumido como argumento para a sua exclusão.
A conversa com o candidato decorreu em moldes perfeitamente normais, ao que me lembro. Cuidámos em ser totalmente isentos nas questões que lhe colocámos e no grau de exigência que usámos. No final, a nossa decisão foi unânime: o candidato revelava várias e notórias insuficiências que, como acontecera a muitos outros sujeitos à mesma prova, o iriam obrigar a ficar pelo caminho, no seu desejo de ingressar no MNE, pelo menos naquele concurso. Mas, repito, isso nunca aconteceria, por nossa decisão, pelo facto dele ser anão.
Imagino que este post possa levar esta questão muito longe, até pela terminologia, não inclusiva e não atualizada (desde logo, a começar pelo título), que propositadamente usei, por se tratar de um episódio que ocorreu em 1994 - outros tempos bem diferentes no tratamento, nomeadamente semântico, deste tipo de questões!
E se, por acaso, o candidato fosse cego (em 1997, viria a entrar para o quadro técnico do MNE uma pessoa cega, mas não creio que isso fosse fácil de ocorrer se se tratasse do exercício de funções diplomáticas)? E se um candidato tivesse uma deficiência física limitativa, que o obrigasse ao uso permanente de uma cadeira de rodas, num tempo em que as acessibilidades eram muito escassas e viesse a ser necessário incumbi-lo, como a qualquer outro colega, de tarefas logísticas em tudo incompatíveis com tais limitações? E se acaso ele fosse muito gago, de uma forma quase limite, que afetasse fortemente a sua capacidade de expressão (recordo-me, porém, de um diplomata com algum grau de gaguez que chegou a embaixador), com todas as consequências na prática de determinadas diligências ou de intervenção ou tomada de palavra em negociações ou reuniões de trabalho?
Imagino que haja respostas “politicamente corretas” para todas estas questões. Tenho mesmo a certeza de que contar aqui este episódio, bem como comentá-lo da forma como acabo de o fazer, é bastante delicado e até um pouco arriscado. Mas a maneira como interpreto a minha liberdade nas redes sociais é precisamente esta. E já não tenho idade, nem paciência, para prudências de conveniência.
sábado, dezembro 07, 2019
Nuno
Jorge Sampaio prefacia o volume.
Mário Soares
Deixo esta foto, do dia 28 de outubro de 1995, quando me deu posse como membro do primeiro governo de António Guterres.
A dignidade de Merkel
Angela Merkel, tal como já havia acontecido com Helmut Kohl, é uma figura conservadora que tem uma dignidade rara, ao conseguir olhar bem de frente as tragédias do passado alemão. Mas é óbvio que isso resulta do facto de ter entendido que o eleitorado da Alemanha começa a “baixar a guarda” ética perante o renascer de alguns demónios. Irá a tempo?
Justiça
Alguém sabe se existe um quadro comparativo, à escala internacional relevante, que permita ver o rácio entre as acusações do Ministério Público e as efetivas condenações, permitindo aferir onde é que Portugal ali se situa? Há estatísticas idênticas sobre prescrição de processos?
sexta-feira, dezembro 06, 2019
Basta!
Se não tivesse respeito por algumas pessoas que passam o tempo na imprensa e nas redes sociais a falar das contradições do deputado de extrema-direita, quase que diria que estavam a fazer deliberadamente o seu “jogo”. Como se quem vota naquela gente se preocupasse minimamente com isso... Deixem de falar no homem!
quinta-feira, dezembro 05, 2019
Diplomacia com asas
A propósito da vinda a Lisboa do primeiro-ministro de Israel e do chefe da diplomacia americana, surgiu nas últimas horas por aí alguma expectável urticária política, logo explorada mediaticamente.
Se, em seu lugar, fossem o presidente russo ou o líder venezuelano a pisar o solo português, os tenores desta opereta da indignação seriam outros. Nós conhecemo-los bem a todos...
Quando se não têm responsabilidades de Estado - melhor diria, quando se tem a consciência de que ninguém de bom senso lhas atribuiria - deve ser muito fácil ter, da política externa, tal como da política de defesa, uma visão “angelical”.
Na ótica dos arautos dessa retórica irresponsável, os governos do nosso país talvez devessem manter a firme perspetiva de que Portugal só teria relações diplomáticas, bem como as interlocuções políticas regulares que tal implica, com países cujos líderes e regimes cumprissem os “mínimos”, em matéria de Direitos Humanos e de observância de um comportamento internacional exemplar.
Se acaso seguíssemos os conselhos desses paladinos da “diplomacia com asas”, as trocas comerciais de Portugal cairiam a pique, as empresas portuguesas ficariam afastadas de dezenas de mercados, os nossos cidadãos que (como poucos) andam pelo mundo teriam sérias dificuldades de se estabelecerem e trabalharem, o nosso país, nas organizações multilaterais, deixaria de poder contar com votos essenciais à eleição de seus cidadãos para diversos cargos.
Mas o que é que isso interessa, quando o importante é almofadar as consciências?
Quando não se tem sentido de Estado, perde-se facilmente o sentido do ridículo.
quarta-feira, dezembro 04, 2019
Tratado em Lisboa
Numa sessão organizada no Palácio das Necessidades, por ocasião da passagem do 10° aniversário da entrada em vigor do Tratado que gere a União Europeia, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, foi de opinião de que não tem o menor sentido a ideia, que anda por certas esquinas da Europa, de vir a encetar-se um novo processo de revisão dos tratados europeus. Com a ironia que se lhe conhece, deixou claro que não dizia isso apenas pelo facto de não querer mexer no que se chama Tratado de Lisboa, tanto mais que ele é do Porto...
Concordo, em absoluto, com o ministro e espero que essa venha a ser a posição do governo português, nas instâncias onde isso for abordado. O tratado tem insuficiências, algumas das suas soluções suscitam reticências e incertezas, como, a convite do ministro, tive o ensejo de elencar, na intervenção que, nessa sessão, antecedeu a sua.
Porém, se olharmos as coisas com objetividade, não foi o Tratado de Lisboa o “culpado” pelos males da Europa, ao longo desta década. Pelo contrário, numa análise cuidada, como aquela que Santos Silva fez às crises que o projeto europeu atravessou nesse tempo, o documento assinado em Lisboa em 2007, e que, dois anos depois, entrou em vigor e tem vindo a regular o funcionamento da União, comportou-se de forma sólida e capaz.
Como o ministro lembrou, nesse entretanto ocorreu uma crise financeira global quase sem precedentes, seguida de uma crise interna das dívidas soberanas, de um trágico surto de refugiados, cumulado com as pressões migratórias que tiveram impactos políticos internos muito fortes, houve o desafio colocado pelo desrespeito pelas regras do Estado de direito por parte de alguns parceiros, a Europa foi capaz de responder unida ao Brexit e, “last but not least”, do outro lado do Atlântico tem estado alguém que transformou a América, de amigo tradicional, num poder com regulares atitudes adversas. Nesse cenário, a que poderíamos somar a gestão difícil das relações com a “nova” Rússia, da crise da Geórgia à da Ucrânia, não foi o Tratado de Lisboa que “atrapalhou” a funcionalidade da máquina europeia. Bem pelo contrário. Sejamos claros: se há coisa que falta à Europa não é um novo tratado, é vontade política.
A Europa é regularmente atravessada por tropismos reformistas. Faz parte da sua ambição de procurar andar para a frente. Resistir à tentação de entrar numa nova polémica institucional, num tempo de tensões pontuais ainda não resolvidas, é uma atitude de meridiana sensatez.
terça-feira, dezembro 03, 2019
Tratado de Lisboa
A minha colega, embaixadora Ana Paula Zacarias, Secretária de Estado dos Assuntos Europeus, introduziu e comentou as intervenções que o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e eu próprio ontem fizemos, numa reflexão sobre o Tratado de Lisboa, na data comemorativa da entrada em vigor daquele documento.
Quem estiver interessado em ler a minha intervenção pode fazê-lo aqui.
segunda-feira, dezembro 02, 2019
O bife da madrugada
Já são quase quatro da manhã. Estive a preparar um texto que vou apresentar amanhã à tarde, num determinado contexto. A esta hora, missão cumprida (e foi comprida), sei lá bem porquê, deu-me vontade de ir comer um bife. (A Greta só chega na 3ª feira, pelo que ainda dá para uma “pegada carnívora”). O Snob já fechou, o Outro Tempo Bar encerra aos domingos e o Café de S. Bento já está a dormir. Lá longe, o Império jaz sob a IURD, a Portugália está apagada.
Nos anos 60, quando estudava e vivia nos Olivais, ficava às vezes com um amigo a estudar até muito tarde. Se as massas davam para isso, a meio da madrugada, saíamos a pé pelos Olivais adiante e íamos cear uma bifalhada das antigas a um restaurante que ficava aberto 24 horas por dia na bomba de gasolina da Rotunda da Encarnação. Alguém se lembra do lugar? Deixo a imagem.
E pronto! Como, pelos vistos, não há condições para um pecado da carne, vou dormir!
domingo, dezembro 01, 2019
Profissional
Hoje, à saída de um restaurante, expressei a minha insatisfação por um aspeto do serviço. Tinha feito a reserva pelo telefone. Uma hora depois, recebi uma chamada com uma justificação. É bom sentir que ainda há profissionalismo na nossa restauração.
Ximenes Belo
Na tarde cinzenta e húmida de sábado, vinha ajoujado com um saco de livros que o meu amigo Luís Alves me tinha “aviado” na “Ler”, no jardim da Parada, uma das últimas livrarias de Lisboa onde a conversa com o livreiro tem substância e verdadeiramente nos ajuda (“Cardoso quê?”, perguntava-me, há semanas, um analfabeto funcional, numa loja onde se vendem livros, o que é bem diferente de uma livraria, a quem eu inquirira se tinha um exemplar do “O hóspede de Job”).
Vi então o letreiro: “Aloma”. Nunca tinha visitado aquela confeitaria de cujos pastéis de nata me tinham dito maravilhas. Entrei e provei um: não era mau, mas também não fiquei deslumbrado por aí além. Depois, como acontece com o “já agora” que os mestres-de-obras nos sugerem, vi um bolo-rei e cometi a minha anual transgressão anti-republicana: mandei embrulhar. “Traí” assim a “Nacional” e a “Versailles”, e, claro, a “Gomes”, lá por Vila Real. De caminho, também levei uma caixa dos tais pastéis, para testar em casa, com companhia e mais calma.
Estava eu imerso nestes ansiosos pecados da gula, olhando para o lado na esperança de não me cruzar com o meu médico, que sempre me alerta para os excessos nos açúcares, quando vi uma cara que me pareceu conhecida.
Não sei se lhes acontece o mesmo, mas, a mim, com a idade, tenho um “time-lag” cada vez maior de hesitação no reconhecimento de certos rostos. Vivo, aliás, crescentemente, no pânico de me dirigir, com estranha familiaridade, a pessoas que, afinal, apenas conheço da televisão ou de imagens publicadas. Já me aconteceu por mais de uma vez. Mas não foi este o caso.
Era o bispo Ximenes Belo. Com a popularidade posterior que Xanana Gusmão e Ramos Horta vieram a ter em Portugal, muitos já não se lembrarão de que aquele religioso timorense foi, durante bastante tempo, a cara de um Timor sofrido, que nos entrava em casa pela televisão, com um sorriso simultaneamente simpático e magoado, com um discurso nem sempre “politicamente correto”, nesses anos em que o pragmatismo da diplomacia da Santa Sé, titulado por um papa que se chamava João Paulo II, que algum mundo viria depois a incensar e, dizem-me, a “santificar”, assumiu atitudes - sei que muita gente não vai gostar de ler isto, porque há verdades que são duras - que oscilaram entre o cinismo, a “realpolitik” e o puro oportunismo amoral. E mais não digo!
Dei um abraço a dom Ximenes Belo. Recordei o tempo, no segundo semestre de 1999 (caramba, já lá vão 20 anos!), em que, durante dois dias, em Genebra, me havia juntado a ele e a Ramos Horta - precisamente as duas figuras que haviam sido distinguidas, em 1996, com o prémio Nobel da Paz.
Eu havia sido obrigado a abandonar uma tarefa que estava a fazer em Nova Iorque, no âmbito de uma Assembleia Geral da ONU, para ir destacado, como membro do governo, ajudar a procurar garantir a condenação da Indonésia na Comissão dos Direitos do Homem (era assim que se dizia, antes de passar a ser “Direitos Humanos”) das Nações Unidas, depois da violência que se desencadeara no território, na sequência do referendo que consagrou a vontade de independência dos timorenses. A Indonésia continuava numa posição muito relutante, pelo que forçar o seu isolamento político, no plano internacional, continuava a ser essencial.
O governo de Jacarta havia mobilizado todos os seus recursos e influências para derrotar a moção que queríamos ver aprovada. O trabalho de sensibilização de várias delegações em Genebra, muito bem conduzido pelo nosso embaixador Mendonça e Moura, seria apoiado por nós os três, nas horas que antecederam a votação, numa ronda intensa de contactos.
Na memória ficou-me a recordação, quase caricata, de ir, com o nosso embaixador, bater à porta da residência do representante diplomático de um país lusófono africano, que necessitava de algum “estímulo” para estar presente, na manhã seguinte, naquele importante sufrágio. Lá apareceu...
O dia do voto foi dramático. A Comissão era presidida pela irlandesa Ann Anderson, que, uma década mais tarde, vim a ter como minha colega como embaixadora em Paris. Outra irlandesa, Mary Robinson, era, à época, Alta-Comissária das Nações Unidas para o setor. Sem fazer a barba nem tomar banho, saí do avião, depois do voo transatlântico, e fui, diretamente do aeroporto, visitá-la imediatamente após a minha chegada à Suíça. Articulei depois com o bispo Belo e com Ramos Horta o teor dos nossos discursos. E tivemos sucesso: a Indonésia sofreu uma esmagadora derrota e saiu condenada dessa votação.
No dia seguinte, Ximenes Belo, Ramos Horta e eu regressámos a Lisboa de “Falcon”. Só me recordo de que a conversa foi, quase toda, sobre futebol português... Depois de um tinto do Douro (seleção minha, por assumido enviezamento regionalista!) e um prato de queijos lusos bem escolhidos pela nossa Força Aérea, cada um de nós dormiu o resto da viagem até chegar a Figo Maduro.
Gostei muito de reencontrar o bispo Ximenes Belo nesta tarde de ontem, em Campo de Ourique. E tudo por causa de um pastel de nata...
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É interessante constatar como a crise que envolve dois ministros funciona como um teste ao presidente da República, para avaliar o grau de c...
















